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	<title>Livro de Todos</title>
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	<description>Livro de Todos</description>
	<pubDate>Tue, 24 Jun 2008 12:21:49 +0000</pubDate>
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		<title>18 - E-mails</title>
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		<pubDate>Fri, 13 Jun 2008 17:14:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[








F I M
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="TEXT-ALIGN: center"><a href="http://www.livrodetodos.com.br/wp-content/uploads/2008/06/cap18_msg02_rogerio_estadosunidos.gif"></a></p>
<p style="TEXT-ALIGN: center"><a href="http://www.livrodetodos.com.br/wp-content/uploads/2008/06/cap18_msg01_lucila_dinamarca2.gif"></a><a href="http://www.livrodetodos.com.br/wp-content/uploads/2008/06/cap18_msg03_bruno_franca.gif"></a><a href="http://www.livrodetodos.com.br/wp-content/uploads/2008/06/cap18_msg01_lucila_dinamarca3.gif"></a></p>
<p style="TEXT-ALIGN: center"><img class="aligncenter size-full wp-image-51" title="cap18_msg01_lucila_dinamarca4" src="http://www.livrodetodos.com.br/wp-content/uploads/2008/06/cap18_msg01_lucila_dinamarca4.gif" alt="" width="410" height="281" /></p>
<p style="TEXT-ALIGN: center"><a href="http://www.livrodetodos.com.br/wp-content/uploads/2008/06/cap18_msg01_lucila_dinamarca1.gif"></a></p>
<p style="TEXT-ALIGN: center">
<p style="TEXT-ALIGN: center"><a href="http://www.livrodetodos.com.br/wp-content/uploads/2008/06/cap18_msg02_rogerio_estadosunidos4.gif"><img class="aligncenter size-full wp-image-57" title="cap18_msg02_rogerio_estadosunidos4" src="http://www.livrodetodos.com.br/wp-content/uploads/2008/06/cap18_msg02_rogerio_estadosunidos4.gif" alt="" width="410" height="273" /></a></p>
<p style="TEXT-ALIGN: center">
<p style="TEXT-ALIGN: center"><img class="size-full wp-image-49" title="cap18_msg03_bruno_franca" src="http://www.livrodetodos.com.br/wp-content/uploads/2008/06/cap18_msg03_bruno_franca.gif" alt="" width="410" height="301" /></p>
<p style="TEXT-ALIGN: center">
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: center;"><strong style="font-weight: bold;"><span style="font-size: 20pt; font-family: Verdana; color: #000000;">F I M</span></strong></p>
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		<title>17 - Guerra e paz</title>
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		<pubDate>Fri, 13 Jun 2008 17:02:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[ 
A professora da USP estava uma fera.
 
– Não é possível. Esse menino escreve com a brandura e elegância de um Rubem Braga. Mas não é apenas um cronista, é um escritor. É, não será. Mas será grande, com certeza, embora ainda não seja conhecido. Não dar o prêmio para ele seria uma maluquice.
 
A reunião do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">A professora da USP estava uma fera.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não é possível. Esse menino escreve com a brandura e elegância de um Rubem Braga. Mas não é apenas um cronista, é um escritor. É, não será. Mas será grande, com certeza, embora ainda não seja conhecido. Não dar o prêmio para ele seria uma maluquice.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">A reunião do júri que escolheria os trabalhos a serem premiados, entre os sete finalistas selecionados pelos professores, estava fervendo. Estavam os três juízes com as cópias do livro do Bruno na mão – a do diretor de Marketing da empresa de computadores cheia de marcadores de páginas. Ele grifara trechos secundários do texto, em que o Bruno dizia que o computador facilitava sua vida de escritor, mas não era indispensável. Citava o Balzac, com suas penas obsoletas, escrevendo e reescrevendo sem parar, o Guimarães Rosa, que também rabiscava os originais datilografados dos seus livros (era muito mais moderno do que o escritor francês), vezes e vezes sem-fim.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Claro, Bruno não era um Balzac, nem um Guimarães Rosa. Mas para a professora, tinha tudo para ser, era só ser estimulado, ajudado. E era o que ela queria fazer.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O diretor de Marketing objetava:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– O livro dele apresenta os computadores como irrelevantes. Isso será péssimo para a política de vendas de nossa empresa. Seríamos obrigados a reformular toda a nossa estratégia de publicidade.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Não era bem verdade. Bruno até que elogiava os computadores, seu personagem lutara muito para conseguir de volta o que lhe fora roubado, para ele era um ótimo instrumento de trabalho; afinal não estamos na França dos séculos 18 e 19, nem na Minas Gerais dos anos 1930, 40. Mas o homem não queria saber de literatura, queria saber de boas mensagens sobre computadores – queria que ele os apresentasse como indispensáveis para os escritores.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Indispensável para um escritor é ler. Ler livros, muitos livros, toneladas de livros – rebatia a professora.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– E depois ler de novo, e de novo, e de novo – fazia coro o professor.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O impasse durava já uma hora, quando a professora, enjoada daquela discussão primária, atacou com tudo:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Muito pior para a imagem da empresa será este concurso não chegar ao fim por falta de um júri para decidir sobre os prêmios&#8230; </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">E dirigindo-se diretamente ao companheiro da Unicamp:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não quero ficar, na história da literatura brasileira, ao lado daqueles três pascácios que em 1937 deixaram o Guimarães Rosa fora do concurso da Zé Olympio.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Era uma conversa cifrada, só os iniciados podiam saber o que ela queria dizer. O diretor de Marketing, claro, não entendeu bulhufas. Mas o colega da Unicamp sabia que ela se referia ao prêmio literário de 1937, promovido pela Editora José Olympio. Os concorrentes estavam identificados por apelidos, mas uma carta mantida sob sigilo, guardada pela direção da editora, identificava cada um deles. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O livro <em>Contos de Viator</em> era um forte concorrente, mas acabou perdendo para <em>Maria Perigosa</em>, de Luís Jardim. Como a carta de identificação de Viator havia se perdido, durante muito tempo não se soube quem era o autor verdadeiro daqueles contos, que receberam elogios acaloradíssimos de dois jurados que queriam lhe dar o prêmio.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Só muito depois se soube que eram do escritor mineiro Guimarães Rosa, que  nos anos seguintes seria responsável por  uma verdadeira revolução na literatura brasileira, sobretudo na especialidade dos regionalismos. Os contos derrotados no concurso, anos mais tarde, formaram o livro <em>Sagarana</em>, que os críticos consideram dos mais importantes na obra do famoso escritor.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O diretor de Marketing, que não entendera a conversa cifrada, não entendeu também a ameaça da professora. O professor da Unicamp, que conhecia a colega de longa data, gelou. Ela falava em renunciar ao cargo de julgadora antes da decisão. E com certeza contava com a adesão dele, que não estava a fim de fanfarronadas. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Com muita habilidade, começou a dar um jeitinho de pacificar a reunião.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Acho que podemos chegar a uma decisão conciliatória.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Conciliar como? – falaram ao mesmo tempo a professora e o diretor.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Simples. O menino diz aí que o computador é importante, mas não é fundamental. Fundamentais são os livros. Acredito que, para ele, mais fundamental do que todos os outros é o livro dele que estamos julgando aqui.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Até aí, ninguém entendera nada. Ele continuou, mansamente:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Podemos dar a ele o terceiro lugar. Ele não ganha o computador, que não é tão importante, mas ganha a edição do livro, que é fundamental para quem quer começar a carreira de escritor.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">A professora logo objetou:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– O Guimarães ficou em segundo, em 1937. Ele vai ficar em terceiro, é pior ainda. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O professor da Unicamp rebateu, habilmente:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– <em>Sagarana</em> demorou muitos anos para ser editado, só chegou ao público quando o Guimarães já era um escritor consagrado. O do menino será editado imediatamente, quando ele ainda é um desconhecido.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">A professora finalmente cedeu. Concordou. Estava programada para aquela noite uma apresentação da ópera <em>A Flauta Mágica</em>, de Mozart, que era a sua preferida. Queria se preparar adequadamente para a noitada, não valia a pena continuar com aquela rixa.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Mas o diretor de Marketing não se rendeu, embora sem saber o que dizer e fazer. Achava que mesmo o terceiro lugar era um prêmio imerecido para o livro que fazia pouco dos computadores. Pediu um tempo para consultar seus superiores. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Enquanto ele consultava, a professora pegou o telefone, sobre a mesa, e começou a discar. Quando atenderam, perguntou:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– É da Embaixada do Brasil? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Quero falar com o adido cultural.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Claro, é o César.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Passou um tempinho em silêncio, logo retomou a conversa:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– César? Está resolvido seu problema. Tenho aqui a pessoa certinha para aquele lugar no novo centro de estudos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Quem é? É um menino de 15 anos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Como assim, muito novo? Estou aqui com o livro que ele acaba de escrever, estamos fazendo o julgamento de um concurso literário. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não, não tirou o primeiro lugar. Mas é igualzinho ao Guimarães Rosa em 1937. Vai ficar com o terceiro e o seu livro vai ser editado imediatamente. Garanto que vai ser um sucesso.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Tá bom, vou ver aqui na carta de inscrição, tem o nome completo, endereço, tudo direitinho. Passo para você por <em>e-mail</em>. Pegou a bolsa, verificou se estava tudo em ordem lá dentro, e explicou para o colega atônito, antes de ir embora sem ao menos esperar a decisão da diretoria:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– O Ministério dos Negócios Estrangeiros (Orsay) da França, em convênio com a Universidade de Paris e com o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, instituiu um programa novo, que contempla estudantes antes da idade universitária. Esse programa tem por objetivo estimular e dar formação a jovens escritores promissores, oriundos dos países emergentes. Todo ano serão escolhidos três desses países, e um concurso seleciona os candidatos, que, uma vez  aprovados, se reunirão em Paris. Foram escolhidos este ano o Brasil, a China e a Índia para fornecer os jovens talentos. Se Bruno tiver o livro editado, terá atendido o primeiro requisito para ser admitido.  Se tiver sido aprovado no colégio e falar pelo menos um pouquinho de francês, estará tudo em ordem.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">E completou a explicação:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Vai para Paris estudar  &#8220;Redação e Prática de Escrita Criativa&#8221;. O curso, em francês, reunirá estudantes brasileiros, indianos e chineses, que são obrigados a aprender francês. Aprenderão lá mesmo. Mas eles se tornarão escritores em suas próprias e respectivas línguas, e nem poderia ser de outra maneira, para o que haverá professores especializados. Para sobreviver, recebem uma pequena bolsa com os custos divididos entre os governos francês e brasileiro e vão morar na Cidade Universitária, onde farão suas refeições a preços subsidiados e muito baratos, nos vários restaurantes para estudantes, afetuosamente chamados de &#8220;Restau-U&#8221;.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Parecia uma aula, das boas. Embora estivesse falando com um professor, como ela, a professora gostava de deixar tudo explicadinho. Por isso, prosseguiu:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Por causa dos brasileiros, e porque rende mais do ponto de vista econômico devido à unidade lingüística, a direção do programa resolveu estender a parte brasileira para mais alunos de língua portuguesa, tanto dos países africanos (Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe) quanto de Portugal.  </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Assim, amplia-se consideravelmente o cosmopolitismo da experiência de Bruno, que fará vários amigos entre outros jovens de proveniências tão diferentes, mas todos com interesses semelhantes pela literatura e pela escrita.  Espero que ele descubra que, afinal, muito há em comum entre os seres humanos, mais do que as idiossincrasias que os separam. E comece a formar o conjunto de experiências e conhecimentos que farão dele, um dia, com certeza, outro Guimarães Rosa, para nosso orgulho.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Os poderosos chefões da fábrica de computadores, naturalmente, acharam uma bobagem aquelas preocupações do diretor de Marketing. Vê lá se o livrinho de um frangote desconhecido iria abalar a imagem de uma multinacional como aquela, com fábricas espalhadas por todo o mundo. Ainda se fosse uma publicação no <em>blog</em> do Noblat, do Luís Nassif, que todo mundo lê, podia ser. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Desautorizado, o diretor de Marketing aceitou a decisão dos dois professores e Bruno ficou com o terceiro lugar no concurso. E uma estada em Paris, com tudo pago, coisa que ele não sabia nem imaginava que fosse cair no seu colo, mas que iria adorar quando soubesse.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O resultado do concurso foi anunciado na televisão, na hora do almoço, pelo diretor de Marketing, o mesmo que não queria dar o terceiro lugar para o Bruno. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">A notícia espalhou-se pela cidade como fogo em palha seca, Magda soube quando operava a caixa registradora do supermercado, teve um chilique, precisou ir para a enfermaria tomar um calmante. Antônio quase caiu da escada, em que subira para acertar um transformador que estava dando o prego. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Na escola, foi um carnaval. A diretora suspendeu as aulas, todo mundo foi para o pátio, onde reinava uma algazarra generalizada – parecia que o Corinthians fora campeão. Bruno recebeu cumprimentos de todo mundo, tapas nas costas, beijos das meninas. Seu Joaquim era um orgulho só. Até a professora de Matemática foi abraçar o literato premiado, que provocou uma gargalhada geral:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Então, professora, agora posso ganhar um 10? Eu sou o autor do livro&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Uma semana depois, um carro preto, todo solene, parou na porta da casa do Bruno. A vizinhança ficou assanhada. Comentários de toda ordem.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Deve ser a polícia, fofocou dona Miguelina.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– É mesmo, concordou dona Josefina.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Esse Bruno não tem parada, fica aí com essas histórias de drogas, computador roubado, alguma nova deve ter aprontado.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Não era a polícia. Era um funcionário da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo que vinha trazer aos pais do Bruno a notícia de que ele fora selecionado para aquela primeira turma daquele programa lá em Paris, de que a professora tinha falado lá no concurso. Era um envelope lacrado, com as cores da bandeira francesa. O funcionário não sabia explicar direito o que era aquilo, mas eles poderiam obter informações ligando para o Ministério das Relações Exteriores, o famoso Itamaraty, em Brasília. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Lá ficaram sabendo pouca coisa mais, apenas aqueles detalhes que a professora havia enumerado ao colega da Unicamp. Bruno deveria se apresentar na representação do Ministério, no Rio de Janeiro, no começo de dezembro. Receberia todas as informações necessárias, e de lá mesmo seguiria para Paris, na companhia de um funcionário da embaixada. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Magda recolheu as xícaras da mesa e os pratinhos onde servira suas rosquinhas para o visitante ilustre, e pegou o telefone.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Vilma? É Magda. Quando é que você vai à 25 de Março com a Ester?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Hoje mesmo? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Já estão saindo?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Então faça um cafezinho para ela, espere um pouquinho enquanto eu me apronto correndo. Vou com vocês.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Exatamente uma semana depois parou outro carro preto na porta da casa do Bruno.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Será que é aquele Itamaraty outra vez?  dona Miguelina perguntou a dona Josefina, toda assanhada.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Não era.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Era a polícia. Ou melhor, era o Jean.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Bruno não fora ouvir as novidades, ele vinha contar. Era história comprida. Magda, que já havia voltado do trabalho, voou para a cozinha, para preparar um café especial, para servir com as rosquinhas. Enquanto isso, Antônio voltava correndo do trabalho. Bruno, esse, estava no curso de francês que começara logo após receber a notícia da viagem para Paris. Sabia que lá teria um curso daquela língua, mas pretendia chegar falando pelo menos o feijão com arroz, ou melhor, a lagosta com a maionese (já sabia algumas coisas sobre a França). Holmes e Poirot também apareceram; afinal, armava-se a cena final de todos os livros de histórias policiais, quando  o detetive vai fazer aquele discurso final, esclarecendo todos os mistérios. Queriam saber como aquele pobre Jean daria conta dessa tarefa.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Café com rosquinhas&#8230; Holmes torceu o nariz, nas suas histórias serve-se sempre um cálice de xerez. Enfim, ali ele não era o personagem principal, era um coadjuvante. Cabia-lhe ouvir, apenas. Mas continuou implicando:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Nunca vi discurso final diante de uma multidão. Eu faço os meus apenas para o dr. Watson. Ele é que se encarrega de contar aos outros, escrevendo livros, suponho.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Poirot objetou:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– <em>Sont deux personnes</em> reais, de carne e osso, e <em>deux personnes</em> virtuais. <em>Non ser une</em> multidão.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não é para vocês, lá do continente, que são promíscuos. Para nós, da Grã-Bretanha, que nos orgulhamos de nossa privacidade, qualquer conversa de mais de duas pessoas  é multidão.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Poirot ficou uma fera.  Aquele &#8220;vocês, lá do continente&#8221; punha no mesmo saco os franceses junto com aquela gentinha da Espanha, da Itália, dos Bálcãs, da Turquia&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– <em>Intolérable</em>, vociferou, como nos mais legítimos livros de contos policiais. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Privacidade&#8230; Com todos aqueles pasquins maledicentes, quem tem privacidade naquela terra decadente? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Pensou, mas não falou. Ficou quieto.    </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Estava tudo pronto para o grand finale. Holmes acendeu o cachimbo. Felizmente Jean não fez o mesmo, se fizesse o ar ficaria irrespirável.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O detetive brasileiro limpou um pigarro e disparou:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Tudo começou quando o Bruno contou para o Colosso que estava escrevendo um livro com as coisas que ele tinha ouvido durante o sonho do Pirão. O Pirão é um joão-ninguém, não tem importância nenhuma no mundo do crime organizado, vive na periferia, não entra lá dentro, não poderia contar nada de importante do que lá acontece. Foi contar do livro do Bruno para o Coquinho só para se garantir, mas ninguém ligou. Começaram a ligar quando o Pirão lembrou de contar que o Bruno havia falado que o nome do personagem fictício que tinha criado no seu livro era Chico. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Por quê, perguntou de forma teatral, dando-se ares de Miss Marple.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Por que – respondeu prontamente – Chico é o codinome de um poderoso chefão do narcotráfico, que domina a favela de um dos mais belos morros do Rio de Janeiro. Ficou a dúvida: estaria o Bruno, apesar de toda a ignorância do Pirão, contando no seu livro a história do verdadeiro Chico?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Esse pessoal da pesada – continuou, depois de tomar um último gole do café, já frio – não brinca em serviço. Imediatamente foi feito contato com os chefes do crime organizado aqui de São Paulo, a maioria dos quais hospedada em prisões do Estado, e deram um jeito de roubar o computador do Bruno, com a história lá dentro. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– O computador foi passando de mão em mão, até chegar ao próprio Chico, o verdadeiro, lá no morro do Rio de Janeiro. Esse Chico é um criminoso singular, culto como ninguém, gosta de ler. Quando a polícia carioca conseguiu chegar ao seu esconderijo, encontrou várias estantes cheias ocupando boa parte do lugar. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– O Chico leu a história que o Bruno estava inventando, viu que não tinha nada a ver com a sua, verdadeira, e resolveu deixar para lá. Mas aí os especialistas do crime organizado, que ficam permanentemente vigiando na internet, descobriram as mensagens que o Bruno e o Rogério estavam distribuindo, para ver se pescavam alguma pista do computador. Os chefões resolveram entrar na brincadeira, para ver o que aquilo iria dar. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Voilá, estes brésiliens avacalham até o crime organizado. Organizado&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Era Poirot, ainda indignado. Agora com o crime organizado carioca. Talvez o paulista fosse mais respeitável.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Assim surgiu aquele misterioso JC. Não era John Constantine, o dos jogos e dos filmes, nem Juca Colosso, nem Jóquei Clube, como chegaram a pensar, quando as mensagens começaram a chegar do campus da USP, que fica ali pertinho. Eram apenas as duas letras que os traficantes usam para informar uns aos outros a chegada de uma nova remessa de drogas. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">JC – já chegou. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Pois o Chico, o verdadeiro,  com toda sua cultura, achou a história que o Bruno estava escrevendo muito legal. Quando soube que ele tinha todos aqueles problemas para escrever, precisava ir no Acessa São Paulo, depois no Poupatempo, gastava o pouco dinheirinho que o pai podia lhe dar na lan house do shopping, não sobrava nada nem para pagar um sorvetinho para a Lucila, mandou devolver o aparelho. Que fez toda aquela viagem de volta, do Rio para São Paulo. Por isso demorou tanto, os criminosos não podem simplesmente pegar um avião da ponte aérea e sair pela rua com um computador.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Infelizmente – começou a concluir Jean, vendo que a xícara estava vazia e não havia mais café no bule – não conseguimos prender o Chico. Prendemos o Coquinho, o Pirão não interessava. Mas o Chico conseguiu escapar, parece que foi para a Colômbia, não sei se vai agüentar, com todas aquelas delicadezas de homem culto. Lá a barra é pesada&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Holmes guardou o cachimbo, como se desinteressado do restante da história. Se é que haveria algum restante. E resmungou mais uma vez:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Nessa história, todo mundo vai embora para o estrangeiro&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Poirot sorriu, ferino, e disparou a pergunta implacável:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– <em>Pourquoi</em> ninguém foi para aquela ilha do Canal da Mancha?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ilha do Canal da Mancha? Essa, não. Foi a vez de Holmes ficar indignado, embora mantivesse a tradicional fleuma britânica. Pelo menos a aparência de calma. Por dentro estava fervendo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Ninguém? O que o Bruno poderia estudar <em>in England</em>? Por desleixo o governo brasileiro deixou acabar o Centro de Estudos de Cultura Portuguesa, de Oxford, negou um dinheirinho miserável para eles&#8230; </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– O que o Bruno iria estudar <em>in England</em>? Repetiu. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">E disparou, certeiro e mortal:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Ele só sabe falar duas línguas secundárias, uma delas ainda bem pouquinho&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><em>Mon dieu</em>, desta vez o saxão foi longe demais. Secundária, a sagrada língua de Racine, Molière, Rousseau,  Catherine Deneuve, Charles Aznavour&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Poirot soltou fogo pelas ventas. Por um momento, pareceu iminente o reinício da Guerra dos Cem Anos. As cinzas de Joana d&#8217;Arc juntaram-se outra vez, em Orleans, e os clarins soltaram seus trinados bélicos ao longe.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Felizmente, Magda trouxe um segundo bule de café e mais rosquinhas. Feliz com a estocada fatal que dera no inimigo incapaz de reação, Holmes acendeu o cachimbo outra vez e aceitou uma xícara com a respectiva rosquinha, conformado com a falta do xerez. Poirot ficou emburrado, no canto. Jean, depois de um novo cafezinho, como Holmes, e sem nada mais para contar, acendeu o cachimbo, outra vez como Holmes. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">E o Juca? Ainda está no hospital? Tem esperanças de recuperação?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Jean, inexperiente nessas exibições de discurso final de história de detetive, tinha esquecido aquela parte. Tomou a palavra, outra vez, para finalizar:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Quando falei com a mãe dele, lá no hospital de Curitiba, deixei com ela um cartão com o meu telefone e o telefone do Bruno. Ela ligou para mim, anteontem. O filho teve alta, foi para a casa dela, lá no interior do Rio Grande do Sul. Estava bem, mandava lembranças para o Bruno, pedia desculpas. Não queria mais saber de São Paulo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Um colosso – ela disse. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">E completou, para fechar a história de uma vez:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Parece que é coisa de família, isso de falar essa palavra a toda hora. Ou  sotaque gaúcho, não sei direito.</span></p>
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		<title>16 - Pobres cartas de amor, ridículas</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Jun 2008 17:01:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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Os professores recrutados para analisar o material entregue para o concurso estavam encantados. Afinal, uma das coisas com que menos podiam se regozijar era com a escrita dos alunos. Na rede estadual vinham, cada vez mais, sentindo a dificuldade dos alunos em registrar suas idéias. Talvez, se fossem instituídos mais concursos como esse na rede, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Os professores recrutados para analisar o material entregue para o concurso estavam encantados. Afinal, uma das coisas com que menos podiam se regozijar era com a escrita dos alunos. Na rede estadual vinham, cada vez mais, sentindo a dificuldade dos alunos em registrar suas idéias. Talvez, se fossem instituídos mais concursos como esse na rede, desde o ensino fundamental, os estudantes se sentissem motivados para ler e escrever. Para se tornarem autores. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Há pessoas que nascem com aquela vontade inexplicável de escrever e, para tanto, lêem tudo, conhecem autores, dialogam com os textos, imiscuem-se nas tramas. No entanto, escrever pode ser agradável e é altamente relevante para qualquer pessoa. Escrever, colocar as idéias no papel, fazer com que outros as conheçam, não depende apenas de talento, é algo possível de ser aprendido e lapidado, de acordo com a familiaridade que se tenha com os bons autores e com situações motivadoras que incitem o exercício da escrita.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Encarregados de encontrar os melhores textos entre as centenas de concorrentes, os professores empenharam-se no trabalho, garimparam as melhores idéias e as palavras mais bem colocadas. Às vezes, a idéia sobressaía e encantava, porém, para um concurso são necessários atendimento a critérios preestabelecidos e uso correto da língua. Outras vezes, a linguagem era ortográfica e gramaticalmente correta, mas a idéia era pobre. Um trabalho árduo esse; no entanto, encantador! Os professores vibravam…</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Bruno precisava contar as novidades para Luci. De qualquer jeito, precisava falar com ela. Era urgente.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Luci também estava vibrando com as novidades. As suas novidades! Depois da Amazônia, o Japão e depois? Europa&#8230; Europa&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Dinamarca, país gelado, diferente, ia ver a neve, andar pra lá e pra cá de avião. Precisava contar para o namorado. Era urgente.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Claro que contou tudo primeiro, quando se encontrou com Bruno. Meninas são sempre mais tagarelas e prolixas. Nesse caso da Luci, tão tagarelas e prolixas que Bruno esqueceu momentaneamente o arquivo oculto e tudo mais, as suas novidades.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Dinamarca… a terra de Andersen!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– É, Luci – disse empolgado, como quem sonha – Hans Christian Andersen, meu escritor preferido na infância&#8230; </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Pensou um segundo, emendou: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Depois do Monteiro Lobato, claro. Eu adoro seus contos e histórias. Meus preferidos são <em style="mso-bidi-font-style: normal;">O Patinho Feio</em>, o primeiro que conheci, e <em style="mso-bidi-font-style: normal;">O Soldadinho de Chumbo</em>. E você, meu bem (olha o meu bem de novo), deve gostar de <em style="mso-bidi-font-style: normal;">A Pequena Sereia</em>.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Bruno não sabia se colocava um fim nessa história de roubo – a história real, pois a de seu livro já estava escrita no exemplar entregue para o concurso. Nem se contava ao Jean sobre o tal arquivo oculto que havia encontrado no computador. Ou então se envolvia mais ainda o Rogério na história para que ele procurasse outros possíveis arquivos ocultos. Novamente a cabeça de Bruno, com tantas idéias e tanto para amadurecer, estava confusa. O que fazer?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Jean não fazia contato já há alguns dias, ninguém sabia se ele realmente estava próximo de encontrar o ladrão ou se havia seguido pista falsa novamente. Tinha vontade de ligar para o investigador e descobrir, talvez fosse mais pela curiosidade de saber quem foi o ladrão do que pela vontade de fazer justiça.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Na noite anterior, pegara o telefone, decidido, mas não completou a ligação. Desistiu no quarto dígito&#8230; </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não, acho que essa história já foi longe demais – pensou. E ficou lá, parado, com o telefone na mão, com o som de linha ocupada fazendo “tu, tu, tu” como um fundo musical para aquela cena. A cada segundo mudava de idéia, ora achando melhor acabar com tudo, ora tendo certeza de que era melhor ir até o fim. Era a indecisão em pessoa naquele momento.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ouvira as histórias da Luci com um ouvido, mas a cabeça ainda rodava distante. Depois do comentário sobre o Andersen, baixou um silêncio pesado entre eles.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Está vendo como estamos distantes, meu bem&#8230; começou a Luci, para animar a situação. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Quando ela disse aquele “meu bem” deu gelo no estômago de Bruno, daqueles quando, de surpresa, vemos a pessoa amada. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ela continuou, cautelosa: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Ouvi seus recados no celular, me desculpe por não retornar, mas é que esses dias todos foram uma correria total para mim.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Nem tentei ligar mais vezes, Luci, porque, apesar da saudade, eu também estava numa correria com o livro. Liguei pra saber de você mesmo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não estava agüentando mais ficar longe de você.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Bruno abriu um sorriso de orelha a orelha, orgulhoso pelo que ouvira, e retribuiu:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Eu também estava morrendo de saudades&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Vamos lá para casa, então, minha mãe fez aquela musse de maracujá com cobertura de suspiro que você adora.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Quando começaram a caminhar, de mãos dadas, tocou o celular do Bruno. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Era Jean. Finalmente.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Oi Jean, tem novidades?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Tenho sim, Bruno, mas temos que conversar pessoalmente. Pode ser agora?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ele não podia furar com Luci, além de estar louco para conversar calmamente com ela, namorar, como poderia “descombinar” aquela ida à casa dela? Ainda mais com a musse esperando. Feita especialmente para ele. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Hoje não posso, Jean.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Nem à noite?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– É, à noite pode ser que dê. Que horas?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Venha às 21h00 na delegacia, estou de plantão hoje.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Tudo bem, combinado.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Mas Bruno disse a última palavra para um celular mudo, pois Jean, como sempre, desligou antes de despedir-se.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Feliz da vida, Rogério, assim como a mãe, queria dar a notícia, a ótima notícia, para Deus e o mundo. Decidiu ligar primeiro para Fernanda. Pegou o celular, procurou na agenda, Fabio, Fabíola, Felipe, Fernanda! Apertou o botão verde e esperou chamar. Enquanto o telefone se conectava para iniciar a chamada, Rogério refletiu, naqueles poucos segundos, sobre sua vida:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Por que estou ligando primeiro para contar isso à Fernanda? Por que não ao Bruno, meu melhor amigo? Por que não à Luci?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Mas a reflexão não pôde chegar ao fim, Fernanda atendeu:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Alô.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Fê, tenho uma ótima notícia pra te dar e você é a primeira pessoa para quem estou ligando para contar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Que honra, Rogério… disse ela, surpresa e alegre. Na verdade, mais alegre do que surpresa.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Sabe aquela fábrica de computadores, na qual fui fazer aquele teste para estágio?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não me diga que eles te chamaram?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– E para trabalhar na Amazon Books, nos Estados Unidos!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não acredito!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Nem eu!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Que legal, Rogério, tenho que te dar os parabéns pessoalmente, onde você está?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Estou em casa, mas se quiser vou até aí.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Então vem logo!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Rogério, esbaforido, não achava as chaves, queria sair voando para a casa da Fernanda. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Atitude própria dos apaixonados. Com uma diferença: Bruno e Luci já tinham consciência disso; ele e Fernanda ainda não&#8230; mas não ia demorar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Enquanto corria, Rogério lembrou-se de contar para o amigo sobre a inesperada notícia.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Alô, Bruno.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Oi, Rogério, quanto tempo, hein!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– É, esses dias têm sido de correria. Mas liguei para você para lhe dar uma ótima notícia. Vou trabalhar nos Estados Unidos no fim do ano!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Ah, não brinca. É sério mesmo?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Sim, a fábrica de computadores me chamou para fazer estágio na Amazon Book, lá nos “Istêitis”, cara. Não é demais?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Putz, que notícia ótima. Isso merece uma comemoração!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Verdade, estou indo para a casa da Fernanda agora.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Pra casa da Fernanda?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– É, ela quer me dar os parabéns pessoalmente.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Hummmmm, disse Bruno, insinuando o que só o Rogério não queria ver.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não, Bruno, ela é só minha amiga.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Sei. Amiga. Amicíssima.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Sério.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Eu estou a caminho da casa da Luci, vou ligar para ela e ver se podemos comemorar os quatro juntos então. Já te ligo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">E assim combinaram de comemorar na casa da Lucila, pois lá tinha o tal musse de maracujá com cobertura de suspiro, imperdível. Vinte minutos depois, estavam lá, os quatro, brindando suas recentes </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">conquistas com taças de musse. O livro de Bruno terminado, as viagens de Luci para o Japão e Dinamarca, o estágio do Rogério na Amazon e a ainda não declarada paixão de Fernanda por Rogério, e vice-versa.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Em apenas um olhar para Luci, Bruno deu sinal para deixarem Rogério e Fernanda a sós, para ver se saía algum coelho daquele mato.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Luci convidou todos para irem a seu quarto, ver as fotos da viagem para a Amazônia.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ao chegarem no quarto, Luci agarrou Bruno e ficaram os dois se beijando. Rogério e Fernanda ficarem no sofá, sentados lado a lado. No começo, constrangidos. Sem jeito. Mas aquela situação era o que Fernanda estava esperando. A oportunidade. Quando Bruno e Luci se desgrudaram pouquinho, viram no outro sofá o mais novo casal se formando.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Sozinho, olhando para o <em style="mso-bidi-font-style: normal;">daruma</em> como um troféu, estava decidido. Não iria ao Japão. Por mais tentador que fosse o convite, para ele, mais importante que conhecer o berço de seu povo era manter seu juramento à esposa. Melhor que ter ido ao Japão foi ter trazido parte dele para o Brasil, ter compartilhado um pedacinho de sua experiência com toda uma escola, com jovens que levarão isso para a vida toda. Estava orgulhoso de si. Feliz por Lucila ter tido essa idéia. E mais feliz, ainda, pelo trabalho ter sido um sucesso tão grande.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ir ao Japão já não era tão importante naquele momento. O <em style="mso-bidi-font-style: normal;">daruma</em> de sua vida já estava com os dois olhos pintados muito antes disso.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Mas não diria a decisão a ninguém ainda. A paciência oriental era sua prática incansável. Aguardaria até que Luci lhe perguntasse. Por enquanto, a decisão ficaria guardada apenas com ele.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Seu Nikito continuava, como se estivesse anestesiado, a olhar para o <em style="mso-bidi-font-style: normal;">daruma</em>, pensando na amada que se fora. Pensava nela como se redigisse uma carta de amor, talvez tão compenetrado como Fernando Pessoa, ou melhor, Álvaro de Campos, em <em style="mso-bidi-font-style: normal;">Todas as Cartas</em><em style="mso-bidi-font-style: normal;"> de Amor são Ridículas</em>:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Todas as cartas de amor são</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ridículas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Não seriam cartas de amor</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Se não fossem</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ridículas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Também escrevi em meu tempo cartas de amor,</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Como as outras,</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ridículas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">As cartas de amor, se há amor,</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Têm de ser</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ridículas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Mas, afinal,</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Só as criaturas que nunca escreveram</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Cartas de amor</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">É que são</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ridículas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Quem me dera no tempo em que escrevia<span style="mso-spacerun: yes;">  </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Sem dar por isso </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Cartas de amor </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ridículas. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">A verdade é que hoje<span style="mso-spacerun: yes;">  </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">As minhas memórias<span style="mso-spacerun: yes;">  </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Dessas cartas de amor<span style="mso-spacerun: yes;">  </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">É que são </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ridículas. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">(Todas as palavras esdrúxulas, </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Como os sentimentos esdrúxulos, </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">São naturalmente </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ridículas.)</span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>15 - O arquivo oculto</title>
		<link>http://www.livrodetodos.com.br/2008/38/capitulo-15-o-arquivo-oculto</link>
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		<pubDate>Wed, 11 Jun 2008 16:59:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[ 
Mesmo que Bruno quisesse falar com a Luci, ela nunca estava em casa. Nas poucas vezes em que ligou para o celular dela, só ouvia a mensagem eletrônica: “Oi, aqui é a Luci! Deixe seu recado, assim que arranjar um tempinho, te ligo de volta, tá?”.
