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	<title>Livro de Todos</title>
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	<description>Livro de Todos</description>
	<pubDate>Tue, 24 Jun 2008 12:21:49 +0000</pubDate>
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		<title>18 - E-mails</title>
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		<pubDate>Fri, 13 Jun 2008 17:14:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[








F I M
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="TEXT-ALIGN: center"><a href="http://www.livrodetodos.com.br/wp-content/uploads/2008/06/cap18_msg02_rogerio_estadosunidos.gif"></a></p>
<p style="TEXT-ALIGN: center"><a href="http://www.livrodetodos.com.br/wp-content/uploads/2008/06/cap18_msg01_lucila_dinamarca2.gif"></a><a href="http://www.livrodetodos.com.br/wp-content/uploads/2008/06/cap18_msg03_bruno_franca.gif"></a><a href="http://www.livrodetodos.com.br/wp-content/uploads/2008/06/cap18_msg01_lucila_dinamarca3.gif"></a></p>
<p style="TEXT-ALIGN: center"><img class="aligncenter size-full wp-image-51" title="cap18_msg01_lucila_dinamarca4" src="http://www.livrodetodos.com.br/wp-content/uploads/2008/06/cap18_msg01_lucila_dinamarca4.gif" alt="" width="410" height="281" /></p>
<p style="TEXT-ALIGN: center"><a href="http://www.livrodetodos.com.br/wp-content/uploads/2008/06/cap18_msg01_lucila_dinamarca1.gif"></a></p>
<p style="TEXT-ALIGN: center">
<p style="TEXT-ALIGN: center"><a href="http://www.livrodetodos.com.br/wp-content/uploads/2008/06/cap18_msg02_rogerio_estadosunidos4.gif"><img class="aligncenter size-full wp-image-57" title="cap18_msg02_rogerio_estadosunidos4" src="http://www.livrodetodos.com.br/wp-content/uploads/2008/06/cap18_msg02_rogerio_estadosunidos4.gif" alt="" width="410" height="273" /></a></p>
<p style="TEXT-ALIGN: center">
<p style="TEXT-ALIGN: center"><img class="size-full wp-image-49" title="cap18_msg03_bruno_franca" src="http://www.livrodetodos.com.br/wp-content/uploads/2008/06/cap18_msg03_bruno_franca.gif" alt="" width="410" height="301" /></p>
<p style="TEXT-ALIGN: center">
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: center;"><strong style="font-weight: bold;"><span style="font-size: 20pt; font-family: Verdana; color: #000000;">F I M</span></strong></p>
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		<title>17 - Guerra e paz</title>
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		<pubDate>Fri, 13 Jun 2008 17:02:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[ 
A professora da USP estava uma fera.
 
– Não é possível. Esse menino escreve com a brandura e elegância de um Rubem Braga. Mas não é apenas um cronista, é um escritor. É, não será. Mas será grande, com certeza, embora ainda não seja conhecido. Não dar o prêmio para ele seria uma maluquice.
 
A reunião do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">A professora da USP estava uma fera.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não é possível. Esse menino escreve com a brandura e elegância de um Rubem Braga. Mas não é apenas um cronista, é um escritor. É, não será. Mas será grande, com certeza, embora ainda não seja conhecido. Não dar o prêmio para ele seria uma maluquice.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">A reunião do júri que escolheria os trabalhos a serem premiados, entre os sete finalistas selecionados pelos professores, estava fervendo. Estavam os três juízes com as cópias do livro do Bruno na mão – a do diretor de Marketing da empresa de computadores cheia de marcadores de páginas. Ele grifara trechos secundários do texto, em que o Bruno dizia que o computador facilitava sua vida de escritor, mas não era indispensável. Citava o Balzac, com suas penas obsoletas, escrevendo e reescrevendo sem parar, o Guimarães Rosa, que também rabiscava os originais datilografados dos seus livros (era muito mais moderno do que o escritor francês), vezes e vezes sem-fim.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Claro, Bruno não era um Balzac, nem um Guimarães Rosa. Mas para a professora, tinha tudo para ser, era só ser estimulado, ajudado. E era o que ela queria fazer.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O diretor de Marketing objetava:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– O livro dele apresenta os computadores como irrelevantes. Isso será péssimo para a política de vendas de nossa empresa. Seríamos obrigados a reformular toda a nossa estratégia de publicidade.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Não era bem verdade. Bruno até que elogiava os computadores, seu personagem lutara muito para conseguir de volta o que lhe fora roubado, para ele era um ótimo instrumento de trabalho; afinal não estamos na França dos séculos 18 e 19, nem na Minas Gerais dos anos 1930, 40. Mas o homem não queria saber de literatura, queria saber de boas mensagens sobre computadores – queria que ele os apresentasse como indispensáveis para os escritores.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Indispensável para um escritor é ler. Ler livros, muitos livros, toneladas de livros – rebatia a professora.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– E depois ler de novo, e de novo, e de novo – fazia coro o professor.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O impasse durava já uma hora, quando a professora, enjoada daquela discussão primária, atacou com tudo:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Muito pior para a imagem da empresa será este concurso não chegar ao fim por falta de um júri para decidir sobre os prêmios&#8230; </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">E dirigindo-se diretamente ao companheiro da Unicamp:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não quero ficar, na história da literatura brasileira, ao lado daqueles três pascácios que em 1937 deixaram o Guimarães Rosa fora do concurso da Zé Olympio.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Era uma conversa cifrada, só os iniciados podiam saber o que ela queria dizer. O diretor de Marketing, claro, não entendeu bulhufas. Mas o colega da Unicamp sabia que ela se referia ao prêmio literário de 1937, promovido pela Editora José Olympio. Os concorrentes estavam identificados por apelidos, mas uma carta mantida sob sigilo, guardada pela direção da editora, identificava cada um deles. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O livro <em>Contos de Viator</em> era um forte concorrente, mas acabou perdendo para <em>Maria Perigosa</em>, de Luís Jardim. Como a carta de identificação de Viator havia se perdido, durante muito tempo não se soube quem era o autor verdadeiro daqueles contos, que receberam elogios acaloradíssimos de dois jurados que queriam lhe dar o prêmio.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Só muito depois se soube que eram do escritor mineiro Guimarães Rosa, que  nos anos seguintes seria responsável por  uma verdadeira revolução na literatura brasileira, sobretudo na especialidade dos regionalismos. Os contos derrotados no concurso, anos mais tarde, formaram o livro <em>Sagarana</em>, que os críticos consideram dos mais importantes na obra do famoso escritor.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O diretor de Marketing, que não entendera a conversa cifrada, não entendeu também a ameaça da professora. O professor da Unicamp, que conhecia a colega de longa data, gelou. Ela falava em renunciar ao cargo de julgadora antes da decisão. E com certeza contava com a adesão dele, que não estava a fim de fanfarronadas. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Com muita habilidade, começou a dar um jeitinho de pacificar a reunião.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Acho que podemos chegar a uma decisão conciliatória.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Conciliar como? – falaram ao mesmo tempo a professora e o diretor.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Simples. O menino diz aí que o computador é importante, mas não é fundamental. Fundamentais são os livros. Acredito que, para ele, mais fundamental do que todos os outros é o livro dele que estamos julgando aqui.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Até aí, ninguém entendera nada. Ele continuou, mansamente:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Podemos dar a ele o terceiro lugar. Ele não ganha o computador, que não é tão importante, mas ganha a edição do livro, que é fundamental para quem quer começar a carreira de escritor.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">A professora logo objetou:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– O Guimarães ficou em segundo, em 1937. Ele vai ficar em terceiro, é pior ainda. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O professor da Unicamp rebateu, habilmente:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– <em>Sagarana</em> demorou muitos anos para ser editado, só chegou ao público quando o Guimarães já era um escritor consagrado. O do menino será editado imediatamente, quando ele ainda é um desconhecido.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">A professora finalmente cedeu. Concordou. Estava programada para aquela noite uma apresentação da ópera <em>A Flauta Mágica</em>, de Mozart, que era a sua preferida. Queria se preparar adequadamente para a noitada, não valia a pena continuar com aquela rixa.