 
Naquela tarde, Bruno havia deixado três recados e nada, será [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Mesmo que Bruno quisesse falar com a Luci, ela nunca estava em casa. Nas poucas vezes em que ligou para o celular dela, só ouvia a mensagem eletrônica: “Oi, aqui é a Luci! Deixe seu recado, assim que arranjar um tempinho, te ligo de volta, tá?”.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Naquela tarde, Bruno havia deixado três recados e nada, será que ela nem mesmo teve tempo para ouvir as mensagens? Somente neste momento, o namorado se deu conta de que o tempo havia passado depressa, ele já lembrava com nostalgia os primeiros encontros, beijos, as primeiras descobertas do amor.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Mas não se deixou abater, no fundo, ele estava contente em ver Luci tão empenhada e decidida quanto ele, com seu livro, que por sinal estava quase pronto. Ela já não parecia mais a mesma! </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ou não? Pensando bem, ela era a mesma doce garota que ele tanto amava, mas, como ele, também passava por um processo de descobertas e amadurecimento.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O livro estava quase terminado e Bruno ainda não havia se decidido, final feliz ou infeliz? Afinal, aquela experiência não fora de toda ruim! Não mesmo! Foi essa rocambolesca aventura que o levou à certeza de que deveria seguir sua verdadeira vocação. É verdade, havia ainda muitas dificuldades a vencer, mas pelo menos o concurso seria uma prova decisiva para seu talento. Seria mesmo um escritor? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Não mirava nenhum prêmio, queria fazer parte do projeto, ficar mais experiente, amadurecer literariamente. Havia um grande e largo caminho aberto diante dele, uma infinidade de livros para serem lidos e apreciados.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Bruno não chegava a reconhecer isso, mas só o fato de alimentar essas preocupações, enquanto dava os últimos retoques em sua obra, já demonstrava que ele amadurecera, sim, muito, durante aqueles poucos meses de tanta agitação e corre-corre.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Naquela tarde Bruno estava mais filosófico que nunca, até se arriscou a compor uma poesia para mandar por <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em> para Luci:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">“Nada me resta sem você, </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">tudo que virá depois,</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">fará parte de mim para sempre</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">mas não apagará nada, </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">porque </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">afinal, quem somos nós </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">senão o resto de nós mesmos?” </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Bruno estava decidido, mandou a poesia por <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em> para Luci. E voltou à revisão de seu texto, queria que todas as palavras, frases e idéias estivessem em ordem, perfeitamente enunciadas. Queria ser o mais profissional possível, lia tudo atentamente, parágrafo por parágrafo, fazendo sempre mais alguns ajustes. Sobretudo, cortando os excessos! E se perguntando:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Por que os escritores nunca estão satisfeitos com o seu texto? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">E lembrou Balzac, de que tanto falava o professor Joaquim: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Ele escrevia e reescrevia seus romances, cada vez que recebia uma nova prova da tipografia, mudava tudo, era um desespero para os editores. Se ele tivesse um computador, como eu, seria muito mais fácil&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">E aí, de repente, uma idéia incrível lhe veio à cabeça: se é tão fácil deletar palavras, o contrário também é verdadeiro. Quando devolveram seu computador, não lhe ocorreu que alguém poderia ter colocado palavras nele também! Freneticamente, começou a abrir todas as suas pastas e documentos! Um a um, passou um tempão rastreando tudo que havia no <em style="mso-bidi-font-style: normal;">notebook</em> roubado e devolvido. Finalmente, lá no diretório <em style="mso-bidi-font-style: normal;">Arquivos de programas\arquivos comuns</em>, topou com a pasta oculta <em style="mso-bidi-font-style: normal;">JC</em>!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Tremeu dos pés à cabeça, o estomago deu um nó, uma sensação sufocante de surpresa e incredulidade tomou conta de sua mente e ele pensou em voz alta: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Meu, isso é medonho!!! </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Respirou fundo, clicou sobre o ícone, uma tela nova se abriu, um texto em PDF dizia :</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">“Estou do seu lado, garoto! Não tenha medo! Posso parecer o inimigo, mas na verdade sou seu aliado!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Conte esta história! Existem muitas histórias a serem contadas neste mundo, mas só um escritor como você poderá contá-la sem modificar os detalhes, com arte e sabedoria!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">JC, Chico para os amigos” </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Medonho? Nem tanto, parecia até simpático. Animador. Bruno decidiu na hora, sem hesitar:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Final feliz, claro&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Mais uma vez a atuação de Luci deu o que falar: muitos admiravam sua súbita vontade de mudar o mundo, mas a turminha do contra não perdia a oportunidade de criticar: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Até parece que um chiclete fora da lixeira pode se tornar problema ambiental&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">A jovem foi se envolvendo cada vez mais com a ONG – parecia ter passado a vida toda lá. Participava ativamente de todos os eventos, campanhas, mobilizações, conhecia gente de toda parte, defendendo as mais diversas causas. Mergulhou de cabeça na polêmica sobre a Amazônia. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Luci, essa sua brincadeira de ecologista está passando dos limites – resmungou dona Vilma no café da manhã, quando a filha falou sobre o convite que tinha recebido para conhecer a maior floresta do mundo. Igualzinho a Magda reclamando do Bruno com o computador.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– É um lugar muito perigoso, onde só tem bicho, índio, plantas desconhecidas, venenosas. Além do mais, foi lá que mataram a freira.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Luci não se deu por vencida: tinha recebido um convite de outra ONG, parceira da sua, para um grande evento que reuniria jovens de todo o País para lutar contra a retaliação da Amazônia, e não queria ficar de fora. O problema é que o encontro seria no Pará, a bola da vez em todos os noticiários, sempre com notícias ruins.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Ela chegou bem, Vilma garantiu ao marido ao desligar o telefone. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Agora é rezar para essa reunião acabar logo, sem ataques de índios e sem nenhuma morte. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O discurso dramático disfarçava a admiração que a mãe sentia pela filha. Pela nova filha. Mas ela ainda suspirava, de vez em quando: bem que Luci podia ser uma adolescente como as outras, ligada em moda, baladas, em crise com as espinhas e com o cabelo. Mas, não.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O evento no Pará reuniu jovens de diversas partes do País, com o objetivo de ampliar a mobilização contra o desmatamento. A ONG trabalhava com jovens de comunidades ribeirinhas, incentivando a sua participação nos debates sobre sua “casa”, a Amazônia. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Luci se encantou com o conhecimento que eles tinham sobre sua terra, meio ambiente, política. E como escreviam bem! Uma das atividades do encontro era a produção de um jornal, e a adolescente ficou de queixo caído com a facilidade com que os ribeirinhos compunham versos e paródias.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ao contrário do que muitos, como a Vilma, ainda acham, a Amazônia não tem só bicho e planta, mas uma população cheia de histórias. Os caboclos, mistura de índio com branco, moram dentro da floresta, vivem do extrativismo e são os verdadeiros guardiões da floresta, pois estão lá todo o tempo e dependem dela para sobreviver. Pescam, fabricam artesanato, os jovens freqüentam escolas, têm produção de alta qualidade e são mais conscientes do que muitos da “cidade”. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Foram poucas horas, menos de dois dias, naquele mundaréu verde e calorento, mas Luci voltou para São Paulo transformada. Mal teve tempo de contar para Bruno tudo o que tinha visto. A mãe parecia mais conformada:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Ainda bem que você só vai para o Japão quando chegarem as férias. Não deixaria você faltar na escola para passear. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">A visita seria no comecinho de dezembro, sérios como eram, os japoneses, como a Vilma, não queriam interromper os estudos da jovem. Ela ficaria lá três semanas e voltaria a tempo de passar o Ano-Novo com a família. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Vilma sabia que sentiria saudades, mas suportaria – logo a filha estaria de volta. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Mas quando o telefone tocou e Luci deu um grito, depois de ouvir as primeiras palavras, o medo voltou. E não era para menos:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;">  </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Dina&#8230; Dinamarca? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Notícia boa corre rápido, ao contrário do que muitos pensam, e as ONGs formam uma espécie de rede, conhecem o trabalho umas das outras. Luci se destacava rapidamente pela militância engajada, e pareceu bastante natural que fosse indicada por unanimidade para participar de uma conferência da juventude na Europa: o evento pretendia reunir jovens do mundo todo para trocar experiências e fortalecer seu protagonismo diante das causas ambientais.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Luci já ia mesmo dar a volta ao mundo para chegar ao Japão. Natural que aproveitasse a passagem paga pelo rico governo japonês – é a segunda potência econômica do mundo –, pois ONGs não têm dinheiro sobrando: na viagem de volta ao Brasil, faria uma escala em Copenhague, a capital da tal Dinamarca que reacendeu os temores de Vilma. Ela não tinha intimidade com o Google, pegou então um velho atlas que a Luci usava na escola, para saber onde ficava o tal país.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Longe, descobriu. Muito longe. Pertinho do Pólo Norte. Gelado. Em dezembro então, deveria ser um horror. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Com um suspiro, foi ao armário das coisas fora de uso, em busca das esquecidas agulhas de tricô. Numa tarde qualquer iria à 25 de Março comprar uma montanha de novelos de lã. Até dezembro, imaginava, teria tempo de sobra para preparar agasalhos para a filha querida, agora fonte de tantas preocupações.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Quase no mesmo momento do telefonema da Dinamarca para a Luci, tocou o telefone na casa do Rogério. Foi a mãe, dona Ester, quem atendeu. E gritou:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Rogério, é para você. Lá daquela fábrica de computadores&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Rogério deu um pulo da cadeira. Correu para o telefone, já sonhando:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Será que houve uma repescagem e eu voltei para a primeira divisão?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Era quase isso. O gringo, quem diria, ficou encantado com aquela conversa alucinante com o Rogério. Uma torrente de idéias e sugestões originalíssimas. É disso, exatamente disso, que vive o mundo digital. O Google, por exemplo, essa potência, uma das mais valiosas empresas do mundo, nasceu do nada, de uma idéia maluca de dois garotos como o Rogério. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Alucinados.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">A prova escrita demonstrava que o Rogério não sabia muito de informática, só o arroz com feijão necessário para navegar com competência pela internet e fuçar coisas mundo afora. Mas como sabia pensar&#8230; Pensar diferente, com ousadia, grande, imensamente grande. Grande como tudo que flutua no mundo virtual.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Pois não é que o gringo queria levá-lo para um estágio, não no Vale do Silício, onde apenas se fabricam <em style="mso-bidi-font-style: normal;">chips</em> cada vez menores e mais poderosos, mas na Amazon Books? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Nem o Rogério sabia direito o que é essa Amazon Books, a não ser que ela nada tem a ver com a Amazônia da Luci. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Correu ao Google para saber. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">De saída, que era fruto de uma idéia maluca como as que ele tinha aos montes. Mas não era de garotos atrevidos, era de um competente freqüentador do centro financeiro mundial, Wall Street: em 1994, o americano Jeffrey Bezos deixou um valioso emprego ali, na afamada ponta sul da Ilha de Manhattan, e criou a que seria a primeira livraria virtual de relevância na internet. Ao contrário de muita gente por aí, ele acreditava que livros têm tudo a ver com o mundo virtual, poderiam ser uma rica fonte de negócios e de dinheiro para quem se atrevesse a encarar o desafio. Ele se atreveu, e não teve por que se arrepender de ter abandonado a intimidade com a dinheirama de Wall Street.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O capital para abrir o negócio veio, é claro, dos chamados investidores de risco, gente com dinheiro suficiente para fazer apostas em empreendimentos originais. Assim, Bezos tornou-se um pioneiro da chamada economia digital, criou um novo modelo de negócios, que dispensa lojas, vendedores e, virtude das virtudes no mundo empresarial, opera com estoques reduzidos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Outras inovações da Amazon são a ligação direta com o consumidor, sem intermediários, e a capacidade de fidelizar o cliente, ao difundir o conceito de <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail marketing</em>, que oferece ao comprador de um livro um novo título que venha a ser lançado, do mesmo gênero ou do mesmo autor.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O gringo achava que Rogério, apesar da ignorância, mas com aquele inglês perfeito, para um jovem estrangeiro, tinha tudo a ver com o espírito reinante na Amazon Books. E queria levá-lo para lá. No começo de dezembro, claro, pois era preciso esperar o fim das aulas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Quando Rogério conseguiu contar tudo isso para a mãe, ela imediatamente ligou para o marido para dar a grande nova.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Boa ou ruim? Não sabia, ainda. Depois começou a ligar para as amigas, uma a uma. Não tinha certeza, mas achava que estava orgulhosa. Quando contou a novidade para Vilma, aproveitou para combinar de irem juntas à 25 de Março. Nos Estados Unidos, ela sabia de tantos filmes vistos na televisão, também faz um frio de rachar em dezembro.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Bruno conseguiu aprontar as três cópias do texto do seu livro no último dia das inscrições para o concurso literário da fábrica de computadores. Não tinha grandes esperanças, havia visto nos <em style="mso-bidi-font-style: normal;">sites</em> dos jornais notícias sobre ele, e sabia que não seria uma brincadeirinha como o concurso do jornal, em que ganhara o computador. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Como os prêmios eram valiosos, esperavam-se centenas de competidores. Seria preciso muita gente para ler aquilo tudo e fazer a seleção. Foram recrutados, então, sessenta professores de Literatura das escolas de ensino médio do Estado, para compor a linha de frente dessa estrutura. Seu Joaquim estava entre eles.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Os professores fariam duas leituras e reduziriam aquela prevista imensidão de livros a apenas sete. Então um júri muito especial escolheria desse conjunto os três a serem premiados. Era formado por uma professora de Literatura da Universidade de São Paulo, aposentada, e, portanto, com tempo livre para enfrentar essa parada; e um professor da Unicamp.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Claro, a empresa estava gastando uma boa grana com o concurso e queria tirar dele algum benefício para a sua imagem pública. O marqueteiro estava lá para fazer com que o resultado fosse o mais rendoso possível.</span></p>
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		<title>14 - Das novelas para a salvação do mundo</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Jun 2008 16:59:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[ 
Emília sorria com os olhos apertadinhos, enquanto conversava com Lucila, na porta da casa.
– E tem algo mais que preciso lhe dizer: vá ao Japão, dê andamento a esse projeto tão relevante. Com certeza será um sucesso! No entanto, sinto no fundo da alma que não deve esperar levar consigo o meu avô. Quase centenário, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> </p>
<p>Emília sorria com os olhos apertadinhos, enquanto conversava com Lucila, na porta da casa.</p>
<p>– E tem algo mais que preciso lhe dizer: vá ao Japão, dê andamento a esse projeto tão relevante. Com certeza será um sucesso! No entanto, sinto no fundo da alma que não deve esperar levar consigo o meu avô. Quase centenário, ele parece bem e poderia viver ainda algum tempo, mas a promessa feita à esposa é muito importante. Na cultura japonesa, os compromissos assumidos com os entes queridos, com a família e os amigos próximos, beiram ao juramento mais solene. Quando o caso é de jura, então… nem se fala. Ele está sentindo que deve ir, não ao Japão, mas ao encontro da companheira. Sente que ela o espera, orgulhosa de seus feitos.</p>
<p>Essa conversa fez Lucila viajar, quando deveria estar prestando atenção às aulas. Passou horas e horas pensando em como seria uma visita ao Japão. Ao Japão!!! Do outro lado do mundo. Um mundo habitado por pessoas gentis como o seu Nikito, pensava ela, no seu quase delírio. Quem poderia imaginar uma coisa dessas? Há apenas três meses sua vida era aquela mansidão, uma tranqüilidade sufocante – de casa para a escola, da escola para casa, as novelas na televisão, à noite, no fim de semana um encontro furtivo com o Bruno. O que não era um dever, era um hábito imitado das amigas, dos adultos, das outras pessoas. Tudo limitado. Limitadíssimo.</p>
<p>E de repente, lá está ela, responsável por um <em>blog</em> que virou quase o órgão oficial da escola, onde todo mundo posta, íntima dos segredos da internet, esse universo maravilhoso onde é possível encontrar rigorosamente tudo. Responsável pela criação de um acordo de cooperação entre escolas de dois mundos tão diferentes quanto Brasil e Japão. E recém-convertida militante das causas ecológicas. Lucila estava numa surpreendente fase de aprendizado rápido e envolvimento instantâneo. Aquela já longínqua palestra do engenheiro, por exemplo&#8230;</p>
<p>Visitando os sites cujos endereços ele lhe dera, ficara sabendo muito daqueles enormes problemas ambientais citados na palestra. Mais importante: ficara conhecendo muitas pessoas, no mundo todo, que de uma forma ou de outra estavam empenhadas nessa batalha gigantesca que, bem colocadas as coisas, pode ser resumida em três palavras: salvar o mundo. Alguns em casa, outros em ações individuais, economizando água, deixando o carro na garagem e andando de metrô.</p>
<p>A imensa maioria, reunidas em organizações variadas, que no Brasil chamamos ONGs, organizações não-governamentais, algumas gigantescas, ramificadas pelo mundo todo, outras pequeninas, limitadas a uma cidade, um bairro, até a um quarteirão. Mas todas ousadas, atrevidas, irreverentes, prontas a chocar as pessoas desinteressadas, mostrando-lhes descaradamente como a sua indiferença contribuía para a ruína do nosso planeta, tanto quanto a fumaça preta das chaminés das fábricas antediluvianas que ainda existem, ou os automóveis, os caminhões, os ônibus fumacentos.</p>
<p>Estava se comunicando com um pessoal de uma delas, da Dinamarca, preocupado com a nossa Amazônia, a derrubada das árvores, quase todos os dias noticiada nos jornais e na televisão, ameaçando criar um deserto onde hoje há um paraíso. Decidida, Lucila mergulhava de cabeça nesse novo universo. Que também lhe fora revelado pela internet.</p>
<p>Era ela, sim, Lucila. A Luci do Bruno. Quem diria&#8230;</p>
<p>Estava louca para falar com o Bruno, e justo nesse momento percebeu que não tinha contado ainda nada de toda esta história para o namorado!</p>
<p>Correu à casa dele, ansiosa para contar as novidades, mas encontrou-o mergulhado no novo livro, agora com duas histórias paralelas, cheias de detalhes, minúcias, prazo curtíssimo para terminar. Exigia concentração.<br />
Não quis interrompê-lo, correu para a casa do Rogério, que estava muito ocupado com a prova que faria para tentar o estágio na fábrica de computadores. Também não quis interrompê-lo.</p>
<p>Cada um estava no seu mundo. Nos últimos dias, aqueles mundos estiveram tão juntos, próximos, ligados, e agora, repentinamente, começavam a se afastar.</p>
<p>Era surpreendente. Na vida das pessoas, pelo menos das pessoas que não se deixam prender pela rotina, aquelas que são como o Noronha que escalou as montanhas americanas em busca de uma realização só sua, original, na vida dessas pessoas constantemente os mundos se juntam e se afastam, dependendo das situações, das descobertas, das coisas novas aprendidas. Lucila percebeu isso de repente, e voltou para casa feliz com o novo descobrimento. Era fascinante viver essa nova vida, com tantas coisas fantásticas que passaram a acontecer assim, de repente.</p>
<p>* * *</p>
<p>O sucesso do <em>blog</em> na escola já era tão grande que Luci não dava mais conta de administrar tantos posts e comentários. <em>E-mails</em> de alunos e professores com conteúdos de qualidade abarrotavam a sua caixa postal, e, embora encantada com a nova ferramenta de comunicação, a jovem fincava o pé: queria tempo para estudar, conversar com as amigas e, principalmente, namorar.</p>
<p>Foi até o quarto e pegou o caderno colorido recheado de anotações, recortes, pétalas de flores secas, ingressos de cinema, fotos, convites para aniversários. Tudo o que tinha importância estava registrado ali. Recostou-se no travesseiro, folheando as páginas da curta autobiografia. A sua vida tinha dado um salto. Aquilo tudo, de repente, pareceu coisa&#8230; de criança.</p>
<p>O toque do celular interrompeu seus pensamentos.</p>
<p>– Luci, hoje é dia do Rio Tietê! Era Tita, a amiga que não deixava ninguém jogar papel no chão, desperdiçar água e esquecer lâmpadas acesas. Na escola, ganhou o apelido de “ecochata”.</p>
<p>– E desde quando rio tem data para comemorar? Lucila, inexperiente em lutas ecológicas, perguntou.</p>
<p>Tita estava elétrica.</p>
<p>– Vai ter passeata, oficina de reciclagem e até show de música no Parque do Tietê, vamos!</p>
<p>Duas horas depois, as duas amigas chegavam ao Parque Ecológico do Tietê. A movimentação era grande – crianças, adultos, adolescentes superanimados. Luci se surpreendeu, esperava um blablablá e até politicagem, já que era ano de eleição, o que via era muita agitação.</p>
<p>Um grupo de jovens, cercado por público atento, mostrava tubos de ensaio cheios de água de diversas tonalidades e explicava de que trechos do Rio Tietê haviam sido retirados.</p>
<p>– Não dá para acreditar que esse rio seja limpo em algum lugar, pensou.</p>
<p>Mas é. Os jovens explicavam que a água saía purinha da nascente, no município de Salesópolis. Quando atravessa a cidade de São Paulo, recebe todo tipo de sujeira, lixo, esgoto. Fica com um aspecto de chorar e cheiro de torcer o nariz. Ainda tem gente que acha que rio é lugar de jogar tudo o que não serve mais, e depois não entende como acontecem as enchentes.</p>
<p>Quando o Tietê segue para o interior do Estado, a qualidade da água melhora um pouquinho, uma dessas mágicas da natureza. Lá perto do Rio Paraná, onde desemboca, dá até para pescar.</p>
<p>Aquela moçada toda – grupos de estudantes, escoteiros, associações comunitárias – monitora a qualidade da água por meio de <em>kits</em> distribuídos por uma ONG. São verdadeiras aulas de educação ambiental e cidadania, com lições de Química, Biologia, Geografia. Os grupos de voluntários trocam informações pela internet e lançam os dados em relatórios – uma das ferramentas que a ONG tem para cobrar providências do poder público. A outra estava à sua frente: milhares de pessoas lutando por um rio mais limpo e uma cidade mais saudável.</p>
<p>– Vai ter um concurso de vídeos feitos pelo celular – Tita continuava elétrica.</p>
<p>– O melhor trabalho será exibido em todos os eventos da ONG, com a presença do autor, que se torna voluntário na campanha pela despoluição do rio!</p>
<p>Luci voltou para casa e foi direto ao computador do irmão. Abriu o Google, digitou “Rio Tietê” e se surpreendeu com a quantidade de tópicos relacionados.</p>
<p>Tita não continha a empolgação:</p>
<p>– Podemos mostrar a população jogando lixo na rua, os bueiros entupidos&#8230;</p>