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Mas o diretor de Marketing não se rendeu, embora sem saber o que dizer e fazer. Achava que mesmo o terceiro lugar era um prêmio imerecido para o livro que fazia pouco dos computadores. Pediu um tempo para consultar seus superiores. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Enquanto ele consultava, a professora pegou o telefone, sobre a mesa, e começou a discar. Quando atenderam, perguntou:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– É da Embaixada do Brasil? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Quero falar com o adido cultural.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Claro, é o César.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Passou um tempinho em silêncio, logo retomou a conversa:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– César? Está resolvido seu problema. Tenho aqui a pessoa certinha para aquele lugar no novo centro de estudos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Quem é? É um menino de 15 anos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Como assim, muito novo? Estou aqui com o livro que ele acaba de escrever, estamos fazendo o julgamento de um concurso literário. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não, não tirou o primeiro lugar. Mas é igualzinho ao Guimarães Rosa em 1937. Vai ficar com o terceiro e o seu livro vai ser editado imediatamente. Garanto que vai ser um sucesso.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Tá bom, vou ver aqui na carta de inscrição, tem o nome completo, endereço, tudo direitinho. Passo para você por <em>e-mail</em>. Pegou a bolsa, verificou se estava tudo em ordem lá dentro, e explicou para o colega atônito, antes de ir embora sem ao menos esperar a decisão da diretoria:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– O Ministério dos Negócios Estrangeiros (Orsay) da França, em convênio com a Universidade de Paris e com o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, instituiu um programa novo, que contempla estudantes antes da idade universitária. Esse programa tem por objetivo estimular e dar formação a jovens escritores promissores, oriundos dos países emergentes. Todo ano serão escolhidos três desses países, e um concurso seleciona os candidatos, que, uma vez  aprovados, se reunirão em Paris. Foram escolhidos este ano o Brasil, a China e a Índia para fornecer os jovens talentos. Se Bruno tiver o livro editado, terá atendido o primeiro requisito para ser admitido.  Se tiver sido aprovado no colégio e falar pelo menos um pouquinho de francês, estará tudo em ordem.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">E completou a explicação:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Vai para Paris estudar  &#8220;Redação e Prática de Escrita Criativa&#8221;. O curso, em francês, reunirá estudantes brasileiros, indianos e chineses, que são obrigados a aprender francês. Aprenderão lá mesmo. Mas eles se tornarão escritores em suas próprias e respectivas línguas, e nem poderia ser de outra maneira, para o que haverá professores especializados. Para sobreviver, recebem uma pequena bolsa com os custos divididos entre os governos francês e brasileiro e vão morar na Cidade Universitária, onde farão suas refeições a preços subsidiados e muito baratos, nos vários restaurantes para estudantes, afetuosamente chamados de &#8220;Restau-U&#8221;.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Parecia uma aula, das boas. Embora estivesse falando com um professor, como ela, a professora gostava de deixar tudo explicadinho. Por isso, prosseguiu:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Por causa dos brasileiros, e porque rende mais do ponto de vista econômico devido à unidade lingüística, a direção do programa resolveu estender a parte brasileira para mais alunos de língua portuguesa, tanto dos países africanos (Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe) quanto de Portugal.  </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Assim, amplia-se consideravelmente o cosmopolitismo da experiência de Bruno, que fará vários amigos entre outros jovens de proveniências tão diferentes, mas todos com interesses semelhantes pela literatura e pela escrita.  Espero que ele descubra que, afinal, muito há em comum entre os seres humanos, mais do que as idiossincrasias que os separam. E comece a formar o conjunto de experiências e conhecimentos que farão dele, um dia, com certeza, outro Guimarães Rosa, para nosso orgulho.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Os poderosos chefões da fábrica de computadores, naturalmente, acharam uma bobagem aquelas preocupações do diretor de Marketing. Vê lá se o livrinho de um frangote desconhecido iria abalar a imagem de uma multinacional como aquela, com fábricas espalhadas por todo o mundo. Ainda se fosse uma publicação no <em>blog</em> do Noblat, do Luís Nassif, que todo mundo lê, podia ser. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Desautorizado, o diretor de Marketing aceitou a decisão dos dois professores e Bruno ficou com o terceiro lugar no concurso. E uma estada em Paris, com tudo pago, coisa que ele não sabia nem imaginava que fosse cair no seu colo, mas que iria adorar quando soubesse.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O resultado do concurso foi anunciado na televisão, na hora do almoço, pelo diretor de Marketing, o mesmo que não queria dar o terceiro lugar para o Bruno. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">A notícia espalhou-se pela cidade como fogo em palha seca, Magda soube quando operava a caixa registradora do supermercado, teve um chilique, precisou ir para a enfermaria tomar um calmante. Antônio quase caiu da escada, em que subira para acertar um transformador que estava dando o prego. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Na escola, foi um carnaval. A diretora suspendeu as aulas, todo mundo foi para o pátio, onde reinava uma algazarra generalizada – parecia que o Corinthians fora campeão. Bruno recebeu cumprimentos de todo mundo, tapas nas costas, beijos das meninas. Seu Joaquim era um orgulho só. Até a professora de Matemática foi abraçar o literato premiado, que provocou uma gargalhada geral:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Então, professora, agora posso ganhar um 10? Eu sou o autor do livro&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Uma semana depois, um carro preto, todo solene, parou na porta da casa do Bruno. A vizinhança ficou assanhada. Comentários de toda ordem.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Deve ser a polícia, fofocou dona Miguelina.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– É mesmo, concordou dona Josefina.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Esse Bruno não tem parada, fica aí com essas histórias de drogas, computador roubado, alguma nova deve ter aprontado.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Não era a polícia. Era um funcionário da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo que vinha trazer aos pais do Bruno a notícia de que ele fora selecionado para aquela primeira turma daquele programa lá em Paris, de que a professora tinha falado lá no concurso. Era um envelope lacrado, com as cores da bandeira francesa. O funcionário não sabia explicar direito o que era aquilo, mas eles poderiam obter informações ligando para o Ministério das Relações Exteriores, o famoso Itamaraty, em Brasília. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Lá ficaram sabendo pouca coisa mais, apenas aqueles detalhes que a professora havia enumerado ao colega da Unicamp. Bruno deveria se apresentar na representação do Ministério, no Rio de Janeiro, no começo de dezembro. Receberia todas as informações necessárias, e de lá mesmo seguiria para Paris, na companhia de um funcionário da embaixada. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Magda recolheu as xícaras da mesa e os pratinhos onde servira suas rosquinhas para o visitante ilustre, e pegou o telefone.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Vilma? É Magda. Quando é que você vai à 25 de Março com a Ester?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Hoje mesmo? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Já estão saindo?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Então faça um cafezinho para ela, espere um pouquinho enquanto eu me apronto correndo. Vou com vocês.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Exatamente uma semana depois parou outro carro preto na porta da casa do Bruno.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Será que é aquele Itamaraty outra vez?  dona Miguelina perguntou a dona Josefina, toda assanhada.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Não era.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Era a polícia. Ou melhor, era o Jean.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Bruno não fora ouvir as novidades, ele vinha contar. Era história comprida. Magda, que já havia voltado do trabalho, voou para a cozinha, para preparar um café especial, para servir com as rosquinhas. Enquanto isso, Antônio voltava correndo do trabalho. Bruno, esse, estava no curso de francês que começara logo após receber a notícia da viagem para Paris. Sabia que lá teria um curso daquela língua, mas pretendia chegar falando pelo menos o feijão com arroz, ou melhor, a lagosta com a maionese (já sabia algumas coisas sobre a França). Holmes e Poirot também apareceram; afinal, armava-se a cena final de todos os livros de histórias policiais, quando  o detetive vai fazer aquele discurso final, esclarecendo todos os mistérios. Queriam saber como aquele pobre Jean daria conta dessa tarefa.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Café com rosquinhas&#8230; Holmes torceu o nariz, nas suas histórias serve-se sempre um cálice de xerez. Enfim, ali ele não era o personagem principal, era um coadjuvante. Cabia-lhe ouvir, apenas. Mas continuou implicando:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Nunca vi discurso final diante de uma multidão. Eu faço os meus apenas para o dr. Watson. Ele é que se encarrega de contar aos outros, escrevendo livros, suponho.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Poirot objetou:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– <em>Sont deux personnes</em> reais, de carne e osso, e <em>deux personnes</em> virtuais. <em>Non ser une</em> multidão.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não é para vocês, lá do continente, que são promíscuos. Para nós, da Grã-Bretanha, que nos orgulhamos de nossa privacidade, qualquer conversa de mais de duas pessoas  é multidão.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Poirot ficou uma fera.  Aquele &#8220;vocês, lá do continente&#8221; punha no mesmo saco os franceses junto com aquela gentinha da Espanha, da Itália, dos Bálcãs, da Turquia&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– <em>Intolérable</em>, vociferou, como nos mais legítimos livros de contos policiais. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Privacidade&#8230; Com todos aqueles pasquins maledicentes, quem tem privacidade naquela terra decadente? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Pensou, mas não falou. Ficou quieto.    </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Estava tudo pronto para o grand finale. Holmes acendeu o cachimbo. Felizmente Jean não fez o mesmo, se fizesse o ar ficaria irrespirável.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O detetive brasileiro limpou um pigarro e disparou:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Tudo começou quando o Bruno contou para o Colosso que estava escrevendo um livro com as coisas que ele tinha ouvido durante o sonho do Pirão. O Pirão é um joão-ninguém, não tem importância nenhuma no mundo do crime organizado, vive na periferia, não entra lá dentro, não poderia contar nada de importante do que lá acontece. Foi contar do livro do Bruno para o Coquinho só para se garantir, mas ninguém ligou. Começaram a ligar quando o Pirão lembrou de contar que o Bruno havia falado que o nome do personagem fictício que tinha criado no seu livro era Chico. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Por quê, perguntou de forma teatral, dando-se ares de Miss Marple.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Por que – respondeu prontamente – Chico é o codinome de um poderoso chefão do narcotráfico, que domina a favela de um dos mais belos morros do Rio de Janeiro. Ficou a dúvida: estaria o Bruno, apesar de toda a ignorância do Pirão, contando no seu livro a história do verdadeiro Chico?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Esse pessoal da pesada – continuou, depois de tomar um último gole do café, já frio – não brinca em serviço. Imediatamente foi feito contato com os chefes do crime organizado aqui de São Paulo, a maioria dos quais hospedada em prisões do Estado, e deram um jeito de roubar o computador do Bruno, com a história lá dentro. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– O computador foi passando de mão em mão, até chegar ao próprio Chico, o verdadeiro, lá no morro do Rio de Janeiro. Esse Chico é um criminoso singular, culto como ninguém, gosta de ler. Quando a polícia carioca conseguiu chegar ao seu esconderijo, encontrou várias estantes cheias ocupando boa parte do lugar. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– O Chico leu a história que o Bruno estava inventando, viu que não tinha nada a ver com a sua, verdadeira, e resolveu deixar para lá. Mas aí os especialistas do crime organizado, que ficam permanentemente vigiando na internet, descobriram as mensagens que o Bruno e o Rogério estavam distribuindo, para ver se pescavam alguma pista do computador. Os chefões resolveram entrar na brincadeira, para ver o que aquilo iria dar. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Voilá, estes brésiliens avacalham até o crime organizado. Organizado&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Era Poirot, ainda indignado. Agora com o crime organizado carioca. Talvez o paulista fosse mais respeitável.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Assim surgiu aquele misterioso JC. Não era John Constantine, o dos jogos e dos filmes, nem Juca Colosso, nem Jóquei Clube, como chegaram a pensar, quando as mensagens começaram a chegar do campus da USP, que fica ali pertinho. Eram apenas as duas letras que os traficantes usam para informar uns aos outros a chegada de uma nova remessa de drogas. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">JC – já chegou. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Pois o Chico, o verdadeiro,  com toda sua cultura, achou a história que o Bruno estava escrevendo muito legal. Quando soube que ele tinha todos aqueles problemas para escrever, precisava ir no Acessa São Paulo, depois no Poupatempo, gastava o pouco dinheirinho que o pai podia lhe dar na lan house do shopping, não sobrava nada nem para pagar um sorvetinho para a Lucila, mandou devolver o aparelho. Que fez toda aquela viagem de volta, do Rio para São Paulo. Por isso demorou tanto, os criminosos não podem simplesmente pegar um avião da ponte aérea e sair pela rua com um computador.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Infelizmente – começou a concluir Jean, vendo que a xícara estava vazia e não havia mais café no bule – não conseguimos prender o Chico. Prendemos o Coquinho, o Pirão não interessava. Mas o Chico conseguiu escapar, parece que foi para a Colômbia, não sei se vai agüentar, com todas aquelas delicadezas de homem culto. Lá a barra é pesada&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Holmes guardou o cachimbo, como se desinteressado do restante da história. Se é que haveria algum restante. E resmungou mais uma vez:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Nessa história, todo mundo vai embora para o estrangeiro&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Poirot sorriu, ferino, e disparou a pergunta implacável:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– <em>Pourquoi</em> ninguém foi para aquela ilha do Canal da Mancha?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ilha do Canal da Mancha? Essa, não. Foi a vez de Holmes ficar indignado, embora mantivesse a tradicional fleuma britânica. Pelo menos a aparência de calma. Por dentro estava fervendo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Ninguém? O que o Bruno poderia estudar <em>in England</em>? Por desleixo o governo brasileiro deixou acabar o Centro de Estudos de Cultura Portuguesa, de Oxford, negou um dinheirinho miserável para eles&#8230; </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– O que o Bruno iria estudar <em>in England</em>? Repetiu. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">E disparou, certeiro e mortal:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Ele só sabe falar duas línguas secundárias, uma delas ainda bem pouquinho&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><em>Mon dieu</em>, desta vez o saxão foi longe demais. Secundária, a sagrada língua de Racine, Molière, Rousseau,  Catherine Deneuve, Charles Aznavour&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Poirot soltou fogo pelas ventas. Por um momento, pareceu iminente o reinício da Guerra dos Cem Anos. As cinzas de Joana d&#8217;Arc juntaram-se outra vez, em Orleans, e os clarins soltaram seus trinados bélicos ao longe.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Felizmente, Magda trouxe um segundo bule de café e mais rosquinhas. Feliz com a estocada fatal que dera no inimigo incapaz de reação, Holmes acendeu o cachimbo outra vez e aceitou uma xícara com a respectiva rosquinha, conformado com a falta do xerez. Poirot ficou emburrado, no canto. Jean, depois de um novo cafezinho, como Holmes, e sem nada mais para contar, acendeu o cachimbo, outra vez como Holmes. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">E o Juca? Ainda está no hospital? Tem esperanças de recuperação?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Jean, inexperiente nessas exibições de discurso final de história de detetive, tinha esquecido aquela parte. Tomou a palavra, outra vez, para finalizar:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Quando falei com a mãe dele, lá no hospital de Curitiba, deixei com ela um cartão com o meu telefone e o telefone do Bruno. Ela ligou para mim, anteontem. O filho teve alta, foi para a casa dela, lá no interior do Rio Grande do Sul. Estava bem, mandava lembranças para o Bruno, pedia desculpas. Não queria mais saber de São Paulo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Um colosso – ela disse. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">E completou, para fechar a história de uma vez:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Parece que é coisa de família, isso de falar essa palavra a toda hora. Ou  sotaque gaúcho, não sei direito.</span></p>