<p>Mas a idéia de Luci era outra. Achava que o mundo já tinha notícias ruins demais, o que deixava as pessoas anestesiadas, nem prestavam mais atenção. Se o vídeo mostrasse como seria bom ter um rio para passear, nadar, brincar, talvez as pessoas se sensibilizassem.</p>
<p>Em poucos dias, o roteiro estava pronto: o Rio Tietê aparecia limpo, de uma hora para outra. Ninguém entendia como aquilo tinha acontecido – nem o que fazer com uma opção de lazer tão legal – e saíam em busca do “culpado”, que era um cientista bem velhinho, que passou a vida fazendo experimentos para melhorar a qualidade de vida da população.</p>
<p>* * *</p>
<p>A votação para a escolha do vídeo vencedor aconteceu em duas partes: primeiro, pela internet. Depois, os dez “mais” foram exibidos para uma comissão formada por ambientalistas, cineastas, professores.</p>
<p>Os internautas só podiam votar uma vez. As adolescentes capricharam na divulgação, e com aquela força do <em>blog</em> – também por merecimento, claro –, o vídeo foi para a final. Para Tita, que sonhava em ser cineasta, artista, jornalista, publicitária ou&#8230; O que mais, mesmo? O auditório cheio parecia coisa de Oscar.</p>
<p>Luci permitiu-se ficar nervosa, mesmo convencida de que a sua idéia era muito boa. Bruno gostou do charminho.</p>
<p>– É coisa de mulher, constatou para Rogério. Estava mais sensível às sutilezas do universo feminino. Para um escritor, isso era fundamental.</p>
<p>Lá pela terceira exibição, o clima pesou no auditório. Eram visíveis o desconforto e o desinteresse da platéia e do júri: os vídeos beiravam o drama, mostrando um rio agonizante. Pior: a saída parecia estar apenas nas mãos do poder público, do governo, quando, na verdade, todos davam a sua contribuição pessoal na poluição.</p>
<p>Quando a telona mostrou a primeira imagem do vídeo de Luci e Tita, o silêncio deu lugar a um burburinho. Em seguida, a risadas. Logo depois, a gargalhadas.</p>
<p>Luci se lembrava da euforia no dia da grande final enquanto se preparava para conversar sobre a importância de (boas) ações individuais com os alunos de uma escola estadual. O vídeo delas ganhou por unanimidade, e tornou-se um verdadeiro cult. Era o mais acessado na internet e virou ferramenta de mobilização em tudo que era lugar: escolas, clubes, empresas&#8230; A jovem se esforçava para dividir o tempo entre as aulas, o namorado, as amigas e o estágio que ganhou na ONG.</p>
<p>Estava aprendendo muito. Sempre que possível – e ela dava jeito pra ser sempre mesmo – acompanhava os ambientalistas nas palestras. Era divertido: num dia, falavam para crianças. Em outro, para homens engravatados de uma indústria importante. Teve até palestra para um grupo GLS, que achou Luci “uma gracinha de ecologista”.</p>
<p>Coisa raríssima.</p>
<p>A proposta era simples: reciclar o lixo, substituir as sacolas plásticas pelas de tecido – muito mais charmosas, por sinal –, evitar o desperdício de água e aderir ao consumo consciente, comprando só o necessário e sempre de empresas que se preocupam com o meio ambiente. A presença da jovem dava mais credibilidade ao discurso, leve e divertido.</p>
<p>A ONG gostou tanto do vídeo que abriu uma vaga de estágio para Tita, que ajudava na criação de eventos e mobilização de novos voluntários.</p>
<p>* * *</p>
<p>Rogério foi mal no teste escrito para a vaga de estagiário.</p>
<p>Mal? Põe mal nisso. Não acertou uma, pelo menos ele achava que não acertara uma. Assim, quando chegou a sua hora para a entrevista individual com o gringo americano, que só falava inglês – fazia parte do teste essa conversa em inglês, quem não fosse capaz não tinha chance, mesmo que tivesse acertado tudo na prova escrita –, pois então, o Rogério foi tão mal que decidiu desbundar na hora da entrevista. Em inglês, claro, pro cara entender –, ou não entender, sabe-se lá.</p>
<p>Respondeu tudo de bate-pronto, com as idéias mais loucas que lhe chegavam à cabeça. E foi se entusiasmando com a diálogo, o gringo aproveitava as deixas dele e perguntava no mesmo nível. Foi mais de uma hora de papo extremamente confuso, para quem não está por dentro dos segredos do mundo digital. Não era o caso deles dois.</p>
<p>Do gringo, sobretudo.</p>
<p>Por causa disso, foi um Rogério exausto que deixou a sede da fábrica de computadores, naquele final de tarde. Exausto e abatido. Consciente do fracasso. Nunca iria estagiar no Vale do Silício, lá em São Francisco, cidade maravilhosa, nem parece americana, onde se comem caranguejos gigantescos (<em>king crabs</em>), esses mesmos que são exibidos diariamente no Discovery Channel, no programa <em>Deadliest catch</em> (Pesca mortal, em português) em intermináveis e repetitivas pescarias em alto-mar, a uma temperatura baixíssima e enorme desconforto para os pescadores. Que parecem felizes por ganharem assim seu rico dinheirinho.</p>
<p>* * *</p>
<p>Bruno, ao contrário, também estava exausto, mas animadíssimo. O livro chegava aos finalmente, ele tinha lido e relido tudo várias vezes, achava que estava ótimo. Faltava agora um final feliz para ele. Uma dúvida atroz: mandaria os ladrões para a cadeia, fiel à regra de que o mal precisa ser castigado, ou deixaria que saíssem por aí, afinal haviam devolvido o computador, quase pediram desculpas, não mandavam mais mensagens sibilinas e ameaçadoras, parecia até que torciam por ele no concurso que se aproximava rapidamente.</p>
<p>Rapidamente. E ele sem um final, feliz ou infeliz.</p>
<p>E aí ocorreu-lhe uma coisa em que não havia reparado: onde andava a Luci? Tempão já que não se viam, a culpa era dele, claro, estava sempre ocupado, escrevendo, escrevendo, quando não estava escrevendo estava pensando, ela passava na casa dele todo dia, mas mal trocavam um alô e um beijinho desinteressado.</p>
<p>Pois agora percebia que nos últimos dias&#8230; semanas? &#8230; nem isso.</p>
<p>Onde andava a Luci?</p>
<p>Telefonou para a casa dela, foi a mãe, dona Vilma, quem atendeu.</p>
<p>– Onde anda a Luci? E eu sei? Quando não está na escola está por aí com esta meninada esquisita, Rio Tietê pra lá e pra cá, poluição, quer brigar com todo mundo, os donos das fábricas, o governo&#8230; Me contaram que ela fez um vídeo que foi premiado, mas nós aqui em casa não vimos nada. Acho que é porque a gente economiza água, economiza eletricidade, não anda de carro por aí&#8230; Pra fazer economia, né? Não precisamos ser esclarecidos, como ela fala toda hora.</p>
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		<title>13 - Dois olhos de uma vez</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Jun 2008 16:58:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
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“No Japão, a época foi caracterizada por fatores como a crise econômica, alto índice demográfico, grande contingente de mão-de-obra, desemprego e busca por melhores condições de vida. Já no Brasil, ao contrário, havia necessidade de força de trabalho nas plantações de café, principalmente em São Paulo, que se destacava cada vez mais no mercado internacional. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">“No Japão, a época foi caracterizada por fatores como a crise econômica, alto índice demográfico, grande contingente de mão-de-obra, desemprego e busca por melhores condições de vida. Já no Brasil, ao contrário, havia necessidade de força de trabalho nas plantações de café, principalmente em São Paulo, que se destacava cada vez mais no mercado internacional. Isso foi o impulso para o estabelecimento de conversações entre os governos dos dois países, que levaram a acordos de imigração. Graças a isso, em junho de 1908, o navio <em style="mso-bidi-font-style: normal;">Kasato Maru</em> atracou no porto de Santos trazendo 165 famílias, quase todas de camponeses pobres. Começava ali o longo processo de integração entre Brasil e Japão.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O Brasil foi um dos poucos países a receber os imigrantes japoneses, que ansiavam por uma vida próspera e rica para poderem, no futuro, voltar ao país de origem. Porém, o enriquecimento não foi tão rápido assim, nem para todos, principalmente porque chegavam mais e mais imigrantes, de outros países, que aqui competiam pelo trabalho com os japoneses. A Primeira Guerra Mundial (1914-1918), travada na Europa, com uma enorme mortandade de homens jovens, e pelo descontrole econômico de países como a França, a Alemanha e a Itália, foi responsável pela vinda da grande maioria deles. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Com o fim do conflito, o índice de desemprego no Japão subiu consideravelmente, fazendo com que o governo incentivasse a imigração, a fim de melhorar a vida de seu povo e ao mesmo tempo propagar a cultura japonesa pelo mundo, principalmente nas Américas. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">A partir da década de 1960, o cenário social, político e econômico em ambos os países mudou consideravelmente. O Japão se reergueu após tanto sofrimento e devastação e se tornou uma potência, tornando-se a segunda maior economia mundial. A partir daí, um fenômeno curioso começou a se formar. O processo de imigração começou a se inverter: na década de 1980, a situação econômica desfavorável no Brasil fez com que muitos descendentes dos antigos imigrantes buscassem oportunidades do outro lado do mundo. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Eram os chamados <em style="mso-bidi-font-style: normal;">dekasseguis</em>. O contingente de brasileiros que se instalaram nas ilhas nipônicas chega a mais de 300 mil pessoas, entre <em style="mso-bidi-font-style: normal;">dekasseguis</em> e seus familiares. E ao contrário do Brasil, que concentra a maior comunidade japonesa fora do país de origem – que tem o bairro da Liberdade, na cidade de São Paulo, como seu núcleo mais significativo –, a comunidade brasileira no Japão é a terceira maior de imigrantes lá radicados.”</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Começava assim a introdução do trabalho de Lucila. Ela escreveu sem parar, após reunir material suficiente para entregar um excelente trabalho e, conseqüentemente, ganhar o <em style="mso-bidi-font-style: normal;">daruma</em>. Mal conseguiu dormir de tanta ansiedade.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">No dia seguinte, Lucila chegou séria ao colégio e estava nervosa, não mais por ela, mas por seu Nikito. A essa altura, ela não se preocupava tanto em apresentar o melhor trabalho, pois, mesmo querendo muito o <em style="mso-bidi-font-style: normal;">daruma</em> como prêmio, sentia-se responsável por seu convidado, que era mais que um pequenino senhor com idade avançada e saúde delicadamente debilitada; ele era a personificação da história de um dos mais importantes contingentes de estrangeiros que venceram no Brasil. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Seu Nikito faz parte da primeira geração de <em style="mso-bidi-font-style: normal;">nikkeis</em> (descendentes japoneses) estabelecidos no Brasil, os <em style="mso-bidi-font-style: normal;">isseis</em>, e formou uma família imensa. Sua bisneta, Emília Shizuka, uma adolescente de doze anos, faz parte da quinta geração – <em style="mso-bidi-font-style: normal;">gosei</em> – e gostava muito das histórias que seu Nikito contava. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Quando soube da participação dele no trabalho de Lucila, ela pediu para acompanhar o bisavô. Emília tinha um tremendo orgulho da família, e devotava a seu Nikito uma admiração sem igual, por tudo que ele lutou para conseguir e por amar a vida, acima de tudo, além de sempre ter sido companheiro zeloso com tudo e todos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">A diretora da escola era fascinada pela cultura nipônica, dos costumes à gastronomia, não se opôs à visita de seu Nikito, como Lucila temia que acontecesse. Ao contrário, fez questão de recebê-lo pessoalmente e conduzi-lo até a sala. Mesmo sabendo que receberiam aquela visita – o <em style="mso-bidi-font-style: normal;">blog</em> mantinha todos informados sobre tudo, na escola –, todos os alunos, sem exceção, ficaram estáticos ao ver aquele mirrado senhor entrar pela porta a passos lentos, porém firmes e decididos. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Com os olhos apertados e o riso solto no rosto, seu Nikito sentou-se na cadeira estrategicamente posicionada no centro de um círculo que Lucila, no dia anterior, havia formado com as carteiras, para facilitar a visão de todos. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ele recebeu o microfone das mãos da professora Tieko, e prontamente pôs-se a falar com desembaraço, mas lentamente. Lembrou sua juventude nas fazendas de café no interior do Paraná, onde passou a infância e cresceu vendo os pais competirem nos improvisados festivais de música japonesa, promovidos na cidade onde moravam, Assaí. Foi lá que ele tomou gosto pela música e também competia, conseguindo conquistar muitos prêmios, até mesmo o do Kaikan Três Barras, salão onde se reuniam os imigrantes da<span style="mso-spacerun: yes;">  </span>região. O momento nostálgico o impulsionou a falar com segurança:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">“Meu nome é Nikito Shimizu, e vou contar para vocês um pouco do meu Japão, o Japão que eu construí aqui no Brasil”, começou, pausadamente. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Mas ele não fala enrolado igual ao seu Tetsuo, o dono da pastelaria perto da minha casa – exclamou – quem poderia ser, senão a Cecília?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">A sala toda resolveu concordar com a colega e a lançar palpites sobre outros conhecidos que bagunçavam a pronúncia com o sotaque japonês, mas prontamente foram interrompidos pela professora Tieko, que já havia conversado com Lucila sobre o convidado:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Apesar de ter nascido no Brasil, os pais do senhor Nikito, três irmãos e dois tios, que também vieram no navio <em style="mso-bidi-font-style: normal;">Kasato Maru</em>, falavam somente o japonês – isso sem contar com outras famílias que também se agarravam à língua como se trouxessem um pedaço do país de origem –, e ele cresceu ouvindo palavras que, à época, eram estranhas aos brasileiros. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">E em tom mais ríspido, completou: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Mas nem por isso eles deixaram de aprender a nossa língua, porque precisavam dela para sobreviver, assim como meus pais, que também sofreram por ter de deixar a terra amada e recomeçar do zero sem ter ao menos como se comunicar. Mostrem mais respeito! – completou a professora, que deixara de ser risonha naquele momento.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Os alunos arregalaram os olhos e não abriram a boca para contra-argumentar. Seu Nikito quebrou o silêncio:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não se preocupe, Tieko-<em style="mso-bidi-font-style: normal;">san</em>, eles são jovens, e jovens acabam falando sem pensar. Eu me especializei em língua portuguesa, tenho muito amor por esta língua tão rica e bela.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Assim, bem-humorado, prosseguiu com a história:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Faz quase cem anos que o navio Kasato Maru trouxe as 165 famílias ao Brasil, e a minha estava entre elas. Não pude me despedir dos familiares que lá ficaram, e sequer pude pisar os pés naquela terra tão sofrida que deixamos para trás. Nasci no Brasil, há 99 anos, e nunca pude retornar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Cresci no interior do Paraná, e cedo comecei a trabalhar nas lavouras de café com meus pais e irmãos. Recordo-me que não tínhamos muito para comer, e muitas vezes precisávamos dividir um pedaço de pão e um copo-d’água que o senhorio nos oferecia em um dia de trabalho. Nunca me esqueci do dia em que o senhor José, dono da fazenda, humilhou meu pai diante dos outros japoneses e da família toda, tratando-o pior do que a um animal só porque ele havia parado para descansar as pernas já desgastadas de tanto trabalho. Naquele dia, ele não retrucou e sequer derramou uma lágrima. À noite, ele reuniu a família para conversar, orou, pediu por proteção e força e nos disse: “Isso nunca vai acontecer com vocês, prometo”. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">E, de fato, foi assim. Meu pai sabia que não teria como voltar ao Japão, mas trabalhando muito conseguiu que as oportunidades aparecessem. Nós nos habituamos aos costumes do Brasil – preservando alguns dos nossos –, a economia cresceu e pudemos comprar nosso primeiro pedaço de terra. Meu pai se esforçava em nos garantir uma vida melhor, e minha mãe pedia que nunca nos esquecêssemos de onde os antepassados tinham vindo. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Mesmo com atraso, meus irmãos e eu entramos no colégio, estudamos, e seguimos para a faculdade, já na cidade grande. Mas antes, no interior do Paraná, em Assaí, conheci minha esposa, Yoshiko. Apaixonamo-nos e construímos uma família linda, forte e estruturada pelo amor. Ela sempre foi meu alicerce, meu chão, mesmo na velhice, já vítima do mal de Alzheimer, doença que acabou levando ela de nós no ano passado.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Seu Nikito não conteve as lágrimas. Para ele, ainda era recente a perda da mulher que o acompanhou por mais de 65 anos. Falou um pouco mais sobre Yoshiko, como se conheceram e o quanto suas histórias eram parecidas. Ela era dez anos mais nova do que ele, e seus pais, também imigrantes, coincidentemente, vieram no mesmo navio que atracou em Santos, em 1908. Ele falou de seus netos, que foram morar no Japão, em busca de trabalho, os chamados <em style="mso-bidi-font-style: normal;">dekasseguis</em>. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ricardo, o mais apegado ao avô, se propôs a pagar a passagem para que ele fosse conhecer a sua terra, mas seu Nikito havia prometido que só iria ao Japão com a esposa, e a promessa nunca pôde ser cumprida.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ao final da aula, que ultrapassou o horário regular sem que ninguém percebesse, até mesmo os mais apressados, a comoção era generalizada. Lucila, ainda com alguns resquícios da TPM, se debulhou em lágrimas. A professora Tieko se identificou com a história e sugeriu reportar o testemunho de seu Nikito ao Museu Histórico da Imigração Japonesa, no bairro da Liberdade, juntamente com o trabalho escrito entregue por Lucila. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Definitivamente, este <em style="mso-bidi-font-style: normal;">daruma</em> é seu, Lucila. Obrigada por nos dar a oportunidade de ouvir a história de seu Nikito.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Muito merecido mesmo, interveio seu Nikito, e completou: E sou eu quem deve agradecer a todos vocês.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">No trajeto de volta para casa, Lucila e seu Nikito não trocaram uma palavra sequer, já que o sorriso claramente estampado no rosto dos dois e a cumplicidade que ambos trocaram nessa experiência pareciam falar por si só. Ao chegar à casa de seu Nikito, logo na porta, Lucila agradeceu novamente e lhe estendeu o daruma, colocando-o em suas mãos. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Isto pertence ao senhor – ela disse, emocionada.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Seu Nikito apenas acenou com a cabeça e se esforçou em fazer o movimento de gratidão típico dos japoneses, mal conseguindo curvar-se, mas Lucila logo entendeu. Sorriu para ele, arriscou um “arigatô” – agora era ela quem misturava os sotaques – e foi embora satisfeita, não somente com o trabalho vitorioso, mas também porque sentia que o relato fora importante para todos, principalmente para seu vizinho.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ao fechar a porta, seu Nikito logo foi se deitar, pois a ida à escola e as emoções que resgatou deixaram-no cansado. Mas, antes, ele caminhou vagarosamente pelo corredor e foi direto à cômoda da sala, abriu a primeira gaveta e pegou uma caneta preta. Com os próprios olhos marejados, o velhinho pintou os dois olhos do <em style="mso-bidi-font-style: normal;">daruma</em> e falou em japonês, como se se justificasse por ter pintado os dois olhos do boneco, um para o pedido e outro para agradecer pelo desejo atendido, de uma vez só: <em style="mso-bidi-font-style: normal;">watashi no yume wa hontou ni natta</em> (meu sonho se realizou). Tomou seu chá rotineiro e fez uma oração à esposa Yoshiko, quase como se cochichasse em seu ouvido: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Vivi a história e sobrevivi para contá-la.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span>* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Bruno continuava escrevendo freneticamente. Tinha medo de perder o prazo de entrega do livro para o concurso. Num rápido telefonema, pediu a Rogério para entrar no <em style="mso-bidi-font-style: normal;">site</em> da fábrica de computadores e ler com atenção o regulamento. Rogério fez isso, distraidamente, estava pensando na amiga (amiga?) Fernanda e na mãe dela. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Depois foi passeando vagarosamente pelo <em style="mso-bidi-font-style: normal;">site</em>, leu a história da empresa, conheceu os nomes dos diretores e distraidamente clicou um ícone identificado como Oportunidades. Leu o que estava lá e ficou eletrizado: ofereciam vagas de estágio para jovens estudantes que tivessem experiência com computadores. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Logo bateu-lhe na cabeça aquela conversa com a mãe de Fernanda sobre futuro, a importância de se trabalhar com aquilo de que se gosta, e foi em frente: consultou a lista de requisitos para que pudesse se candidatar a uma vaga. Basicamente, era o que ele já tinha – experiência com computador. Mas exigia-se que fosse um conhecimento sistematizado, obtido em cursos e treinamentos, e não brincando em casa por conta própria. Rogério era bom de computador, mas era um autodidata.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Hesitou bastante, roeu as unhas, levantou-se da cadeira, deu várias voltas pela sala. Pensou em consultar os amigos, não adiantaria, estavam ambos enfurnados, cada um no seu trabalho, ninguém estava mais se preocupando com os problemas dos outros. Decidiu sozinho: abriu a ficha de inscrição e anotou todos os seus dados.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não tenho nada a perder – falou para ele mesmo, ao terminar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não tem nem taxa de inscrição para pagar – consolou-se.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Depois que o trabalho de Lucila chegou ao Museu da Imigração Japonesa, para onde fora enviado pela professora Tieko, o sucesso da exposição de seu Nikito surpreendeu a comunidade, que de repente começou a se animar com a perspectiva das comemorações do centenário da imigração, dali a dois anos. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">No consulado do Japão em São Paulo, o funcionário encarregado com tanta antecedência de planejar os eventos a serem realizados, Akio Kubota, teve um despertar súbito. Ele ainda não sabia o que fazer, o que propor, divagava muito, mas não conseguia se concentrar em nada. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ao saber da apresentação de Lucila, e do sucesso que fizera, tanto com a população brasileira quanto com a dos descendentes de japoneses residentes no Brasil, imaginou um programa de dois anos, que envolvesse as escolas e os estudantes brasileiros, em estudos e trabalhos extracurriculares sobre o Japão e os japoneses que vieram para o Brasil. Era uma empreitada difícil: teria de convencer o cônsul, que teria de convencer o embaixador, em Brasília, que teria de convencer o Ministério, no Japão. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Imaginou que o caminho seria trilhado mais facilmente se partisse de um acontecimento, um fato que mostrasse, por si só, o alcance do programa que estava imaginando. Poderia, no caso, usar parte da verba de que dispunha para levar o velhinho e a estudante que o convidara para uma visita ao Japão, onde participariam do maior número possível de eventos com escolares daquele país. Sua idéia era estabelecer uma programação de festejos que envolvesse as escolas japonesas e brasileiras, o que daria ao seu projeto um sempre desejado caráter cultural.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">A burocracia japonesa é lenta, mas Akio, valendo-se sabe-se lá de que recursos, conseguiu autorização para dar os primeiros passos para a concretização daquele projeto ainda mal esboçado. Duas semanas depois, um carro com placas de serviço consular, estacionou em frente às casas de Lucila e de seu Nikito – e o convite a ambos, para a visita ao Japão, antes do final do ano, foi apresentado. Dependeria da aceitação deles uma posterior oficialização do ato.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Lucila, claro, deu pulos de alegria. Seu Nikito manteve a fleuma oriental, sorriu docemente, não disse sim, nem não – mas estava ainda apegado à promessa feita à mulher, que já não poderia ser cumprida.</span></p>
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		<title>12 - Onde é que há gente no mundo?</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Jun 2008 17:01:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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Bruno havia esquecido de contar a Jean o reaparecimento do computador. Quando se lembrou, foi logo ligando para lhe dar a boa notícia. Havia esquecido, também, que Jean tinha voltado a Curitiba para interrogar Juca Colosso. Mas para quê, o amigo (que bom poder chamá-lo amigo novamente) Juca não poderia ser o ladrão, pois o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Bruno havia esquecido de contar a Jean o reaparecimento do computador. Quando se lembrou, foi logo ligando para lhe dar a boa notícia. Havia esquecido, também, que Jean tinha voltado a Curitiba para interrogar Juca Colosso. Mas para quê, o amigo (que bom poder chamá-lo amigo novamente) Juca não poderia ser o ladrão, pois o larápio estava solto, se não, não teria devolvido o computador. Tanto empenho de Jean, seguindo a pista errada…</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Alô, Jean! Está em Curitiba?<br />
– Não, Bruno, estou na delegacia, aqui em São Paulo.<br />
– Preciso te contar uma novidade.<br />
– Sobre o reaparecimento do computador?<br />
– Como você sabe?<br />
– Estive em Curitiba novamente, interroguei o Juca, mas nunca deixei de investigar as outras possibilidades. Vi de cara que o Juca nada tinha a ver com o seu caso. Mas outras linhas de investigação renderam bons frutos e estamos quase descobrindo a identidade do ladrão.<br />
– Como assim “quase”?<br />
– Bruno, não posso dizer mais nada para não atrapalhar as investigações. Não conte a ninguém essas coisas que estou falando, nem a seus pais, nem a seus amigos. Apenas que estive em Curitiba, interroguei o Juca, ele está bem e é inocente nessa história. Mais nada.<br />
– Tudo bem, mas você está me deixando ainda mais curioso.<br />
– Mais nada, Bruno. Entendido?<br />
– Entendido. Tudo bem, já disse.<br />
– Mais nada e a ninguém. Ninguém.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Jean desligou, como de costume, seco, sem despedir-se.<br />
Bruno ficou ali, parado, segurando o telefone ainda no ouvido, pensando nas possibilidades e nos novos rumos que a história tomara. Será que Jean havia obtido alguma informação importante com o Juca? Teria ele dado uma pista valiosa para Jean? E como ele já sabia sobre o reaparecimento do computador? Quem contou? Ou estaria seguindo o ladrão, já identificado e aguardando o melhor momento para capturá-lo? E por que não dizer nada nem aos pais? E nem aos amigos? Seria Rogério um suspeito? Ou estava desconfiando neste momento novamente de outro amigo?<br style="mso-special-character: line-break;" /><br style="mso-special-character: line-break;" /></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Essas perguntas todas fizeram Bruno ficar paralisado por alguns minutos. Ainda com o telefone no ouvido. Como se aguardasse uma resposta, ao menos uma, para suas questões. Lembrou-se, então, de uma das aulas do professor Joaquim Paulino. Sim, seu nome era Joaquim Paulino, mas gostava que o chamassem apenas de Joaquim, pois era são-paulino roxo e já havia ficado de saco cheio com o trocadilho com seu nome e as piadinhas de mau gosto. Seu Joaquim havia apresentado na aula um poema de Fernando Pessoa, sob o heterônimo de Álvaro de Campos, que refletia muito bem tudo que passava pela cabeça de Bruno neste momento, de ter desconfiado do amigo Juca, de agora desconfiar até de Rogério, desconfiar pela razão, pela mente, e ao mesmo tempo de não ter coragem em seu coração de desconfiar de nenhum deles. Sentia-se com a possibilidade de ser traído e traidor dos amigos, ainda que apenas em pensamento.<br />
E foi no poema que pensou enquanto tirava, lentamente, o telefone do ouvido e o desligava. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.<br />
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.<br style="mso-special-character: line-break;" /><br style="mso-special-character: line-break;" /></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,<br />
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,<br />
Indesculpavelmente sujo,<br />
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,<br />
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,<br />
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,<br />
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,<br />
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,<br />
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;<br />
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,<br />
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,<br style="mso-special-character: line-break;" /><br style="mso-special-character: line-break;" /></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,<br />
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado<br />
Para fora da possibilidade do soco;<br />
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,<br />
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Toda a gente que eu conheço e que fala comigo<br />
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,<br />
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Quem me dera ouvir de alguém a voz humana<br />
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;<br />
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!<br />
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.<br />
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?<br />
Ó príncipes, meus irmãos,</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Arre, estou farto de semideuses!<br />
Onde é que há gente no mundo?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Poderão as mulheres não os terem amado,<br />
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!<br />
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,<br />
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?<br />
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,<br />
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">O <em style="mso-bidi-font-style: normal;">daruma</em> não saía da cabeça de Lucila. Já fazia três horas e meia que ela pesquisava sobre os cem anos da imigração japonesa no Brasil no computador da biblioteca. Seu trabalho tinha que ser o melhor, o mais completo.<br />
</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Quando digitou no Google a frase “100 anos da imigração japonesa no Brasil” – assim mesmo, entre aspas, como Rogério havia lhe ensinado para quando quisesse pesquisar na internet alguma frase que estivesse exatamente assim, nessa ordem e com essas palavras, <em style="mso-bidi-font-style: normal;">ipsis litteris</em> – o primeiro resultado foi um dos melhores conteúdos que encontrou, era o site <a href="http://www.nippobrasilia.com.br/"><span style="color: #666666; text-decoration: none; text-underline: none;">http://www.nippobrasilia.com.br</span></a>, um portal da cultura japonesa em Brasília (DF), que na página do centenário explicava:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">“No dia 18/06/1908, chega ao Brasil, no Porto de Santos, o navio Kasato Maru trazendo as primeiras 165 famílias japonesas que vislumbraram o sonho de uma vida melhor. No dia 18/06/2008 iremos completar os 100 anos da Imigração Japonesa no Brasil, com cerca de 1,5 milhão de <em>nikkeis</em> (descendentes de japoneses que nasceram fora do Japão), é a maior comunidade nipônica fora do Japão.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;"><br />
Devemos lembrar, também, que no final da década de 80 começou um fenômeno reverso, a ida de <em>nikkeis</em> para trabalhar no Japão, os <em>dekasseguis</em>. Atualmente, são mais de 300 mil pessoas, a terceira maior comunidade brasileira no exterior e que remete cerca de 2 bilhões de dólares (aproximadamente R$ 4,1 bilhões) para o Brasil”.<br style="mso-special-character: line-break;" /><br style="mso-special-character: line-break;" /></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Juntou isso a resultados de outras pesquisas nos livros da biblioteca. Tinha consciência de que uma boa pesquisa precisava ir muito além da internet. O texto que escrevia para o trabalho estava ficando muito bom, mas ela sentia que precisava de algo mais, que seu trabalho arrasasse e merecesse um dez, ou melhor, um <em style="mso-bidi-font-style: normal;">daruma</em>. Foi quando ela teve uma idéia criativa:<br />
</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Já sei, vou escrever, logo depois do trabalho, que teremos uma apresentação real, nada de virtual, sobre a imigração japonesa. Coloco isso no final do meu <em style="mso-bidi-font-style: normal;">post</em>, no <em style="mso-bidi-font-style: normal;">blog</em>, e faço uma surpresa a todos. Vou apenas combinar com a diretora e ver em qual sala posso ter um microfone à disposição – disse ela a si mesma, pensando em uma apresentação de arrasar.<br style="mso-special-character: line-break;" /><br style="mso-special-character: line-break;" /></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">A idéia de Lucila era muito boa: convidar seu Nikito, um vizinho, para falar sobre a imigração. Ele era bem velhinho e tinha muitas histórias para contar. Seria um bom texto aliado a uma apresentação de surpreender a todos. O resultado só poderia ser um daruma! Agora, o seu Nikito tem que topar falar em público na escola.<br />
</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Luci pegou todos os seus livros e cadernos, juntou-os, e saiu da biblioteca voando. Correu para casa, deixou tudo lá e partiu para sua missão: convencer seu Nikito.<br />
</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Logo que apertou a campainha, seu Nikito saiu para atendê-la, ela sempre ia lá para pegar a chave de casa que os seus pais deixavam com ele quando saíam. Seu Nikito era o vizinho de mais confiança da família de Lucila. E ele foi logo dizendo:<br />
</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Desta vez seus pais não deixaram a chave aqui.<br />
</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Não, seu Nikito, não vim atrás da chave, meus pais estão em casa. Hoje o assunto é outro.<br />
</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Então entre, minha filha – disse ele com voz amável.<br />
</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Após convidá-la a sentar-se, perguntou:<br />
</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Pois não, filha, em que posso ajudar?<br />
</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">A pergunta não podia ser melhor.<br />
</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Seu Nikito, estou fazendo um trabalho na escola, sobre o centenário da imigração japonesa no Brasil, e gostaria que o senhor fosse lá para nos contar um pouco de sua experiência, vindo viver num país completamente diferente, falar da cultura de seu povo. Quero enriquecer meu trabalho com um pedacinho da sua sabedoria.<br style="mso-special-character: line-break;" /><br style="mso-special-character: line-break;" /></span><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Seu Nikito estava com um alegre sorriso nos lábios e de olhos fechados. Lucila percebeu que aquilo era um sim e logo também se emocionou quando viu uma lágrima escorrer dos olhos apertados de seu Nikito. Serenamente, ele abriu novamente os olhos e respondeu:<br />
</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Eu estava no Kasato Maru quando ele atracou em Santos.<br />
</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Então o senhor tem mais de cem anos já? – espantou-se Lucila.<br />
</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Não, minha filha, tenho 99, faço 100 no fim do ano, eu estava na barriga de minha mãe naquele navio. Nasci aqui, mas fui gerado lá, no Japão.<br />
Lucila não conseguia conter a emoção e agora a alegria. Seu tiro não poderia ter atingido o alvo de uma forma melhor. Não poderia haver pessoa melhor para a sua apresentação.<br />
</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Vou marcar a apresentação então, seu Nikito, confirmo com a diretora da escola e lhe aviso. Tudo bem?<br />
</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Está bem, minha filha, vou com o maior prazer.<br />
</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Seria um espetáculo. Mas não podia esperar, voltou para casa, avisou a mãe e correu novamente para a escola. Tinha que falar com a diretora ainda naquele dia.<br style="mso-special-character: line-break;" /><br style="mso-special-character: line-break;" /></span><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Após a paralisia causada pelo telefonema a Jean e a lembrança do poema de Pessoa, ou melhor, do Álvaro de Campos, martelando em sua cabeça, Bruno voltou a escrever freneticamente seu livro. Também estava ficando muito bom. As idéias fluíam em sua mente, como um rio que corria para o mar, sem obstáculos, com correnteza forte. Seguro do que escrevia, Bruno não corrigia nada. Não voltava, não apagava nada, as idéias iam se encaixando e a história ficava cada vez mais intrigante. <span style="mso-spacerun: yes;"> </span>Exatamente do jeito que ele estava fazendo quando o computador foi roubado. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Mas agora a ficção misturava-se com a realidade sendo vivida ali, naquele momento, por eles três. Tinha algo de autobiográfico. Tinha idéias que Bruno realmente estava pensando. Mas seu dom de escritor, já brotando para o mundo das letras, também fornecia pitadas de ficção bem tramada. Escrevia um parágrafo, mas sua mente estava dois ou três à frente. Sua lentidão para digitar era compensada pela ausência de pausas, as palavras vinham como se fosse uma linha de produção, em escala industrial. Sem parar.<br style="mso-special-character: line-break;" /></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Magda passava pelo quarto de Bruno, via que ele estava submerso naquele mundo da literatura e tinha uma mistura de preocupação e orgulho. O filho estava envolvido em algo que podia lhe render um grande futuro, seria um orgulho ter um filho escritor. Ao mesmo tempo, preocupava-se com o envolvimento do garoto em excesso, ficava sem comer, escrevendo sem parar, parecia que o tal concurso havia se tornado uma compulsão. Doença…</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Coisas de mãe.<br style="mso-special-character: line-break;" /><br style="mso-special-character: line-break;" /></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Antônio também estava preocupado, mas numa proporção inversa à da mulher – 10% de preocupação, 90% de orgulho e certeza de que o filho estava fazendo o certo, escolhera o melhor caminho, seguia sua vocação. Era um caminho estreito para as opções que os garotos da sua idade tinham, mas, com certeza, o melhor para ele. Otimista, acreditava que a educação que ele e Magda deram ao filho renderia bons frutos, sobretudo sendo Bruno como era – um menino e tanto, gabava-se o sereno e aparentemente sossegado Antônio.<br />
</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Com o reaparecimento do computador, começou a pensar no presente que daria ao filho no final do ano, pois o dinheiro que seria economizado com a compra do micro que não precisava mais ser feita, deveria ter outro destino. Seria uma decisão difícil, principalmente se quisessem fazer uma surpresa a Bruno e não pudessem contar com a opinião do filho para escolher o presente. Mas havia tempo para isso, o Natal ainda estava bem longe.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Bruno parou de escrever de repente. Um pensamento desviou totalmente sua atenção. Não entendia o significado das três palavras escritas no papel grudado no computador: “Agora me esqueçam”. Seria o suspeito de Jean? Ou ele estaria novamente seguindo uma pista errada? Seria JC e seus <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mails</em> enigmáticos? Seria alguém muito próximo? Mas por que roubar o computador e devolvê-lo assim, sem danificá-lo e ainda mais com o texto intacto? O que isso queria dizer?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;"><br />
Bruno questionava-se enquanto fechava o arquivo com o texto do livro e abria o programa de <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mails</em>. Ele decidira ver novamente se não havia chegado mais nada de JC.<br />
Abriu. Digitou sua senha. Clicou no botão para receber <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mails</em>. Esperou o computador conectar-se à internet, pois ainda utilizava uma conexão discada por linha telefônica convencional. E esperou o micro baixar seus onze <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mails</em> novos. Enquanto as mensagens apareciam na tela, Bruno perdia ainda mais a esperança, eram todas propagandas não solicitadas, o famoso <em style="mso-bidi-font-style: normal;">spam</em>, lixo eletrônico que os especialistas falavam que estava acabando com o sistema de <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mails</em> do planeta. Mas a última mensagem, sempre a última, era a que interessava a Bruno. Era de JC. E dizia:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">“Está feliz agora? Termine este seu livro, parece muito bom, espero que seja um sucesso”.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Bruno ficou literalmente boquiaberto, como se escrevia nos livros antigamente, e decidiu contar tudo aos amigos na mesma hora.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Lá se foi uma semana inteira. Logo cedo,<span style="color: #333333;"> de manhã, café correndo, pegar o ônibus, escola. Provas de Química, Matemática, Literatura. O dia começou bem&#8230; bem mal! E ainda tinha reunião na casa do Rogério com o Bruno. Apesar de o trabalho sobre a imigração japonesa correr maravilhosamente bem, seu Nikito revelava-se cada vez mais uma preciosidade, Lucila não estava legal naquele dia, irritada e de saco cheio. Coisas que os homens não entendem, mas as mulheres conhecem bem: TPM. Mais conhecida como o mal das mulheres e o inferno dos homens. </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Quando chegou na casa de Rogério, estava mais irritada e ainda por cima com cólicas. Queria voltar para casa, mas também queria ficar. Sentia falta de Bruno, mas quando ele chegava perto tinha vontade de mandar que fosse pra bem longe. Ai, socorro!!! Era muita coisa pra sentir ao mesmo tempo, e olha que de 28 em 28 dias era atacada por essa loucura de sensações insuportáveis, que só lhe davam vontade de chorar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– O que foi, Luci?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Nada, não, Bruno, só não chega muito perto, não.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Como assim? O que te fiz?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Ai, Bruno pára com isso… parece criança. Vamos falar do que interessa. Como vão as investigações?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Não, não vamos dar um jeito é na nossa situação. O que eu te fiz Luci???<br />
</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Rogério não agüentou e caiu na gargalhada.<br />
</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Bruno não estava entendendo nada, a namorada não o queria por perto, estava preocupado, e o amigo ria da cara dele? O que estava acontecendo que ele não sabia?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Calma, meu caro! – disse Rogério, batendo em suas costas e sentando perto dele no sofá.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Não precisa ter uma DR, isso é TPM!! </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– O quê? DR? TPM?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– DR = Discutir a Relação; TPM = Tensão Pré-Menstrual. Que nesse caso parece mais menstrual, né, Luci? As meninas ficam assim confusas no período da menstruação, Bruno, elas querem estar perto mas te mandam embora, e choram muito. Nesses dias, o melhor que a gente faz é compreender e fazer tudo o que elas pedem.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Como é possível – matutou Bruno – fazer tudo que elas pedem? Ela me manda embora, logo me quer perto, quer atenção, depois quer que a deixe em paz&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Onde você aprendeu tudo isso, Rogério? Agora era Luci quem estava impressionada.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Não sou só um <em style="mso-bidi-font-style: normal;">expert</em> em computadores, eu pesquiso e leio muito na internet, oras. Fiquei <em style="mso-bidi-font-style: normal;">expert</em> em muitas coisas, mulheres especialmente. Como disse a Rita Lee “mulher é bicho esquisito, todo mês </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">sangra”. Nada mais simples do que entender as mulheres, pelo menos nestes dias.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Nossa, Rogério! Você esta me surpreendendo. Acho que isso está me cheirando a paixão! E não é virtual, não, é real mesmo&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Ah, ah, engraçadinho você, Bruno. Depois te dou o endereço dos <em style="mso-bidi-font-style: normal;">sites</em>, vê se fica mais ligado no mundo feminino.<br style="mso-special-character: line-break;" /></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">E fazendo uma voz de galã de filme de romance, recitou:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">As mulheres gostam de homens que buscam entender como elas sentem o mundo!!!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Todos caíram na gargalhada. Até Lucila, que ficou mais tranqüila, o fato de saber que os dois conheciam um pouco das suas agruras era simpático.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Depois que Bruno contou as novidades para os companheiros, começaram uma nova fase no trabalho de investigação, que andava devagar, quase parando – pudera, estavam todos com tarefas gigantescas para cumprir em pouco tempo.<br />
</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">A primeira coisa que fizeram foi postar no <em style="mso-bidi-font-style: normal;">blog</em> uma grande notícia sobre o reaparecimento do computador, sem mencionar, é claro, o bilhete deixado. Colocaram ainda um agradecimento ao “bom” indivíduo que o devolveu.<br style="mso-special-character: line-break;" /></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">O próximo passo era mandar um <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em> para Constantine. E na mensagem colocaram uma observação sutil, subliminar, lembrou Bruno, que, como escritor ainda principiante, gostava de usar palavras incomuns:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">“Agora já tenho de volta o que preciso. Meu computador voltou. A busca acabou. Você muito me ajudou.<br />
Adeus”</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Sentiram uma pontada de tristeza em fazer aquilo. Não sabiam com certeza se Constantine era do bem ou do mal, mocinho ou bandido. Mas não podiam correr riscos. Agora, a conversa era somente entre eles. Já que sabiam que Juca não estava na história, sabiam que todo o cuidado era pouco.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Trabalharam rápido, pois Lucila queria ir embora, Bruno tinha de escrever o texto falso para postar no <em style="mso-bidi-font-style: normal;">blog</em>. E Rogério não ia para o Orkut, não, tinha de ir à casa de sua amiga. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Amiga?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Era uma viagem não muito comprida, no ônibus lotado, até o Butantã. Fernanda era uma garota incrível: como <span style="color: #333333;">manjava muito de computador, fazia Rogério sentir-se menos esquisito por querer saber mais e mais sobre eles, e (quase) só pensar neles. Sem contar que ela era adorável, com lindos olhos verdes, simpática com aquela mania de querer ser “neguinha”. Era loira, mas jurava ter ascendência negra na família, e sempre se queixava do cabelo lambido e da cor branquinha demais.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Olha só, minha avó era negra, meu avô alemão, por isso não peguei a cor. Mas quando tomo sol fico bem dourada. Dá até pra dizer que não posso negar minha raça. No fundo, no fundo, sou é bem brasileirinha. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">E assim cativava cada dia mais o coração de Rogério.<br />
</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Chegou à casa dela já de noite, e dona Judite, a mãe de Fernanda, logo decidiu (sozinha) que ele iria ficar ali, no outro dia os dois iriam pra escola juntos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Conversavam sobre muitas coisas, e também sobre o futuro. A escola cada dia mais difícil, a necessidade de escolher uma profissão para o resto da vida, como aproveitar bem o que sabia sobre informática, tudo o deixava angustiado. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Dona Judite tinha um jeito simples de tranqüilizá-lo quando estava assim, na fossa:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Não diz pra vida toda, não, é muito tempo, daí parece que pesa mais, a escolha fica difícil. Pensa que é algo de que você goste. Fica mais fácil. Pense naquilo em que você é bom e se diverte fazendo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">Dormiram em quartos separados. E, ao acordarem, dona Judite já tinha preparado o café da manhã. Que serviu, com uma daquelas frases oportunas:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt 6pt; line-height: 150%; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 8pt; color: #333333; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Saco vazio não pára em pé, nem estuda direito. Ninguém deve sair de casa sem o café da manhã.</span></p>
]]></content:encoded>
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		</item>
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		<title>11 - Maravilha! O computador voltou para casa</title>
		<link>http://www.livrodetodos.com.br/2008/34/capitulo-11-maravilha-o-computador-voltou-para-casa</link>
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		<pubDate>Wed, 04 Jun 2008 17:00:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[ 
 
Eram onze da noite de outro domingo quando Bruno e seus pais chegaram em casa, vindos de outra festa de aniversário. Antônio deixou o velho carro estacionado na entrada da casa, eles desceram, atravessaram o jardim e descobriram, mais uma vez, que a porta da frente estava entreaberta. Arrombada.