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		<title>16 - Pobres cartas de amor, ridículas</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Jun 2008 17:01:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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Os professores recrutados para analisar o material entregue para o concurso estavam encantados. Afinal, uma das coisas com que menos podiam se regozijar era com a escrita dos alunos. Na rede estadual vinham, cada vez mais, sentindo a dificuldade dos alunos em registrar suas idéias. Talvez, se fossem instituídos mais concursos como esse na rede, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Os professores recrutados para analisar o material entregue para o concurso estavam encantados. Afinal, uma das coisas com que menos podiam se regozijar era com a escrita dos alunos. Na rede estadual vinham, cada vez mais, sentindo a dificuldade dos alunos em registrar suas idéias. Talvez, se fossem instituídos mais concursos como esse na rede, desde o ensino fundamental, os estudantes se sentissem motivados para ler e escrever. Para se tornarem autores. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Há pessoas que nascem com aquela vontade inexplicável de escrever e, para tanto, lêem tudo, conhecem autores, dialogam com os textos, imiscuem-se nas tramas. No entanto, escrever pode ser agradável e é altamente relevante para qualquer pessoa. Escrever, colocar as idéias no papel, fazer com que outros as conheçam, não depende apenas de talento, é algo possível de ser aprendido e lapidado, de acordo com a familiaridade que se tenha com os bons autores e com situações motivadoras que incitem o exercício da escrita.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Encarregados de encontrar os melhores textos entre as centenas de concorrentes, os professores empenharam-se no trabalho, garimparam as melhores idéias e as palavras mais bem colocadas. Às vezes, a idéia sobressaía e encantava, porém, para um concurso são necessários atendimento a critérios preestabelecidos e uso correto da língua. Outras vezes, a linguagem era ortográfica e gramaticalmente correta, mas a idéia era pobre. Um trabalho árduo esse; no entanto, encantador! Os professores vibravam…</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Bruno precisava contar as novidades para Luci. De qualquer jeito, precisava falar com ela. Era urgente.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Luci também estava vibrando com as novidades. As suas novidades! Depois da Amazônia, o Japão e depois? Europa&#8230; Europa&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Dinamarca, país gelado, diferente, ia ver a neve, andar pra lá e pra cá de avião. Precisava contar para o namorado. Era urgente.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Claro que contou tudo primeiro, quando se encontrou com Bruno. Meninas são sempre mais tagarelas e prolixas. Nesse caso da Luci, tão tagarelas e prolixas que Bruno esqueceu momentaneamente o arquivo oculto e tudo mais, as suas novidades.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Dinamarca… a terra de Andersen!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– É, Luci – disse empolgado, como quem sonha – Hans Christian Andersen, meu escritor preferido na infância&#8230; </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Pensou um segundo, emendou: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Depois do Monteiro Lobato, claro. Eu adoro seus contos e histórias. Meus preferidos são <em style="mso-bidi-font-style: normal;">O Patinho Feio</em>, o primeiro que conheci, e <em style="mso-bidi-font-style: normal;">O Soldadinho de Chumbo</em>. E você, meu bem (olha o meu bem de novo), deve gostar de <em style="mso-bidi-font-style: normal;">A Pequena Sereia</em>.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Bruno não sabia se colocava um fim nessa história de roubo – a história real, pois a de seu livro já estava escrita no exemplar entregue para o concurso. Nem se contava ao Jean sobre o tal arquivo oculto que havia encontrado no computador. Ou então se envolvia mais ainda o Rogério na história para que ele procurasse outros possíveis arquivos ocultos. Novamente a cabeça de Bruno, com tantas idéias e tanto para amadurecer, estava confusa. O que fazer?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Jean não fazia contato já há alguns dias, ninguém sabia se ele realmente estava próximo de encontrar o ladrão ou se havia seguido pista falsa novamente. Tinha vontade de ligar para o investigador e descobrir, talvez fosse mais pela curiosidade de saber quem foi o ladrão do que pela vontade de fazer justiça.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Na noite anterior, pegara o telefone, decidido, mas não completou a ligação. Desistiu no quarto dígito&#8230; </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não, acho que essa história já foi longe demais – pensou. E ficou lá, parado, com o telefone na mão, com o som de linha ocupada fazendo “tu, tu, tu” como um fundo musical para aquela cena. A cada segundo mudava de idéia, ora achando melhor acabar com tudo, ora tendo certeza de que era melhor ir até o fim. Era a indecisão em pessoa naquele momento.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ouvira as histórias da Luci com um ouvido, mas a cabeça ainda rodava distante. Depois do comentário sobre o Andersen, baixou um silêncio pesado entre eles.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Está vendo como estamos distantes, meu bem&#8230; começou a Luci, para animar a situação. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Quando ela disse aquele “meu bem” deu gelo no estômago de Bruno, daqueles quando, de surpresa, vemos a pessoa amada. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ela continuou, cautelosa: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Ouvi seus recados no celular, me desculpe por não retornar, mas é que esses dias todos foram uma correria total para mim.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Nem tentei ligar mais vezes, Luci, porque, apesar da saudade, eu também estava numa correria com o livro. Liguei pra saber de você mesmo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não estava agüentando mais ficar longe de você.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Bruno abriu um sorriso de orelha a orelha, orgulhoso pelo que ouvira, e retribuiu:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Eu também estava morrendo de saudades&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Vamos lá para casa, então, minha mãe fez aquela musse de maracujá com cobertura de suspiro que você adora.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Quando começaram a caminhar, de mãos dadas, tocou o celular do Bruno. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Era Jean. Finalmente.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Oi Jean, tem novidades?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Tenho sim, Bruno, mas temos que conversar pessoalmente. Pode ser agora?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ele não podia furar com Luci, além de estar louco para conversar calmamente com ela, namorar, como poderia “descombinar” aquela ida à casa dela? Ainda mais com a musse esperando. Feita especialmente para ele. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Hoje não posso, Jean.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Nem à noite?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– É, à noite pode ser que dê. Que horas?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Venha às 21h00 na delegacia, estou de plantão hoje.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Tudo bem, combinado.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Mas Bruno disse a última palavra para um celular mudo, pois Jean, como sempre, desligou antes de despedir-se.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Feliz da vida, Rogério, assim como a mãe, queria dar a notícia, a ótima notícia, para Deus e o mundo. Decidiu ligar primeiro para Fernanda. Pegou o celular, procurou na agenda, Fabio, Fabíola, Felipe, Fernanda! Apertou o botão verde e esperou chamar. Enquanto o telefone se conectava para iniciar a chamada, Rogério refletiu, naqueles poucos segundos, sobre sua vida:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Por que estou ligando primeiro para contar isso à Fernanda? Por que não ao Bruno, meu melhor amigo? Por que não à Luci?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Mas a reflexão não pôde chegar ao fim, Fernanda atendeu:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Alô.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Fê, tenho uma ótima notícia pra te dar e você é a primeira pessoa para quem estou ligando para contar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Que honra, Rogério… disse ela, surpresa e alegre. Na verdade, mais alegre do que surpresa.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Sabe aquela fábrica de computadores, na qual fui fazer aquele teste para estágio?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não me diga que eles te chamaram?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– E para trabalhar na Amazon Books, nos Estados Unidos!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não acredito!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Nem eu!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Que legal, Rogério, tenho que te dar os parabéns pessoalmente, onde você está?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Estou em casa, mas se quiser vou até aí.