 
– Outra vez!, choramingou Magda. Correram para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Eram onze da noite de outro domingo quando Bruno e seus pais chegaram em casa, vindos de outra festa de aniversário. Antônio deixou o velho carro estacionado na entrada da casa, eles desceram, atravessaram o jardim e descobriram, mais uma vez, que a porta da frente estava entreaberta. Arrombada.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Outra vez!, choramingou Magda. Correram para dentro e descobriram que de novo nada havia sido levado – a televisão no lugar certo, o aparelho de som, até o reloginho de ouro. Já Bruno, que fora direto para seu quarto, tinha boas notícias a dar – ou melhor, tinha uma boa notícia para dar. Meio gaguejando, conseguiu gritar:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Pai, mãe, meu computador&#8230; está aqui&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Era verdade: o lindo, maravilhoso computador que ele havia ganho no concurso literário do jornal estava lá, na mesinha onde sempre estivera antes do roubo, sem um arranhão. Estavam todos ainda mudos de surpresa, mas Bruno correu a ligar a máquina para saber do seu texto.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Maravilha das maravilhas – gritou outra vez, entusiasmado. – Está aqui,.. Inteirinho&#8230; Do jeito que estava quando foi roubado&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Só depois de conferir se o texto estava mesmo completo é que se lembrou de abrir o envelope branco colado com fita adesiva no computador. Dentro havia um folha de papel, com três palavras escritas em letras bem grandes: Agora me esqueçam.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Como sempre, a segunda-feira seria um dia duro – muito trabalho para Antônio, o caixa do supermercado para Magda e uma indigesta prova de Matemática para Bruno. Apesar desse futuro sombrio, ninguém foi para a cama – tinham agora um novo mistério para decifrar. Bruno ignorou o telefone fixo, foi direto ao celular. Ligou primeiro para Lucila, claro. Quando a namorada atendeu, gritou entusiasmado:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Luci, você nem vai acreditar, meu computador está aqui em casa&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Luci, que saiu da cama para atender ao telefone, não entendeu nada, mas conjecturou, errado:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Está? Então não foi roubado? Você tinha perdido o computador? Em casa?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Luci era assim, quando desandava a raciocinar depressa, ia colocando uma idéia em cima da outra, o resultado era sempre uma confusão.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não, Luci. Chegamos em casa, a porta estava arrombada outra vez, fomos ver se tinham levado alguma coisa, não levaram nada. Mas deixaram o computador lá no meu quarto. Do jeitinho que estava quando o levaram. Melhor ainda: com o meu texto lá dentro. Percebeu, Luci: agora o novo livro está quase pronto&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">E ficou falando do novo livro, como seria – juntaria as duas histórias, a nova, que estava escrevendo, sobre as mudanças que estavam acontecendo na vida deles, na escola, com os professores, o <em style="mso-bidi-font-style: normal;">blog</em>, e a velha, com os balbucios do Pirão no ônibus em que viajava para São Paulo com o Juca Colosso. Esse pedaço, como havia lembrado a Luci logo no começo da conversa, estava quase pronto – era só completar contando as investigações que faziam pela internet, o acidente do Juca Olegário, o Jean&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">E aí o escritor embatucou: que fim teria essa história? Os criminosos seriam descobertos, presos, condenados, pagariam por seu crime na Justiça? Ou ficariam livres e impunes, afinal haviam devolvido o que fora roubado, mereciam o perdão. Ou será que não, devem pagar de qualquer forma, crime é crime, arrependimento não absolve ninguém&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Antes de dormir, ligou para o Rogério para dar a boa e incrível novidade. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Cara, essa não&#8230; – foi só o que Rogério conseguiu dizer.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Bruno foi dormir com todas essas minhocas remexendo na cabeça – e, é claro, as perspectivas para a prova de Matemática da manhã seguinte ficaram mais sombrias ainda.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Enquanto o Bruno enfrentava a prova de Matemática, Lucila teve aula de Artes com a professora Tieko, uma nissei baixinha, de cabelos curtos e muito risonha. Ela também aderira ao <em style="mso-bidi-font-style: normal;">blog</em>, e lá havia prometido um <em style="mso-bidi-font-style: normal;">daruma</em> legítimo, vindo do Japão, para quem fizesse o melhor trabalho sobre a imigração japonesa para o Brasil, que estará completando cem anos daqui a dois anos. No <em style="mso-bidi-font-style: normal;">blog</em>, a promessa não causou nenhuma sensação – teve apenas três comentários com a mesma pergunta: que é isso?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">“Um <em style="mso-bidi-font-style: normal;">daruma</em>”, repetiu a professora, na sala de aula. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Quem sabe o que é um <em style="mso-bidi-font-style: normal;">daruma</em>? – perguntou em seguida. Imaginava que ninguém saberia responder, talvez o Sérgio Nakamura, descendente de japonês. Mas nem ele. Alguém perguntou se era uma arma; uma menina sugeriu que fosse um quimono, outra que poderia ser uma comida.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Decepção para a professora, que teve de explicar: “O <em style="mso-bidi-font-style: normal;">daruma</em> é um dos mais populares talismãs da sorte no Japão. Vendido em festivais religiosos e feiras, esse boneco fica sempre de pé, mesmo que seja golpeado de um lado ou de outro. Por isso é um símbolo da perseverança, mas também da flexibilidade e da determinação. Um provérbio japonês define essa característica do <em style="mso-bidi-font-style: normal;">daruma</em>: ‘Nana korobi yaoki (caia sete vezes, levante oito)”.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Lucila começava a prestar atenção, e já pensava em fazer o melhor trabalho para ganhar o prêmio que ainda não interessava a ninguém mais. A professora prosseguiu:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">“O <em style="mso-bidi-font-style: normal;">Daruma-san</em> (senhor <em style="mso-bidi-font-style: normal;">Daruma</em>) é muito procurado pelas pessoas e pelos turistas ocidentais que vão ao Japão, pois, segundo a crença, ele dá ao seu possuidor uma grande paciência, disposição para as lutas da vida e a realização do sonho de cada um.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">“Na China antiga havia um <em style="mso-bidi-font-style: normal;">bonzo</em>, um sacerdote budista, que queria saber a verdade da vida. Após várias tentativas com a prática ascética (aqui foi preciso explicar que prática ascética é um exercício espiritual), ele nada conseguiu. Sentou-se à frente de um templo, onde ficou meditando sobre a vida até chegar a uma gama verdadeira, ou seja, à essência da vida. Depois de nove anos de meditação&#8230;”</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">A essa altura já havia gente bocejando na sala, menos a Lucila, mas a professora continuou, decidida:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">“<em style="mso-bidi-font-style: normal;">Daruma</em> é o fundador do Zen Budismo&#8230;”</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Foi interrompida por uma aluna, a Cecília: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Professora, a gente pode pôr tudo isso no trabalho sobre a imigração japonesa?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não, isso não. Vocês precisam pesquisar sobre a imigração japonesa para o Brasil. Isso que estou falando sobre o <em style="mso-bidi-font-style: normal;">daruma</em> é só uma explicação sobre o presente que darei ao autor do melhor trabalho.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Mas para que vai servir esse boneco?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Era a Cecília outra vez. Alguém respondeu no lugar da professora:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Pra você pedir a ele pro Nakamura gostar de você.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Todos caíram na gargalhada, pois todo mundo sabia que a Cecília era gamada pelo nissei, que não dava pelota pra ela, só queria saber de estudar e estudar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Quem quer saber mais sobre o <em style="mso-bidi-font-style: normal;">daruma</em>? – perguntou a professora. Lucila levantou o braço. Ela continuou:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– O povo japonês costuma comprar o boneco, vendido em barraquinhas próximas aos templos e santuários, no Ano-Novo, para que se concretizem os sonhos do ano que começa. Ele vem sem os olhos: quando a pessoa quiser que o desejo se realize, pinta um dos olhos; se o pedido for atendido, o outro deverá ser pintado também, em sinal de gratidão.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Tocou a campainha, sinal de que acabara a aula. A professora ainda recomendou:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Quem quiser saber mais sobre o <em style="mso-bidi-font-style: normal;">daruma</em> pode procurar no Google. Há bastantes coisas sobre ele lá. E não se esqueçam: quem fizer o melhor trabalho sobre a imigração ganhará um <em style="mso-bidi-font-style: normal;">daruma</em>. Lucila foi logo para o computador da biblioteca, ler mais sobre o <em style="mso-bidi-font-style: normal;">daruma</em>. A professora tinha razão: havia montes de informações sobre ele no Google. A figura na tela mostrava um homem de cara feia, parecia emburrado. Ainda assim, ela deixou com ele, em segredo, o desejo que iria desejar, se fizesse o melhor trabalho e ganhasse o prêmio. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * * </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Depois da prova do Bruno, os três amigos reuniram-se na biblioteca pra ver se havia alguma resposta no <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em> de Kafka.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Havia. Abriram:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">“Uma boa jogada, mas vocês não são exímios jogadores, meus heróis. Kafka? Um tanto óbvio para alguém que já conhece vocês. Mas gostei da estratégia. Agora já sei que sabem quem sou, ao menos na internet”.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Como ele havia descoberto que eram eles? Agora tinham perdido o contato? O que fazer?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Como ele descobriu, Rogério?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não sei ainda, Bruno… esse cara é esperto demais.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Mas como ele sabe que somos nós?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Gente, que mancada nós demos!!! – gritou Lucila, com ar de triunfo, apesar da derrota.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Como assim, Luci?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Simples: se no destinatário não aparecia o endereço de <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em> dele, e como ele já mostrou ser muito esperto, esse endereço deve ser para se corresponder apenas conosco. Assim como nós fizemos um para falar só com ele. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Este Constantine é bom mesmo!!!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não pensamos nisso, Rogério.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– E agora?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Vamos responder e ver se ele manda algo</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Espera um pouco, Luci. Vamos ver o <em style="mso-bidi-font-style: normal;">blog</em> primeiro.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Abriram a página e lá estava uma postagem de comentário:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">“Chico não é Chico. O menino já ganhou de volta seu computador?”. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Os três ficaram muito intrigados. Afinal, se Constantine não quisesse mais ajudar, não estaria se correspondendo com eles. Ou estava apenas querendo mostrar o quanto era inteligente? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Bruno, vamos arriscar mais um <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em>?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não sei não, Rogério.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Tenta pelo teu mesmo, oras!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Responderam: “Queremos sua ajuda, mas precisamos saber se é monstro ou amigo. Já percebemos que é muito inteligente. Não pensamos em subestimar sua inteligência.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Já sabemos que você não é Chico. Então quem é você?”</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Enviado. Agora é esperar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Rogério e Lucila não deixaram Bruno esperar. Ele tinha uma obra literária a produzir, e não podia perder tempo. Rogério e Lucila foram para a reunião do grêmio estudantil.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Foi uma porcaria. A diretoria queria cobrar para fazer um campeonato de caçador no intervalo das aulas. Haveria uma equipe por sala, e cada equipe deveria pagar R$ 20. A equipe vencedora ganharia uma bola.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Rogério ficou irritado e pediu a palavra:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Gente, grêmio é para se envolver em questões mais sérias, lutar pela qualidade do ensino, por aulas extras, cursos extracurriculares, questões ligadas ao nosso futuro.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Lucila, com seu senso prático, sugeriu: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Vamos fazer alguma coisa mais inteligente, não sei o quê, mas vamos pensar. Por que a diretoria não utiliza o nosso <em style="mso-bidi-font-style: normal;">blog</em> para colher sugestões? Assim poderemos montar um verdadeiro programa de trabalho.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Era a primeira vez que ela tomava a palavra assim em público. E veio logo com uma sugestão ótima, que fez todos esqueceram o campeonato idiota que daria uma bola ao vencedor. Uma bola!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Rogério voltou para seu computador, em casa, e Lucila foi para a conferência do engenheiro da Sabesp, que falaria para toda a escola, no período da tarde, sobre o problema da água em São Paulo. Foi assim como quem não quer nada; depois de tanta correria tentando esclarecer o mistério do computador do Bruno, tinha agora uma tarde inteira só para ela. O namorado e o amigo estavam ocupados com suas próprias coisas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O engenheiro era bom de conversa, projetava imagens e números na tela, tornava a sua aula bem atrativa, ninguém piscava o olho. Começou com uma informação alarmante: “Na Região Metropolitana de São Paulo, uma imensidão de mais de 7 mil quilômetros quadrados, 39 municípios, onde vivem mais de 20 milhões de pessoas, cada uma delas dispõe de apenas 200 mil litros de água para usar durante um ano. Só para vocês terem uma idéia do tamanho desse problema, no Estado do Piauí, lá no Nordeste, que é a região mais seca do Brasil, cada morador tem 9.185 metros cúbicos (quase 9,2 milhões de litros) de água por ano. O problema não é que falte água aqui em São Paulo – é que há gente demais e, além disso, boa parte dela está poluída. É preciso desenvolver uma nova cultura sobre o uso da água, para que todos nós passemos não apenas a economizar, gastando o menos possível da que existe nas torneiras, mas não sujando a que corre pelos rios e riachos”.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">E seguiu falando, e falando e falando. Era muito convincente, o engenheiro, e tinha muitos outros dados alarmantes como esses. Lucila ficou tão impressionada que, terminada a palestra, quando a palavra foi aberta para quem quisesse fazer comentários ou perguntas, ela criou coragem e perguntou:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Senhor engenheiro, se é tão grande assim o perigo de faltar água limpa para a gente usar, e se a água limpa que existe é tão pouca, por que os governos não criam um programa de emergência e jogam todos os recursos disponíveis para acabar com ele?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O engenheiro sorriu do radicalismo da proposta. E explicou para Lucila e todo o auditório, pacientemente: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não podemos jogar todos os recursos para resolver um problema só, por mais sério que ele seja. Para você ter uma idéia (ele se dirigia diretamente à perguntadora), só nesse campo das agruras do meio ambiente, precisamos nos ocupar de questões tão diferentes como a poluição da atmosfera, o aumento da temperatura média da Terra, a dramática diminuição das florestas e dos ecossistemas a elas associados, a ameaça de extinção de muitas formas de vida. Na verdade, todos esses problemas, e vários outros, formam um único e grande problema, que é o da manutenção das condições naturais que permitem a sobrevivência do homem, e de todos os demais seres vivos, neste nosso planetinha.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">E por aí foi. Não era exatamente uma novidade, Lucila já havia ouvido falar muito dessas questões, nas aulas havia feito trabalhos a respeito, mas ela nunca parara para pensar a sério:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– O que eu tenho com isso?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">A palestra do engenheiro serviu para isso: ela pensou, e achou que tinha muito a ver com isso; afinal, também era gente, tinha os seus direitos, e precisava lutar contra os que atentassem contra eles – os poluidores. Uma categoria que, ela iria descobrir aos poucos, era ampla demais para a gente conseguir enxergar de uma vez só.<span style="mso-spacerun: yes;">  </span>E já que estava ficando íntima dos computadores e da internet, começou a ler tudo que conseguia encontrar sobre o assunto – a pedido dela, por sinal, o engenheiro havia citado uma série de endereços na rede onde ela (e todos os que ouviam a conferência) poderia encontrar muitas outras informações.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Nos meses seguintes, ela se tornaria uma chata, daquelas que vivem pegando no pé de todo mundo porque jogou um papel no chão, pegou mais água do que conseguiria beber, anda sozinho no seu automóvel e toda a infinidade de detalhes a que devemos estar atentos, para não prejudicar a natureza. Mas por enquanto começou a praticar sua nova doutrina apenas sozinha, com coisas simples como fechar a torneira enquanto escovava os dentes. Sem cobrar de ninguém que fizesse o mesmo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Bruno é que não estava para brincadeiras. Agora com o computador em casa, passava boa parte das noites escrevendo furiosamente. Magda ficou preocupada e, pela primeira vez, também Antônio.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Filho, sabemos que é importante para você, mas não vá se desgastar, trabalhando tanto. Descanse. O mundo não foi feito num dia só.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Bruno respondeu, repetindo o que sempre dizia:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Vocês não entendem? Escrever é o que me realiza, o concurso vai abrir muitas portas para os ganhadores, vai haver muitos concorrentes preparadíssimos, não posso fazer nada que não seja o melhor. Está sendo muito corrido, que vou fazer, fiquei um tempão sem o meu computador, agora preciso tirar o atraso. A vantagem é que recuperei o texto, que já estava bem adiantado, assim não preciso começar do zero.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">E, bombástico, concluiu:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não se preocupem. É na pressão alta que se forjam os grandes homens!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Os pais ficaram apalermados.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Quem ensinou tudo isso para esse menino, Magda?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Um pouquinho nós, com certeza. E muito os livros que ele lê, também com certeza. Vamos dormir, Antônio.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Bruno foi surpreendentemente bem na prova de Matemática – não tirou um 10, é verdade, ninguém tirava, só o autor do livro, mas ficou com um belíssimo 7,5, nota que o livrou do risco de ficar em recuperação. Seria uma chatice. Foi com essa alegria, uma disposição para achar tudo ótimo e interessante, que foi para a aula de Literatura.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Seu Joaquim entrou na sala agitado, com vários livros nas mãos, mas apenas um deles interessava para aquela aula, um que tinha a capa escura e parecia datar do século 19. Bruno ficara surpreso com a feição do professor, pois nunca o havia visto daquele jeito, mas logo descobriu por quê.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Classe, o tema de hoje é literatura francesa, disse ele, levantando o livro para todos verem.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Alguns alunos soltaram um “ah” de descontentamento, mas Bruno, muito intrigado, quis ler o nome gravado na capa. Era Honoré de Balzac, o autor preferido de seu Joaquim. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Vocês já devem ter ouvido falar da expressão “balzaquiana”, não? – perguntou o professor, e continuou antes mesmo que alguém lançasse um palpite – ela vem de um dos maiores conjuntos de obras literárias do nosso tempo: <em style="mso-bidi-font-style: normal;">A Comédia Humana</em>, escrita por um único homem, o francês Honoré de Balzac. Esse título engloba 95 obras, entre contos, romances e novelas, escritas e publicadas entre 1831 e 1847. Seus textos perduram até hoje, e influenciaram, entre muitos outros escritores, o também francês Marcel Proust, o americano William Faulkner, o português Camilo Castelo Branco e o brasileiro José Lins do Rego. Balzac foi um dos precursores do Realismo, sendo o escritor mais importante da transição do Romantismo para a narrativa realista.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Bruno ouvia atentamente, quase sem piscar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– <em style="mso-bidi-font-style: normal;">A Comédia Humana</em> foi dividida em três partes: Estudos Analíticos, Estudos Filosóficos e Estudos de Costumes. Deste último, fazem parte os livros <em style="mso-bidi-font-style: normal;">A Mulher de Trinta Anos</em>, de 1834, a obra-prima que deu origem ao termo “balzaquiana”, utilizado até hoje para designar as mulheres dessa idade, e <em style="mso-bidi-font-style: normal;">Ilusões Perdidas</em>, de 1843, que estou segurando em minhas mãos. Nesta obra, Balzac trata, sobretudo, como em grande parte de seus escritos, da burguesia francesa pós-revolução, de maneira muito crítica. <em style="mso-bidi-font-style: normal;">Ilusões Perdidas</em> conta ainda a história da imprensa, por meio das desventuras de um jovem aspirante a escritor em Paris, Lucien Chardon, mais tarde Lucien de Rubempré, um apaixonado por literatura, e seu cunhado e melhor amigo, David Séchard, um rapaz fascinado pelas ciências exatas. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Foi uma das melhores aulas do ano, anotou Bruno. Seu Joaquim dissecou a obra, falando do surgimento da prensa – peça rudimentar utilizada para imprimir tudo que fosse preciso na época do escritor, meados do século 19 –, passando pelos primeiros meios de comunicação e o papel desempenhado pelos impressores, que escolhiam criteriosamente o que seria divulgado, até chegar à influência que a imprensa teve na vida de escritores, como ele, Bruno, em início de carreira.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">“O infortúnio é um degrau para o gênio, uma piscina para o cristão, um tesouro para o homem hábil e um abismo para o fraco”, recitou o professor para a sala, uma frase de Balzac que encerrou a aula.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Bruno ficara maravilhado. O desfecho da aula ajudou-o a tomar uma decisão importante: deixar de lado aquela investigação até agora inútil, até mesmo porque recebera de volta seu precioso computador com o texto que considerava perdido, e se dedicar inteiramente ao livro que estava escrevendo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O que essa decisão podia significar ninguém sabia, nem ele mesmo, pois a mãe e o pai não tinham dúvida de que ele já estava se dedicando inteiramente ao livro. Os grandes homens, repetiu para ele mesmo, forjam-se nas grandes pressões. Se Balzac foi capaz de escrever 95 livros em 16 anos (6 livros por ano, um a cada dois meses) por que ele, Bruno, não seria capaz de escrever o seu em três meses – era começo de abril, o concurso seria encerrado no fim de junho, para dar tempo de editar e imprimir os livros premiados e lançá-los na Bienal do Livro, em agosto.</span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>10 - Frágeis calçadas de vidro</title>