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Então vem logo!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Rogério, esbaforido, não achava as chaves, queria sair voando para a casa da Fernanda. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Atitude própria dos apaixonados. Com uma diferença: Bruno e Luci já tinham consciência disso; ele e Fernanda ainda não&#8230; mas não ia demorar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Enquanto corria, Rogério lembrou-se de contar para o amigo sobre a inesperada notícia.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Alô, Bruno.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Oi, Rogério, quanto tempo, hein!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– É, esses dias têm sido de correria. Mas liguei para você para lhe dar uma ótima notícia. Vou trabalhar nos Estados Unidos no fim do ano!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Ah, não brinca. É sério mesmo?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Sim, a fábrica de computadores me chamou para fazer estágio na Amazon Book, lá nos “Istêitis”, cara. Não é demais?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Putz, que notícia ótima. Isso merece uma comemoração!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Verdade, estou indo para a casa da Fernanda agora.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Pra casa da Fernanda?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– É, ela quer me dar os parabéns pessoalmente.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Hummmmm, disse Bruno, insinuando o que só o Rogério não queria ver.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Não, Bruno, ela é só minha amiga.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Sei. Amiga. Amicíssima.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Sério.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Eu estou a caminho da casa da Luci, vou ligar para ela e ver se podemos comemorar os quatro juntos então. Já te ligo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">E assim combinaram de comemorar na casa da Lucila, pois lá tinha o tal musse de maracujá com cobertura de suspiro, imperdível. Vinte minutos depois, estavam lá, os quatro, brindando suas recentes </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">conquistas com taças de musse. O livro de Bruno terminado, as viagens de Luci para o Japão e Dinamarca, o estágio do Rogério na Amazon e a ainda não declarada paixão de Fernanda por Rogério, e vice-versa.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Em apenas um olhar para Luci, Bruno deu sinal para deixarem Rogério e Fernanda a sós, para ver se saía algum coelho daquele mato.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Luci convidou todos para irem a seu quarto, ver as fotos da viagem para a Amazônia.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ao chegarem no quarto, Luci agarrou Bruno e ficaram os dois se beijando. Rogério e Fernanda ficarem no sofá, sentados lado a lado. No começo, constrangidos. Sem jeito. Mas aquela situação era o que Fernanda estava esperando. A oportunidade. Quando Bruno e Luci se desgrudaram pouquinho, viram no outro sofá o mais novo casal se formando.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Sozinho, olhando para o <em style="mso-bidi-font-style: normal;">daruma</em> como um troféu, estava decidido. Não iria ao Japão. Por mais tentador que fosse o convite, para ele, mais importante que conhecer o berço de seu povo era manter seu juramento à esposa. Melhor que ter ido ao Japão foi ter trazido parte dele para o Brasil, ter compartilhado um pedacinho de sua experiência com toda uma escola, com jovens que levarão isso para a vida toda. Estava orgulhoso de si. Feliz por Lucila ter tido essa idéia. E mais feliz, ainda, pelo trabalho ter sido um sucesso tão grande.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ir ao Japão já não era tão importante naquele momento. O <em style="mso-bidi-font-style: normal;">daruma</em> de sua vida já estava com os dois olhos pintados muito antes disso.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Mas não diria a decisão a ninguém ainda. A paciência oriental era sua prática incansável. Aguardaria até que Luci lhe perguntasse. Por enquanto, a decisão ficaria guardada apenas com ele.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Seu Nikito continuava, como se estivesse anestesiado, a olhar para o <em style="mso-bidi-font-style: normal;">daruma</em>, pensando na amada que se fora. Pensava nela como se redigisse uma carta de amor, talvez tão compenetrado como Fernando Pessoa, ou melhor, Álvaro de Campos, em <em style="mso-bidi-font-style: normal;">Todas as Cartas</em><em style="mso-bidi-font-style: normal;"> de Amor são Ridículas</em>:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Todas as cartas de amor são</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ridículas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Não seriam cartas de amor</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Se não fossem</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ridículas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Também escrevi em meu tempo cartas de amor,</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Como as outras,</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ridículas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">As cartas de amor, se há amor,</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Têm de ser</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ridículas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Mas, afinal,</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Só as criaturas que nunca escreveram</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Cartas de amor</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">É que são</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ridículas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Quem me dera no tempo em que escrevia<span style="mso-spacerun: yes;">  </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Sem dar por isso </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Cartas de amor </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ridículas. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">A verdade é que hoje<span style="mso-spacerun: yes;">  </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">As minhas memórias<span style="mso-spacerun: yes;">  </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Dessas cartas de amor<span style="mso-spacerun: yes;">  </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">É que são </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ridículas. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">(Todas as palavras esdrúxulas, </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Como os sentimentos esdrúxulos, </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">São naturalmente </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ridículas.)</span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>15 - O arquivo oculto</title>
		<link>http://www.livrodetodos.com.br/2008/38/capitulo-15-o-arquivo-oculto</link>
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		<pubDate>Wed, 11 Jun 2008 16:59:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[ 
Mesmo que Bruno quisesse falar com a Luci, ela nunca estava em casa. Nas poucas vezes em que ligou para o celular dela, só ouvia a mensagem eletrônica: “Oi, aqui é a Luci! Deixe seu recado, assim que arranjar um tempinho, te ligo de volta, tá?”.
 
Naquela tarde, Bruno havia deixado três recados e nada, será [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Mesmo que Bruno quisesse falar com a Luci, ela nunca estava em casa. Nas poucas vezes em que ligou para o celular dela, só ouvia a mensagem eletrônica: “Oi, aqui é a Luci! Deixe seu recado, assim que arranjar um tempinho, te ligo de volta, tá?”.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Naquela tarde, Bruno havia deixado três recados e nada, será que ela nem mesmo teve tempo para ouvir as mensagens? Somente neste momento, o namorado se deu conta de que o tempo havia passado depressa, ele já lembrava com nostalgia os primeiros encontros, beijos, as primeiras descobertas do amor.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Mas não se deixou abater, no fundo, ele estava contente em ver Luci tão empenhada e decidida quanto ele, com seu livro, que por sinal estava quase pronto. Ela já não parecia mais a mesma! </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ou não? Pensando bem, ela era a mesma doce garota que ele tanto amava, mas, como ele, também passava por um processo de descobertas e amadurecimento.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O livro estava quase terminado e Bruno ainda não havia se decidido, final feliz ou infeliz? Afinal, aquela experiência não fora de toda ruim! Não mesmo! Foi essa rocambolesca aventura que o levou à certeza de que deveria seguir sua verdadeira vocação. É verdade, havia ainda muitas dificuldades a vencer, mas pelo menos o concurso seria uma prova decisiva para seu talento. Seria mesmo um escritor? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Não mirava nenhum prêmio, queria fazer parte do projeto, ficar mais experiente, amadurecer literariamente. Havia um grande e largo caminho aberto diante dele, uma infinidade de livros para serem lidos e apreciados.