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		<pubDate>Tue, 03 Jun 2008 17:01:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[ 
O movimento de pessoas na Rodoviária de Curitiba não se compara nem mesmo com os dias mais calmos dos terminais de São Paulo. Jean havia embarcado para lá dois dias depois do previsto, precisou cuidar da burocracia, documentos, dinheiro. Ao desembarcar na cidade, Jean lembrava que esta história, que começara como um favor para um amigo, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">O movimento de pessoas na Rodoviária de Curitiba não se compara nem mesmo com os dias mais calmos dos terminais de São Paulo. Jean havia embarcado para lá dois dias depois do previsto, precisou cuidar da burocracia, documentos, dinheiro. Ao desembarcar na cidade, Jean lembrava que esta história, que começara como um favor para um amigo, estava se tornando uma grande investigação. E uma grande investigação era do que precisava para dar um impulso para cima na sua carreira na polícia, que estava meio estagnada. Ia jogar tudo nessa parada.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Ao chegar ao hospital, descobriu que o horário de visitas já havia terminado, teria de voltar no dia seguinte. Ficou um pouco aliviado, pois, assim, ganhava tempo para arrumar uma boa desculpa quando fosse conversar com Juca; afinal, não podia correr o risco de colocar a investigação em risco. Não pretendia revelar que era policial, pelo menos de saída.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Achou um hotel próximo ao hospital, registrou-se, nem olhou o quarto, resolveu matar o tempo na rua mesmo. Foi descobrir se era verdade algo que ouvira enquanto estava no ônibus: uma das praças da cidade estava sendo reformada e foram descobertos restos arqueológicos. Era verdade. É incrível ver, na Praça Tiradentes, no centro da cidade, todo aquele espaço aberto. Ali foram encontrados, pela equipe de arqueólogos da Universidade Federal do Paraná, restos de uma calçada, que pode ser dos séculos 19 ou 18. O material estava a quase um metro de profundidade. Olhando aquilo, Jean sentiu-se dentro de um filme de “Indiana Jones”. E pensou:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Deviam colocar calçadas de vidro no passeio, assim o passado não ficava enterrado ou trancado em museus. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Nesse tipo de descobertas, pedaços separados são sem sentido, mas bem unidos podem explicar muita coisa. Esperava poder juntar mais um pedaço aos seus achados, na investigação, no outro dia, quando fosse falar com Olegário.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Jean foi ao hospital bem cedo, e conseguiu entrar na enfermaria onde Juca fora internado. Ao lado de uma das camas estava uma senhora de cabelos negros, uma pele tão alva, que dava a impressão de ter sido pintada em um quadro. Olhava pesarosa para o homem de cabelos curtos, também negros e pele morena, generosamente dourada pelo sol. Pela descrição deveria ser Olegário Pereira, ou Juca&#8230; ou Chico? Estava de olhos fechados, ligado a vários aparelhos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Boa-tarde, esse é o Juca? Ou melhor, o Olegário Pereira?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Sim, ele mesmo. E o senhor quem é?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Sou Jean, conheço um amigo do Juca que ficou sabendo do acidente, e como eu estava passando por aqui em viagem, ele me pediu para vir ver como estava.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Está como Deus quer, meu senhor. Os médicos dizem que ele teve muita sorte, o acidente foi feio, e agora ele tá aí, coitadinho, sedado.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Ele vinha visitar a senhora, não é? Ele saiu sem se despedir de ninguém, foi um choque para todos nós. Ele tinha algum compromisso por aqui no Sul?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Olha, eu não sei. Só sei que meu Olegário estava com muita vontade de ir ficar comigo lá no Rio Grande. Eu falei pra ele não ficar em São Paulo, aquilo não é cidade pra gente como ele, simples.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Ele não está falando, então?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Ah, moço, ele vai ficar mais uns dias assim, o médico disse que ele tá com um edema na cabeça. Não pode se esforçar, então fica aí cheio de remédios. Eu falei pra ele que essa inocência dele ainda ia dar problema. Peixe morre pela boca ou então é fisgado e vai pro aquário, mas ele não me ouvia.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Jean não conseguiu mais nenhuma informação, pois a mulher caiu num choro de dar pena. Conseguiu deixar seu cartão, com um abraço enviado pelo amigo Bruno para o Olegário.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Saindo do hospital, foi para a rodoviária. Não podia esperar o tempo que Olegário ia ficar sedado. A repartição precisava de seus trabalhos. Ia para São Paulo sentindo-se como os arqueólogos de Curitiba: estava com algumas peças somente nas mãos, e não faziam sentido sozinhas. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Vou esperar que esse Juca se recupere. Mas até lá, vamos ter de escavar mais fundo pra ver se achamos as outras peças, e essas estão em São Paulo. O peixe não morreu pela boca, mas foi fisgado?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">* * * </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span><span style="mso-tab-count: 1;">               </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Era o momento de bolar todos os detalhes do plano para encontrar o tal John Constantine dos <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mails</em> misteriosos. Bruno marcou uma reunião para logo cedo, no Acessa São Paulo. Seria de lá que criariam um <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em> fictício e o usariam para atrair John Constantine para uma cilada e desmascará-lo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Bom, pessoal, primeiro temos que pensar em um nome para criar o <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em>. Quem tem uma boa idéia? – disse Bruno, em tom de desafio.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Rogério soltou de bate-pronto:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Eu acho que nosso internauta fictício deve se chamar John Locke ou então James Sawer.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Lucy nem levou a sério e ironizou:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Acho melhor você parar de ficar fissurado em Lost, Rogério. Esse seriado norte-americano está deixando você “perdidinho” — e riram todos com o senso de</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">humor de Lucy.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Bruno, porém, em cinco segundos, fez o foco voltar ao plano original:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Pessoal, é sério, quanto antes executarmos o plano, mais tempo teremos para atrair o JC para nossa armadilha.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Rogério veio com outra idéia:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Poderia ser franz.kafka@gmail.com, o que acham?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Agora sim, boa idéia, Rogério – elogiou Lucila.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Boa, também gostei, perfeito para nosso internauta fictício, será uma verdadeira metamorfose – aprovou Bruno, fazendo um trocadilho com a mais famosa obra do escritor judeu-tcheco, <em style="mso-bidi-font-style: normal;">A Metamorfose</em>, em que um homem acorda, um dia, de manhã, transformado num inseto monstruoso – uma barata?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– E agora, onde criar o <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em>? – perguntou, olhando para Rogério, o entendido de informática.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– No Gmail, lógico, não preciso nem de cinco minutos para criar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Foram os três para um dos terminais do Acessa São Paulo e, logicamente, Rogério sentou-se em frente ao micro e começou a digitar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Entrou no Gmail, clicou em “Inscrever-se em Gmail”. Daí para a frente foi só preencher os formulários e pronto, sem burocracia, o <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em> estava criado.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">O passo seguinte era entrar no <em style="mso-bidi-font-style: normal;">webmail</em> e clicar em “Responder” ao último <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em> enviado por john-constantine. Rogério acessou e disparou a pergunta:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– O que escrevemos para o JC?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Vamos dar uma de enigmáticos e fazer como ele – sugeriu Lucy.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Concordo, mas escrever o quê? – questionou Bruno.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Sugiro a seguinte mensagem: “John Constantine, também podemos ajudar o garoto do <em style="mso-bidi-font-style: normal;">blog</em> a encontrar o computador”. E mais nada. Assim mostraremos a ele que</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">sabemos seu <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em>, john-constantine, e que também temos informações.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Brilhante, meu bem! – exclamou Bruno, logo percebendo ter soltado outro “meu bem”. Ainda soava estranho, mas não muito.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Agora era só aguardar a resposta.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">***</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">O <em style="mso-bidi-font-style: normal;">blog</em> já tinha vida própria, deslanchava até mesmo sem qualquer intervenção dos três, “pais” da “criança”. Naquele dia recebeu outra importante colaboração. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">A professora Olívia, de Química, adorou a idéia quando alguns alunos lhe mostraram as questões de Matemática e Literatura no <em style="mso-bidi-font-style: normal;">blog</em>. Muito descolada e antenada com as novas tecnologias, ela tratou de mandar um desafio de Química para ser resolvido e respondido no <em style="mso-bidi-font-style: normal;">blog</em>. O primeiro aluno a responder teria um ponto positivo na média do bimestre (o que era muito valioso). </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Não era nada fácil, o problema era bem complicado:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">“Nas campanhas de desidratação infantil, a população é orientada a fazer uso do ‘soro caseiro’. Esse ‘soro’ é constituído de uma solução aquosa contendo 3,5 g/l de cloreto de sódio e 11,0 g/l de açúcar (C12H22O11). Os solutos dissolvidos no soro caseiro formam uma solução de molaridade aproximadamente igual a quanto?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">O primeiro aluno que postar a resposta correta, com o cálculo completo (sem o cálculo não vale), terá um ponto positivo na média do bimestre. Boa sorte!”.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Formalmente, Lucila era a responsável pelo <em style="mso-bidi-font-style: normal;">blog</em>, mas com o sucesso ele ficou sem dono, já estava famoso em toda a escola, e era difícil neste momento saber se isso era bom ou ruim. Por um lado, renovou-se o interesse pelos estudos das matérias mais chatas, que passaram a ficar interessantes com essa interatividade toda, mas, por outro, o objetivo inicial do <em style="mso-bidi-font-style: normal;">blog</em> não era esse…</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">***</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Enquanto Rogério, Bruno e Lucy aguardavam o <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em> de JC, chegou uma mensagem de alguém que não era John Constantine. Os três se entreolharam. Curiosíssimos, nem se preocuparam em tentar saber quem era e foram logo abrindo o <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em>. Enquanto aguardavam o processamento do computador, um mar de perguntas atropelava suas mentes. Será que JC havia mudado seu <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em> para confundi-los? Teria alguma relação com aquele último <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em> bem-humorado de john-constantine? Ou teria descoberto o rastreamento dos <em style="mso-bidi-font-style: normal;">hackers</em> norte-americanos amigos de Rogério? Ou seria outra pessoa se envolvendo no caso? Ou, ainda, seria outro suspeito? Foram nove segundos de angústia e muita especulação, mas em silêncio total. Tensão. Atenção. Respiração. Silêncio. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Abriu!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Bastaram poucos segundos para que todos lessem a mensagem e logo sacassem que era o problema de Química da professora Olívia. Foram três “Ah!” de decepção e Rogério foi logo copiando e colando o texto no <em style="mso-bidi-font-style: normal;">blog</em> para atender ao pedido da professora.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Pronto, está publicado e lançado o desafio de Química. Voltemos nós ao que interessa: aguardar o <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em> do JC.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Rogério já estava aflito, pois o horário dos três no Acessa São Paulo estava se esgotando. E já que havia enviado a mensagem num tom de “<em style="mso-bidi-font-style: normal;">hacker</em> para <em style="mso-bidi-font-style: normal;">hacker</em>”, poderia rastrear o <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em> e tentar descobrir o IP (sigla em inglês que significa Protocolo de Internet) do computador de onde o <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em> de JC partiu. Tentou explicar o plano aos amigos:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Assim que recebermos o <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em> dele, além de tentarmos marcar a armadilha, também vou tentar descobrir o IP dele, analisando o cabeçalho do <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em>, parte que normalmente fica oculta, onde estão todas as informações trocadas entre os servidores de <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mails</em>. É como se cada computador conectado à internet tivesse um número que o identificasse, isso é o IP. Tendo esse número, podemos pesquisar no Registro.br se é um IP do Brasil ou não. Se não for, pesquisamos na Arin.net e vemos de que país é. Sabendo a origem, podemos rastreá-lo para identificar o nome da empresa que o detém, seu CNPJ e contatos. Assim podemos saber se JC continua no <em style="mso-bidi-font-style: normal;">campus</em> de informática da universidade, em São Paulo, ou se está enviando <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em> de outro local.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Legal.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Legal – repetiu Bruno, depois de Lucy.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">A idéia era realmente boa, mas passaram-se os trinta e cinco minutos restantes do tempo que tinham no computador do Acessa São Paulo e nada de <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em>. Teriam que voltar e aguardar uma mensagem no computador da biblioteca da escola mesmo, e deixar pra lá a idéia de rastrear o <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em>, pois seria como desfazer a metamorfose e entregar de bandeja a identidade secreta de franz.kafka@gmail.com a JC. Também não poderiam responder ao <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em>, pois o tal IP que fica no cabeçalho oculto dos <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mails</em> os denunciaria. Saíram do Acessa São Paulo, cabisbaixos, na certeza de que teriam de voltar, assim que obtivessem uma resposta por <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em>, fosse no computador da escola, fosse na casa de Rogério.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">***</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Magda intimou Antônio. Desta vez foi incisiva e sentenciou:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Semana que vem vamos comprar o computador para o Bruno. E faremos surpresa para ele.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Antônio apenas acenou a cabeça em sinal de concordância. Ele sabia que não seria o melhor momento para ir contra, ou mesmo para argumentar contra, discutir.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Quando Magda falava daquele jeito era melhor concordar e não discutir. Tudo bem que a frase entrou por um ouvido de Antônio e saiu por outro. Os dezoito anos de casados haviam lhe ensinado muita coisa, uma delas era não brigar por algo que não aconteceria naquele momento. Semana que vem era semana que vem. Ele tinha sete dias para, no momento certo, tocar no assunto e provar para Magda que isso não era uma decisão assim, simples. As economias da família não eram suficientes para comprar o computador tão antes do Natal. Havia outras prioridades. Mas isso seria um papo para mais adiante.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">O melhor negócio naquele momento era acenar a cabeça em sinal de positivo. Isso lhe garantiria um almoço caprichado e, quem sabe, até uma sobremesa.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">***</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">A estratégia da professora Olívia deu certo. A resposta pelo <em style="mso-bidi-font-style: normal;">blog</em> veio no mesmo dia. A mais “CDF” da classe, Célia Regina, resolvera a questão de Química e, entre um recado e outro do Orkut (ela era viciada no Orkut, uma rede social com comunidades das mais diversas), postou a resposta no <em style="mso-bidi-font-style: normal;">blog</em>. Não foi a primeira a postar, foi a terceira, mas foi a primeira resposta cem por cento correta e bem resolvida:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">“NaCl = cloreto de sódio Massa molar = 23,0 + 35,5 = 58,5 ———&gt; 1 mol = 58,5g</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Número de mols = 3,5g/58,5g = 0,0598 ou 0,06</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Sacarose: C12H22O11 = Mol = 342g</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Número de mols = 11g/342g = 0,032</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Somando 0,06 mol de cloreto de sódio + 0,032 mol de sacarose dá 0,092 mol – aproximadamente 0,09M”</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Mereceu. Ela teria um precioso ponto a mais na média bimestral de Química. Ponto que seria invejado por todos os colegas. O que ia ser difícil era a professora Olívia conseguir somar mais um à média de Célia Regina que sempre tira dez em tudo. Olívia vai ter que pedir ajuda à professora de Matemática, dona Merli. Aliás, era só em Matemática que Célia não tinha dez; afinal, “dez somente para o autor do livro, zero só para o aluno morto”, Merli não cansava de repetir a todos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">***</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">No caminho de volta do Acessa São Paulo, percebendo a frustração de Bruno, Lucy voltou a incentivá-lo a participar do concurso de literatura. Dispôs-se até mesmo a digitar o texto no computador da biblioteca, caso ele preferisse. Lucila não queria somente levantar o moral do namorado, mas também começava a desacreditar, perder a esperança de que seria possível recuperar o computador. E o concurso resolveria esse problema. Não recuperaria o texto com a história de Juca Colosso, mas metade do problema estaria resolvida. Mas o namorado hesitava, parecia inseguro.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Enquanto Lucy tentava animar Bruno, Rogério mantinha-se ao lado dos dois em silêncio absoluto. Dois ônibus e muita caminhada à frente, Bruno e Lucy perceberam que o amigo estava concentrado demais, quando Lucy cutucou:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Rogério, por que está quieto desse jeito?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Estou pensando algo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– O quê? – perguntou Bruno, curioso.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– E se o Jean descobrir que o Juca não tem nada a ver com o roubo? Quem seria nosso segundo suspeito? Não temos ninguém mais? O que faremos? E se o JC não responder ao <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em>? Ou mesmo se responder, se não cair na nossa armadilha para desmascará-lo? Estamos chegando numa situação em que podemos encontrar uma parede nesse labirinto e ter que voltar a zero!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Os dois ouviram como quem respondia “não havia pensado nisso!” e ficaram calados. Agora eram três em silêncio absoluto, caminhando pela cidade. Já estavam próximos do bairro e aqueles doze minutos de silêncio absoluto foram quebrados pelo toque do celular de Bruno.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">O menino estava tão anestesiado com a hipótese levantada por Rogério que demorou a perceber que era seu telefone que estava tocando. Lucy teve de alertá-lo:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Atende, Bruno.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Ãh, é o meu? É o meu! Alô!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Era Jean e a notícia não podia ser melhor:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Bruno, Juca acordou, está consciente e estou indo interrogá-lo daqui a uma hora. Assim que falar com ele te ligo – e desligou, como na maioria das vezes, sem despedir-se.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">E agora? A notícia tão esperada poderia transformar-se na pior notícia, se Juca não tiver nada a ver com o roubo. Ou na melhor notícia, pois sairia das costas de Bruno a horrível sensação de desconfiar do amigo Colosso, mas, nesse caso, voltariam à estaca zero.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Bruno nem sabia o que pensar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Lucila achava um absurdo Bruno não participar do concurso. Tinham que achar uma solução para essa situação. Dois dias depois, encontrou-se ao final da tarde com Bruno na casa de Rogério. Entraram de mãos dadas, e encontraram o amigo sorrindo, como se tivesse comido o último doce da terra. Mas o que ele tinha era um papel.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– O que é isso? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Isso é a carta-branca para o Bruno participar do concurso. Minha mãe conseguiu um computador com um amigo dela. Ele normalmente aluga, mas como é para uma boa causa, emprestou o PC antigo dele. Ela emprestou no nome dela. É um computador antigo, mas pra escrever dá bem. Agora nosso menino prodígio só precisa trabalhar, e muito. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Bruno estava sem saber o que falar. Um misto de alegria e de tristeza tomou conta dele. Como iria dizer para os amigos que o computador não era o principal problema? Que o verdadeiro problema era recuperar o texto que estava na memória da máquina, pois sem ele não conseguiria aprontar o novo livro a tempo? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Mas eu não tenho mais a minha história, o tempo é muito curto. E tem ainda as provas na escola&#8230; e como vão ficar nossas investigações?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Como é que é? Não dá tempo? Esqueceu que você é o escritor da turma? O 007 aqui consegue ir a fundo nas investigações. E prova a gente sempre tem, não é motivo para parar de viver.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– É quem sabe você não consegue, com nossas investigações, terminar seu livro? Afinal, a história deve ser muito boa, ou muito real. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Como é que é, Lucy?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– As coisas não parecem o que são.<span style="mso-spacerun: yes;">  </span>Não são tão difíceis&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– As coisas não são o que aparentam? – repetiu Bruno com um sorriso.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Afinal, do que você está falando, Bruno? Você não vai participar do concurso?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Bruno sorria e enquanto acessava o <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em>, para ver suas mensagens, sorrindo, respondeu:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Não só vou participar como acredito que nele esteja a chave para encontrar as respostas que procuramos!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Respostas?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Bruno abriu a página do <em style="mso-bidi-font-style: normal;">blog</em>, e com um tom de suspense olhou para os amigos e respondeu:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Elementar, meu caro Watson. Apresento-lhes nosso amigo Chico. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">E, apontando para a tela do computador, mostrou o seu texto editado no <em style="mso-bidi-font-style: normal;">blog</em>:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">“… Chico era um homem respeitador, de bons costumes e vida simples. Não procurava encrenca, era amigo de todos e seu divertimento era o pagode nas sextas-feiras. Em uma dessas noites ouviu algo que lhe causou preocupação. Uma conversa entre dois homens, falavam de entregas, do Chefe e do bagulho. Isso lhe soou muito estranho…”.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Naquela tarde não teve encontro na casa do Rogério. A Lucila tinha curso de informática, o Rogério estava gripado, e Bruno tinha a sua encrenca com a Matemática. Achou melhor aproveitar e estudar. Nota baixa era a última coisa de que precisava a esta altura dos acontecimentos. Sabia que no outro dia teriam trabalho dobrado: <em style="mso-bidi-font-style: normal;">blog</em>, <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em> e a Lucila.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Abriu o livro de Matemática. Equações de segundo grau. Ficou pensando por que as coisas não podiam ter ficado nas de primeiro grau, muito mais fáceis. Pela primeira vez em sua vida escolar estava pensando para que serviria o que estava aprendendo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Com tantas coisas reais e importantes acontecendo em sua vida, perguntava-se que valor teriam as equações de segundo grau. Seria escritor, já estava no caminho certo. O que fazer com a Matemática, a Física, a Química? Ficou ali um tempo olhando para o livro aberto, sem achar a resposta, então lembrou-se de Lucila. As perguntas que ficaram em sua cabeça, sobre as coisas reais que lhe aconteciam pareciam ser muito mais importantes que uma prova de Matemática.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Equação de segundo grau ax2+bx+c=0, usar a fórmula de Báscara, achar as incógnitas, organizar a equação para enxergarmos na forma geral da equação quais são os elementos. Existem ainda as equações incompletas, quando falta um dos membros dela. Resolução com dois resultados. De repente, foi como se uma luz brilhasse diante de seus olhos:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Organizar a equação para chegar aos resultados!!!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Descobriu para que servia a Matemática, e ficou ali pensando que a escola lhe ensinava muitas coisas, há muito tempo, mas só agora podia entender que não eram apenas teorias, serviam para a vida real, só dependia dele usar ou não os conhecimentos. E foi aí que entendeu uma frase ouvida do professor de História, que ficara rolando na sua cabeça:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">– Se você tem conhecimento, cultura, e não aplica na sua vida, conhece e não usa, então melhor não conhecer. Quer prova maior de estagnação?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Bruno sabia agora o que fazer. Agora sim, podia concentrar-se em sua prova. Aos poucos aprendia que a vida não espera resolver um problema para depois aparecer outro. Eles estão ali todos juntos, e devem ser resolvidos ao mesmo tempo. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">A equação estava na sua frente o tempo todo. Juca, Constantine, Jean, o computador com a história, o concurso. Organizando tudo conseguiria decifrar essa equação de muitas incógnitas. Mas ainda faltavam dados para resolver o problema.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Enviou uma mensagem para Lucila fazer a seguinte postagem no <em style="mso-bidi-font-style: normal;">blog</em>, depois da aula de Informática: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><em style="mso-bidi-font-style: normal;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">A volta do malandro</span></em><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">, de Chico Buarque</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Eis o malandro na praça outra vez</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Caminhando na ponta dos pés</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Como quem pisa nos corações</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Que rolaram dos cabarés</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Entre deusas e bofetões</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Entre dados e coronéis</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Entre parangolés e patrões</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">O malandro anda assim de viés</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Deixa balançar a maré</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">E a poeira assentar no chão</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Deixa a praça virar um salão</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;">Que o malandro é o barão da ralé</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; line-height: 150%;"><span style="font-size: 8pt; line-height: 150%; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span>Se Chico não é Chico, me diga então quem és!</span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>9 - Presente fora do Natal</title>
		<link>http://www.livrodetodos.com.br/2008/32/capitulo-9-presente-fora-do-natal</link>
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		<pubDate>Fri, 30 May 2008 17:07:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[ 
Seu Joaquim, o professor de Literatura, cultivava os escritores antigos por prazer, uma preferência pessoal que trazia da adolescência – gente como Machado de Assis, José de Alencar, alguns nem tão antigos, como Graciliano Ramos, José Lins do Rego. Torcia o nariz para Guimarães Rosa, não apreciava aquele linguajar todo complicado, cheio de palavras que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Seu Joaquim, o professor de Literatura, cultivava os escritores antigos por prazer, uma preferência pessoal que trazia da adolescência – gente como Machado de Assis, José de Alencar, alguns nem tão antigos, como Graciliano Ramos, José Lins do Rego. Torcia o nariz para Guimarães Rosa, não apreciava aquele linguajar todo complicado, cheio de palavras que ninguém usa. Dos estrangeiros, então, a lista era imensa, nem vale a pena citar, pois não acaba mais. Mas também torcia o nariz para James Joyce, Henry Miller, até o Marcel Proust. Mas gostava muito, exageradamente muito, do Balzac. Tinha mais afinidade com os franceses, talvez por serem latinos como nós, vai lá saber.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Naquela manhã, seu Joaquim pretendia distribuir cópias de um texto de um escritor bem novo, Menalton Braff, que apesar de novo já tinha em sua casa um prêmio Jabuti, o mais prestigiado prêmio literário do Brasil, da Câmara Brasileira do Livro. Gostava dessa lição – distribuir para os alunos textos de escritores de boa qualidade, fazê-los ler com atenção, e depois responderem uma grande quantidade de perguntas, com análise do texto, do estilo, comentários sobre cenas e assuntos tratados, personagens, lugares. Era, além de tudo, um magnífico treino da imaginação, pois a meninada precisava viajar um pouco para encontrar o que escrever para atender ao professor.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ele havia escolhido um dos contos do livro <em>À sombra do cipreste</em>, exatamente o que fora premiado. Como sempre acontecia nessas ocasiões, o professor de Literatura estava com dificuldades para conseguir o número de cópias necessário – o xérox da escola era muito antigo, muito usado, enguiçava constantemente, borrava o papel, às vezes recusava-se terminantemente a cumprir sua tarefa e não havia quem o demovesse dessa teimosia. Na classe reinava aquele burburinho – e a rodinha das amigas de Lucila, que comentavam o trabalho que ela fazia no <em>blog</em>, era o mais saliente. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O <em>blog</em>&#8230; Pois foi falando nele que uma das meninas, a Clarissa, sugeriu com toda a naturalidade:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Por que o seu Joaquim não põe o texto dele no <em>blog</em>? Todo mundo pegava pelo computador, e tava resolvido o problema.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Alguém contestou:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Mas nem todo mundo tem computador em casa, né querida?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ao que Lucila respondeu, já toda animada, lembrando as conversas do Rogério com Bruno:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Mas todo mundo tem computador na escola, né querida?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">E assim o seu Joaquim, que não tinha intimidade com computadores, foi docemente constrangido pela ala feminina da classe a colocar seu texto no <em>blog</em>. Era trabalhoso – o texto que ele selecionara para o trabalho da classe era cópia de um livro, bem novo, por sinal. Alguém precisava digitar aquilo tudo para enfiar no <em>blog</em>. Naturalmente, foi a blogueira quem ficou com a tarefa, que devia estar concluída naquela noite – o pessoal precisava ter o texto no dia seguinte, para entregar as respostas no outro dia. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Foi outro sucesso, principalmente porque os alunos decidiram entregar suas respostas, que eram todas textos enormes, alguns maiores do que aquele selecionado do livro, também pelo <em>blog</em>, utilizando o espaço reservado para os comentários. Seu Joaquim precisou imprimir todos eles, o computador e a impressora da escola, mas até que ficou satisfeito: os textos estavam todos em letras de forma, não teria de ficar decifrando os garranchos que os alunos faziam escrevendo com lápis nas folhas dos cadernos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">*  *  * </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Depois, reunião outra vez na casa do Rogério. Lucila estava contando, toda animada, a decisão de colocar no <em>blog</em> o trabalho que o seu Joaquim passara para a turma, e como conseguira digitar todo o texto, no computador da escola, em menos de vinte minutos. Rogério não gostou nem um pouco – achava que era uma avacalhação da internet colocar trabalho de escola nela. Para ele, trabalho de escola era um dever, uma chateação, e internet era diversão. Não combinam.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Bruno, ao contrário, achou a iniciativa muito interessante.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Imagina só, Rogério, se a escola toda começa a freqüentar o nosso <em>blog</em>, para passar os trabalhos, devolver as respostas, todos os dias, pois todos os dias tem lição nova&#8230; Vamos ter um número fantástico de acessos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Estavam nessa conversa fiada quando Rogério alertou:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Atenção, soldados! Chegou mensagem será<span style="mso-spacerun: yes;">  </span>que é do&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Era.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Do JC. Outra vez sem endereço. Havia um texto curto, endereçado a Bruno:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Ânimo, garoto. Parece que o Chico não é o Chico. Se não for, você é até capaz de ganhar um presente.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Desta vez não era uma ameaça, parecia até uma conversa cordial. Mas ninguém entendeu nada. O Chico não é o Chico? E quem seria esse Chico? E o presente? Lucila ficou assustada, presente dessa gente pode significar muita coisa&#8230; E tudo coisa ruim.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Mas Rogério tinha mais o que mostrar no <em>e-mail</em>. Junto com o texto, havia uma imagem.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Um arquivo JPG, como Rogério explicou aos amigos, menos enturmados que ele com as coisas da Informática, é sempre uma imagem. Bruno recomendou cuidado, pois ouvira falar do perigo de abrir essas coisas assim, sem cuidado, podem estar cheias de vírus.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Deixa comigo, gabou-se Rogério. Sei como descobrir essas armadilhas, e escapar delas. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Abriu o arquivo…<span style="mso-spacerun: yes;">  </span>e apareceu na tela um urso polar branco, mais branco que a neve, e uma foto de um mapa que indicava o caminho para o Pólo Norte…</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Mas o que isso está querendo dizer??? – espantou-se Bruno.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– O que os ursos podem ter a ver com o nosso caso? – perguntou Rogério.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Lucila enxergou o lado bom da coisa:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Gente, o JC anda lendo nosso <em>blog</em>. Isso é evidentemente uma alusão ao texto da professora de Matemática, o problema de andar 10 quilômetros para lá e para cá e acabar no Pólo Norte. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Não era bem isso, claro, mas todos entenderam. O que ninguém entendeu foi o súbito bom humor do JC.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">*  *  * <span style="mso-spacerun: yes;">     </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Registrando as compras na caixa do supermercado, Magda ouviu a conversa distraída do casal que ia ensacando as próprias compras.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– É claro que é possível, disse ele. – Eles ganham rios de dinheiro, todo mundo tem computador e todo mundo está sempre pensando em comprar um computador novo. É uma mina de ouro.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Está cheio de minas de ouro, um supermercado como este aqui é uma mina de ouro. E a empresa tem um monte, só aqui em São Paulo deve ter uns trinta&#8230; E nem por isso eles ficam fazendo esses concursos, ela respondeu.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– É porque um concurso assim dá prestígio, o nome da empresa vai aparecer nos jornais, na televisão. Ela está fazendo uma contribuição para a cultura do país.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Pêra aí, pêra aí&#8230; Concurso de literatura, para escritor, vai dar notícia no jornal, na televisão? Só se fosse na Alemanha, na Suíça, aqui no Brasil notícia no jornal e na televisão só se for concurso de miss.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– E tem mais, ela insistiu. Se fosse só para prestigiar a cultura, não davam esses prêmios todos, computador, edição do livro, viagens para o estrangeiro&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Ó, bem, não exagera, computador eles fabricam, não custa nada para eles&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Quando chegou em casa, Magda foi animadinha dar a notícia ao Bruno:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Olha aí, tem um novo concurso de literatura por aí. Escutei uma conversa hoje, no supermercado. É de uma fábrica de computadores, e o prêmio é exatamente um computador. Por que você não se inscreve?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O menino não se mostrou animado.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Mãe, não tenho nenhum livro escrito para entrar no concurso. To escrevendo, mas não está nada pronto. E se é um concurso assim, com tantos prêmios, vai haver concorrentes aos montes, difícil ganhar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Mas a minhoquinha ficou bem enfiada na cabeça dele. Três dias depois, conversando fiado com o Rogério na escola, sem nem lembrar dos <em>e-mails</em> misteriosos, das investigações do Jean, das duas histórias que estava escrevendo simultaneamente, perguntou ao amigo:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Rogério, soube que uma fábrica de computadores está promovendo um concurso literário. Será que é verdade? Você sabe que fábrica é essa?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Rogério reagiu como sempre, prático e eficiente:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não tenho a menor idéia. Mas é fácil descobrir, não tem tantas fábricas de computadores assim no Brasil.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">À noite, quando ligou para o amigo, para dar a informação exata que encontrara na internet, tinha um tom bem animado na voz:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Bruno, achei o teu concurso. É de uma empresa grande, e os prêmios são ótimos. Pelo menos o primeiro e o segundo são ótimos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Quais são os prêmios?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Para o primeiro lugar, um computador e a edição do livro que ganhou o concurso. Para o segundo, só o computador. Tem um terceiro, mas é mixo: só a edição do livro.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Mixo, Rogério? A edição de um livro é um prêmio ótimo, para quem quer ser escritor, claro. Para quem, como você, que quer passar a vida brincando com essas maquininhas, pode parecer mixo&#8230; Mas diz aí, como são as regras do concurso?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Ah, cara, é um monte de telas, não fiquei passando todas&#8230; Pega o computador da escola e olha você mesmo, toma aí o endereço. E passou o endereço para o Bruno. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">*  *  * </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">No dia seguinte, depois das aulas, Bruno foi à biblioteca, mas desta vez não queria nenhuma livro. Estava interessado em usar o computador. Digitou o endereço dado pelo Rogério, e ficou conhecendo tudo sobre o concurso. Havia os três prêmios, mas uma coisa também muito atraente: os livros premiados seriam editados e lançados numa festa especial, que seria realizada em agosto.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Bruno era ruim de Matemática, preferiu ir falando os nomes todos em vez de fazer uma conta, com certeza ia errar:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Estamos no fim de março, tem ainda abril, maio, junho e julho. Pêra aí, só metade de julho, pois o concurso acaba no dia 15. Catando milho na Olivetti não dá, com certeza&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">E lamentou mais uma vez:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Se ainda tivesse aquele meu computador&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Aquela noite era de folga das reuniões na casa do Rogério. Nada havia aparecido de novo, nenhum <em>e-mail</em> misterioso, Jean não telefonara mais – será que tinha ido mesmo para Curitiba? E o Juca Colosso, estaria lá no hospital?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Essas perguntas já não pareciam interessantes nem urgentes. Comentou o concurso com a Lucila, à noite, e ela ficou mais animada do que ele.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Claro que dá, Bruno. É só você, em vez de ficar batucando na máquina de escrever, ir lá no Acessa São Paulo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Lucy, no Acessa não dá para escrever um livro, a gente tem tempo certo para ficar usando o computador, tem sempre uma fila de gente esperando. Dá para você escrever textos curtinhos, cartas, mandar uma mensagem pela internet&#8230; Livro é outro história, meu bem.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Até ele estranhou. Nunca haviam usado essas expressões de namorados.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Mas Lucila não estava para nhen-nhen-nhen nenhum. Insistiu:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Se você tiver força de vontade, dá&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Mas Lucy, são duas histórias, não posso deixar de lado a do roubo do computador, que estamos colocando no <em>blog</em>, aos pedacinhos. É ela que vai nos dar alguma pista do ladrão, se é que existe alguma pista.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Despediram-se com um beijo bem comportado. E Bruno foi repetindo:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Meu bem! Meu bem!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Até que era bonito. Carinhoso.</span></p>
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