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Bruno não chegava a reconhecer isso, mas só o fato de alimentar essas preocupações, enquanto dava os últimos retoques em sua obra, já demonstrava que ele amadurecera, sim, muito, durante aqueles poucos meses de tanta agitação e corre-corre.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Naquela tarde Bruno estava mais filosófico que nunca, até se arriscou a compor uma poesia para mandar por <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em> para Luci:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">“Nada me resta sem você, </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">tudo que virá depois,</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">fará parte de mim para sempre</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">mas não apagará nada, </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">porque </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">afinal, quem somos nós </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">senão o resto de nós mesmos?” </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Bruno estava decidido, mandou a poesia por <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail</em> para Luci. E voltou à revisão de seu texto, queria que todas as palavras, frases e idéias estivessem em ordem, perfeitamente enunciadas. Queria ser o mais profissional possível, lia tudo atentamente, parágrafo por parágrafo, fazendo sempre mais alguns ajustes. Sobretudo, cortando os excessos! E se perguntando:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Por que os escritores nunca estão satisfeitos com o seu texto? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">E lembrou Balzac, de que tanto falava o professor Joaquim: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Ele escrevia e reescrevia seus romances, cada vez que recebia uma nova prova da tipografia, mudava tudo, era um desespero para os editores. Se ele tivesse um computador, como eu, seria muito mais fácil&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">E aí, de repente, uma idéia incrível lhe veio à cabeça: se é tão fácil deletar palavras, o contrário também é verdadeiro. Quando devolveram seu computador, não lhe ocorreu que alguém poderia ter colocado palavras nele também! Freneticamente, começou a abrir todas as suas pastas e documentos! Um a um, passou um tempão rastreando tudo que havia no <em style="mso-bidi-font-style: normal;">notebook</em> roubado e devolvido. Finalmente, lá no diretório <em style="mso-bidi-font-style: normal;">Arquivos de programas\arquivos comuns</em>, topou com a pasta oculta <em style="mso-bidi-font-style: normal;">JC</em>!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Tremeu dos pés à cabeça, o estomago deu um nó, uma sensação sufocante de surpresa e incredulidade tomou conta de sua mente e ele pensou em voz alta: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Meu, isso é medonho!!! </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Respirou fundo, clicou sobre o ícone, uma tela nova se abriu, um texto em PDF dizia :</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">“Estou do seu lado, garoto! Não tenha medo! Posso parecer o inimigo, mas na verdade sou seu aliado!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Conte esta história! Existem muitas histórias a serem contadas neste mundo, mas só um escritor como você poderá contá-la sem modificar os detalhes, com arte e sabedoria!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">JC, Chico para os amigos” </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Medonho? Nem tanto, parecia até simpático. Animador. Bruno decidiu na hora, sem hesitar:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Final feliz, claro&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Mais uma vez a atuação de Luci deu o que falar: muitos admiravam sua súbita vontade de mudar o mundo, mas a turminha do contra não perdia a oportunidade de criticar: </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Até parece que um chiclete fora da lixeira pode se tornar problema ambiental&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">A jovem foi se envolvendo cada vez mais com a ONG – parecia ter passado a vida toda lá. Participava ativamente de todos os eventos, campanhas, mobilizações, conhecia gente de toda parte, defendendo as mais diversas causas. Mergulhou de cabeça na polêmica sobre a Amazônia. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Luci, essa sua brincadeira de ecologista está passando dos limites – resmungou dona Vilma no café da manhã, quando a filha falou sobre o convite que tinha recebido para conhecer a maior floresta do mundo. Igualzinho a Magda reclamando do Bruno com o computador.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– É um lugar muito perigoso, onde só tem bicho, índio, plantas desconhecidas, venenosas. Além do mais, foi lá que mataram a freira.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Luci não se deu por vencida: tinha recebido um convite de outra ONG, parceira da sua, para um grande evento que reuniria jovens de todo o País para lutar contra a retaliação da Amazônia, e não queria ficar de fora. O problema é que o encontro seria no Pará, a bola da vez em todos os noticiários, sempre com notícias ruins.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Ela chegou bem, Vilma garantiu ao marido ao desligar o telefone. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Agora é rezar para essa reunião acabar logo, sem ataques de índios e sem nenhuma morte. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O discurso dramático disfarçava a admiração que a mãe sentia pela filha. Pela nova filha. Mas ela ainda suspirava, de vez em quando: bem que Luci podia ser uma adolescente como as outras, ligada em moda, baladas, em crise com as espinhas e com o cabelo. Mas, não.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O evento no Pará reuniu jovens de diversas partes do País, com o objetivo de ampliar a mobilização contra o desmatamento. A ONG trabalhava com jovens de comunidades ribeirinhas, incentivando a sua participação nos debates sobre sua “casa”, a Amazônia. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Luci se encantou com o conhecimento que eles tinham sobre sua terra, meio ambiente, política. E como escreviam bem! Uma das atividades do encontro era a produção de um jornal, e a adolescente ficou de queixo caído com a facilidade com que os ribeirinhos compunham versos e paródias.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Ao contrário do que muitos, como a Vilma, ainda acham, a Amazônia não tem só bicho e planta, mas uma população cheia de histórias. Os caboclos, mistura de índio com branco, moram dentro da floresta, vivem do extrativismo e são os verdadeiros guardiões da floresta, pois estão lá todo o tempo e dependem dela para sobreviver. Pescam, fabricam artesanato, os jovens freqüentam escolas, têm produção de alta qualidade e são mais conscientes do que muitos da “cidade”. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Foram poucas horas, menos de dois dias, naquele mundaréu verde e calorento, mas Luci voltou para São Paulo transformada. Mal teve tempo de contar para Bruno tudo o que tinha visto. A mãe parecia mais conformada:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Ainda bem que você só vai para o Japão quando chegarem as férias. Não deixaria você faltar na escola para passear. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">A visita seria no comecinho de dezembro, sérios como eram, os japoneses, como a Vilma, não queriam interromper os estudos da jovem. Ela ficaria lá três semanas e voltaria a tempo de passar o Ano-Novo com a família. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Vilma sabia que sentiria saudades, mas suportaria – logo a filha estaria de volta. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Mas quando o telefone tocou e Luci deu um grito, depois de ouvir as primeiras palavras, o medo voltou. E não era para menos:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;">  </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Dina&#8230; Dinamarca? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Notícia boa corre rápido, ao contrário do que muitos pensam, e as ONGs formam uma espécie de rede, conhecem o trabalho umas das outras. Luci se destacava rapidamente pela militância engajada, e pareceu bastante natural que fosse indicada por unanimidade para participar de uma conferência da juventude na Europa: o evento pretendia reunir jovens do mundo todo para trocar experiências e fortalecer seu protagonismo diante das causas ambientais.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"><span style="mso-spacerun: yes;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Luci já ia mesmo dar a volta ao mundo para chegar ao Japão. Natural que aproveitasse a passagem paga pelo rico governo japonês – é a segunda potência econômica do mundo –, pois ONGs não têm dinheiro sobrando: na viagem de volta ao Brasil, faria uma escala em Copenhague, a capital da tal Dinamarca que reacendeu os temores de Vilma. Ela não tinha intimidade com o Google, pegou então um velho atlas que a Luci usava na escola, para saber onde ficava o tal país.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Longe, descobriu. Muito longe. Pertinho do Pólo Norte. Gelado. Em dezembro então, deveria ser um horror. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Com um suspiro, foi ao armário das coisas fora de uso, em busca das esquecidas agulhas de tricô. Numa tarde qualquer iria à 25 de Março comprar uma montanha de novelos de lã. Até dezembro, imaginava, teria tempo de sobra para preparar agasalhos para a filha querida, agora fonte de tantas preocupações.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Quase no mesmo momento do telefonema da Dinamarca para a Luci, tocou o telefone na casa do Rogério. Foi a mãe, dona Ester, quem atendeu. E gritou:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Rogério, é para você. Lá daquela fábrica de computadores&#8230;</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Rogério deu um pulo da cadeira. Correu para o telefone, já sonhando:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">– Será que houve uma repescagem e eu voltei para a primeira divisão?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Era quase isso. O gringo, quem diria, ficou encantado com aquela conversa alucinante com o Rogério. Uma torrente de idéias e sugestões originalíssimas. É disso, exatamente disso, que vive o mundo digital. O Google, por exemplo, essa potência, uma das mais valiosas empresas do mundo, nasceu do nada, de uma idéia maluca de dois garotos como o Rogério. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Alucinados.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">A prova escrita demonstrava que o Rogério não sabia muito de informática, só o arroz com feijão necessário para navegar com competência pela internet e fuçar coisas mundo afora. Mas como sabia pensar&#8230; Pensar diferente, com ousadia, grande, imensamente grande. Grande como tudo que flutua no mundo virtual.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Pois não é que o gringo queria levá-lo para um estágio, não no Vale do Silício, onde apenas se fabricam <em style="mso-bidi-font-style: normal;">chips</em> cada vez menores e mais poderosos, mas na Amazon Books? </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Nem o Rogério sabia direito o que é essa Amazon Books, a não ser que ela nada tem a ver com a Amazônia da Luci. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Correu ao Google para saber. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">De saída, que era fruto de uma idéia maluca como as que ele tinha aos montes. Mas não era de garotos atrevidos, era de um competente freqüentador do centro financeiro mundial, Wall Street: em 1994, o americano Jeffrey Bezos deixou um valioso emprego ali, na afamada ponta sul da Ilha de Manhattan, e criou a que seria a primeira livraria virtual de relevância na internet. Ao contrário de muita gente por aí, ele acreditava que livros têm tudo a ver com o mundo virtual, poderiam ser uma rica fonte de negócios e de dinheiro para quem se atrevesse a encarar o desafio. Ele se atreveu, e não teve por que se arrepender de ter abandonado a intimidade com a dinheirama de Wall Street.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O capital para abrir o negócio veio, é claro, dos chamados investidores de risco, gente com dinheiro suficiente para fazer apostas em empreendimentos originais. Assim, Bezos tornou-se um pioneiro da chamada economia digital, criou um novo modelo de negócios, que dispensa lojas, vendedores e, virtude das virtudes no mundo empresarial, opera com estoques reduzidos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Outras inovações da Amazon são a ligação direta com o consumidor, sem intermediários, e a capacidade de fidelizar o cliente, ao difundir o conceito de <em style="mso-bidi-font-style: normal;">e-mail marketing</em>, que oferece ao comprador de um livro um novo título que venha a ser lançado, do mesmo gênero ou do mesmo autor.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">O gringo achava que Rogério, apesar da ignorância, mas com aquele inglês perfeito, para um jovem estrangeiro, tinha tudo a ver com o espírito reinante na Amazon Books. E queria levá-lo para lá. No começo de dezembro, claro, pois era preciso esperar o fim das aulas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Quando Rogério conseguiu contar tudo isso para a mãe, ela imediatamente ligou para o marido para dar a grande nova.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Boa ou ruim? Não sabia, ainda. Depois começou a ligar para as amigas, uma a uma. Não tinha certeza, mas achava que estava orgulhosa. Quando contou a novidade para Vilma, aproveitou para combinar de irem juntas à 25 de Março. Nos Estados Unidos, ela sabia de tantos filmes vistos na televisão, também faz um frio de rachar em dezembro.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">* * *</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Bruno conseguiu aprontar as três cópias do texto do seu livro no último dia das inscrições para o concurso literário da fábrica de computadores. Não tinha grandes esperanças, havia visto nos <em style="mso-bidi-font-style: normal;">sites</em> dos jornais notícias sobre ele, e sabia que não seria uma brincadeirinha como o concurso do jornal, em que ganhara o computador. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Como os prêmios eram valiosos, esperavam-se centenas de competidores. Seria preciso muita gente para ler aquilo tudo e fazer a seleção. Foram recrutados, então, sessenta professores de Literatura das escolas de ensino médio do Estado, para compor a linha de frente dessa estrutura. Seu Joaquim estava entre eles.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Os professores fariam duas leituras e reduziriam aquela prevista imensidão de livros a apenas sete. Então um júri muito especial escolheria desse conjunto os três a serem premiados. Era formado por uma professora de Literatura da Universidade de São Paulo, aposentada, e, portanto, com tempo livre para enfrentar essa parada; e um professor da Unicamp.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 8pt; font-family: Arial;">Claro, a empresa estava gastando uma boa grana com o concurso e queria tirar dele algum benefício para a sua imagem pública. O marqueteiro estava lá para fazer com que o resultado fosse o mais rendoso possível.</span></p>
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		<title>14 - Das novelas para a salvação do mundo</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Jun 2008 16:59:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[ 
Emília sorria com os olhos apertadinhos, enquanto conversava com Lucila, na porta da casa.
– E tem algo mais que preciso lhe dizer: vá ao Japão, dê andamento a esse projeto tão relevante. Com certeza será um sucesso! No entanto, sinto no fundo da alma que não deve esperar levar consigo o meu avô. Quase centenário, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> </p>
<p>Emília sorria com os olhos apertadinhos, enquanto conversava com Lucila, na porta da casa.</p>
<p>– E tem algo mais que preciso lhe dizer: vá ao Japão, dê andamento a esse projeto tão relevante. Com certeza será um sucesso! No entanto, sinto no fundo da alma que não deve esperar levar consigo o meu avô. Quase centenário, ele parece bem e poderia viver ainda algum tempo, mas a promessa feita à esposa é muito importante. Na cultura japonesa, os compromissos assumidos com os entes queridos, com a família e os amigos próximos, beiram ao juramento mais solene. Quando o caso é de jura, então… nem se fala. Ele está sentindo que deve ir, não ao Japão, mas ao encontro da companheira. Sente que ela o espera, orgulhosa de seus feitos.</p>
<p>Essa conversa fez Lucila viajar, quando deveria estar prestando atenção às aulas. Passou horas e horas pensando em como seria uma visita ao Japão. Ao Japão!!! Do outro lado do mundo. Um mundo habitado por pessoas gentis como o seu Nikito, pensava ela, no seu quase delírio. Quem poderia imaginar uma coisa dessas? Há apenas três meses sua vida era aquela mansidão, uma tranqüilidade sufocante – de casa para a escola, da escola para casa, as novelas na televisão, à noite, no fim de semana um encontro furtivo com o Bruno. O que não era um dever, era um hábito imitado das amigas, dos adultos, das outras pessoas. Tudo limitado. Limitadíssimo.</p>
<p>E de repente, lá está ela, responsável por um <em>blog</em> que virou quase o órgão oficial da escola, onde todo mundo posta, íntima dos segredos da internet, esse universo maravilhoso onde é possível encontrar rigorosamente tudo. Responsável pela criação de um acordo de cooperação entre escolas de dois mundos tão diferentes quanto Brasil e Japão. E recém-convertida militante das causas ecológicas. Lucila estava numa surpreendente fase de aprendizado rápido e envolvimento instantâneo. Aquela já longínqua palestra do engenheiro, por exemplo&#8230;</p>
<p>Visitando os sites cujos endereços ele lhe dera, ficara sabendo muito daqueles enormes problemas ambientais citados na palestra. Mais importante: ficara conhecendo muitas pessoas, no mundo todo, que de uma forma ou de outra estavam empenhadas nessa batalha gigantesca que, bem colocadas as coisas, pode ser resumida em três palavras: salvar o mundo. Alguns em casa, outros em ações individuais, economizando água, deixando o carro na garagem e andando de metrô.</p>
<p>A imensa maioria, reunidas em organizações variadas, que no Brasil chamamos ONGs, organizações não-governamentais, algumas gigantescas, ramificadas pelo mundo todo, outras pequeninas, limitadas a uma cidade, um bairro, até a um quarteirão. Mas todas ousadas, atrevidas, irreverentes, prontas a chocar as pessoas desinteressadas, mostrando-lhes descaradamente como a sua indiferença contribuía para a ruína do nosso planeta, tanto quanto a fumaça preta das chaminés das fábricas antediluvianas que ainda existem, ou os automóveis, os caminhões, os ônibus fumacentos.</p>
<p>Estava se comunicando com um pessoal de uma delas, da Dinamarca, preocupado com a nossa Amazônia, a derrubada das árvores, quase todos os dias noticiada nos jornais e na televisão, ameaçando criar um deserto onde hoje há um paraíso. Decidida, Lucila mergulhava de cabeça nesse novo universo. Que também lhe fora revelado pela internet.</p>
<p>Era ela, sim, Lucila. A Luci do Bruno. Quem diria&#8230;</p>
<p>Estava louca para falar com o Bruno, e justo nesse momento percebeu que não tinha contado ainda nada de toda esta história para o namorado!</p>
<p>Correu à casa dele, ansiosa para contar as novidades, mas encontrou-o mergulhado no novo livro, agora com duas histórias paralelas, cheias de detalhes, minúcias, prazo curtíssimo para terminar. Exigia concentração.<br />
Não quis interrompê-lo, correu para a casa do Rogério, que estava muito ocupado com a prova que faria para tentar o estágio na fábrica de computadores. Também não quis interrompê-lo.</p>
<p>Cada um estava no seu mundo. Nos últimos dias, aqueles mundos estiveram tão juntos, próximos, ligados, e agora, repentinamente, começavam a se afastar.</p>
<p>Era surpreendente. Na vida das pessoas, pelo menos das pessoas que não se deixam prender pela rotina, aquelas que são como o Noronha que escalou as montanhas americanas em busca de uma realização só sua, original, na vida dessas pessoas constantemente os mundos se juntam e se afastam, dependendo das situações, das descobertas, das coisas novas aprendidas. Lucila percebeu isso de repente, e voltou para casa feliz com o novo descobrimento. Era fascinante viver essa nova vida, com tantas coisas fantásticas que passaram a acontecer assim, de repente.</p>
<p>* * *</p>
<p>O sucesso do <em>blog</em> na escola já era tão grande que Luci não dava mais conta de administrar tantos posts e comentários. <em>E-mails</em> de alunos e professores com conteúdos de qualidade abarrotavam a sua caixa postal, e, embora encantada com a nova ferramenta de comunicação, a jovem fincava o pé: queria tempo para estudar, conversar com as amigas e, principalmente, namorar.</p>
<p>Foi até o quarto e pegou o caderno colorido recheado de anotações, recortes, pétalas de flores secas, ingressos de cinema, fotos, convites para aniversários. Tudo o que tinha importância estava registrado ali. Recostou-se no travesseiro, folheando as páginas da curta autobiografia. A sua vida tinha dado um salto. Aquilo tudo, de repente, pareceu coisa&#8230; de criança.</p>
<p>O toque do celular interrompeu seus pensamentos.</p>
<p>– Luci, hoje é dia do Rio Tietê! Era Tita, a amiga que não deixava ninguém jogar papel no chão, desperdiçar água e esquecer lâmpadas acesas. Na escola, ganhou o apelido de “ecochata”.</p>
<p>– E desde quando rio tem data para comemorar? Lucila, inexperiente em lutas ecológicas, perguntou.</p>
<p>Tita estava elétrica.</p>
<p>– Vai ter passeata, oficina de reciclagem e até show de música no Parque do Tietê, vamos!</p>
<p>Duas horas depois, as duas amigas chegavam ao Parque Ecológico do Tietê. A movimentação era grande – crianças, adultos, adolescentes superanimados. Luci se surpreendeu, esperava um blablablá e até politicagem, já que era ano de eleição, o que via era muita agitação.</p>
<p>Um grupo de jovens, cercado por público atento, mostrava tubos de ensaio cheios de água de diversas tonalidades e explicava de que trechos do Rio Tietê haviam sido retirados.</p>
<p>– Não dá para acreditar que esse rio seja limpo em algum lugar, pensou.</p>
<p>Mas é. Os jovens explicavam que a água saía purinha da nascente, no município de Salesópolis. Quando atravessa a cidade de São Paulo, recebe todo tipo de sujeira, lixo, esgoto. Fica com um aspecto de chorar e cheiro de torcer o nariz. Ainda tem gente que acha que rio é lugar de jogar tudo o que não serve mais, e depois não entende como acontecem as enchentes.</p>
<p>Quando o Tietê segue para o interior do Estado, a qualidade da água melhora um pouquinho, uma dessas mágicas da natureza. Lá perto do Rio Paraná, onde desemboca, dá até para pescar.</p>
<p>Aquela moçada toda – grupos de estudantes, escoteiros, associações comunitárias – monitora a qualidade da água por meio de <em>kits</em> distribuídos por uma ONG. São verdadeiras aulas de educação ambiental e cidadania, com lições de Química, Biologia, Geografia. Os grupos de voluntários trocam informações pela internet e lançam os dados em relatórios – uma das ferramentas que a ONG tem para cobrar providências do poder público. A outra estava à sua frente: milhares de pessoas lutando por um rio mais limpo e uma cidade mais saudável.</p>
<p>– Vai ter um concurso de vídeos feitos pelo celular – Tita continuava elétrica.</p>
<p>– O melhor trabalho será exibido em todos os eventos da ONG, com a presença do autor, que se torna voluntário na campanha pela despoluição do rio!</p>
<p>Luci voltou para casa e foi direto ao computador do irmão. Abriu o Google, digitou “Rio Tietê” e se surpreendeu com a quantidade de tópicos relacionados.</p>
<p>Tita não continha a empolgação:</p>
<p>– Podemos mostrar a população jogando lixo na rua, os bueiros entupidos&#8230;</p>
<p>Mas a idéia de Luci era outra. Achava que o mundo já tinha notícias ruins demais, o que deixava as pessoas anestesiadas, nem prestavam mais atenção. Se o vídeo mostrasse como seria bom ter um rio para passear, nadar, brincar, talvez as pessoas se sensibilizassem.</p>
<p>Em poucos dias, o roteiro estava pronto: o Rio Tietê aparecia limpo, de uma hora para outra. Ninguém entendia como aquilo tinha acontecido – nem o que fazer com uma opção de lazer tão legal – e saíam em busca do “culpado”, que era um cientista bem velhinho, que passou a vida fazendo experimentos para melhorar a qualidade de vida da população.</p>
<p>* * *</p>
<p>A votação para a escolha do vídeo vencedor aconteceu em duas partes: primeiro, pela internet. Depois, os dez “mais” foram exibidos para uma comissão formada por ambientalistas, cineastas, professores.</p>
<p>Os internautas só podiam votar uma vez. As adolescentes capricharam na divulgação, e com aquela força do <em>blog</em> – também por merecimento, claro –, o vídeo foi para a final. Para Tita, que sonhava em ser cineasta, artista, jornalista, publicitária ou&#8230; O que mais, mesmo? O auditório cheio parecia coisa de Oscar.</p>
<p>Luci permitiu-se ficar nervosa, mesmo convencida de que a sua idéia era muito boa. Bruno gostou do charminho.</p>
<p>– É coisa de mulher, constatou para Rogério. Estava mais sensível às sutilezas do universo feminino. Para um escritor, isso era fundamental.</p>
<p>Lá pela terceira exibição, o clima pesou no auditório. Eram visíveis o desconforto e o desinteresse da platéia e do júri: os vídeos beiravam o drama, mostrando um rio agonizante. Pior: a saída parecia estar apenas nas mãos do poder público, do governo, quando, na verdade, todos davam a sua contribuição pessoal na poluição.</p>
<p>Quando a telona mostrou a primeira imagem do vídeo de Luci e Tita, o silêncio deu lugar a um burburinho. Em seguida, a risadas. Logo depois, a gargalhadas.</p>
<p>Luci se lembrava da euforia no dia da grande final enquanto se preparava para conversar sobre a importância de (boas) ações individuais com os alunos de uma escola estadual. O vídeo delas ganhou por unanimidade, e tornou-se um verdadeiro cult. Era o mais acessado na internet e virou ferramenta de mobilização em tudo que era lugar: escolas, clubes, empresas&#8230; A jovem se esforçava para dividir o tempo entre as aulas, o namorado, as amigas e o estágio que ganhou na ONG.</p>
<p>Estava aprendendo muito. Sempre que possível – e ela dava jeito pra ser sempre mesmo – acompanhava os ambientalistas nas palestras. Era divertido: num dia, falavam para crianças. Em outro, para homens engravatados de uma indústria importante. Teve até palestra para um grupo GLS, que achou Luci “uma gracinha de ecologista”.</p>
<p>Coisa raríssima.</p>
<p>A proposta era simples: reciclar o lixo, substituir as sacolas plásticas pelas de tecido – muito mais charmosas, por sinal –, evitar o desperdício de água e aderir ao consumo consciente, comprando só o necessário e sempre de empresas que se preocupam com o meio ambiente. A presença da jovem dava mais credibilidade ao discurso, leve e divertido.</p>
<p>A ONG gostou tanto do vídeo que abriu uma vaga de estágio para Tita, que ajudava na criação de eventos e mobilização de novos voluntários.</p>
<p>* * *</p>
<p>Rogério foi mal no teste escrito para a vaga de estagiário.</p>
<p>Mal? Põe mal nisso. Não acertou uma, pelo menos ele achava que não acertara uma. Assim, quando chegou a sua hora para a entrevista individual com o gringo americano, que só falava inglês – fazia parte do teste essa conversa em inglês, quem não fosse capaz não tinha chance, mesmo que tivesse acertado tudo na prova escrita –, pois então, o Rogério foi tão mal que decidiu desbundar na hora da entrevista. Em inglês, claro, pro cara entender –, ou não entender, sabe-se lá.</p>
<p>Respondeu tudo de bate-pronto, com as idéias mais loucas que lhe chegavam à cabeça. E foi se entusiasmando com a diálogo, o gringo aproveitava as deixas dele e perguntava no mesmo nível. Foi mais de uma hora de papo extremamente confuso, para quem não está por dentro dos segredos do mundo digital. Não era o caso deles dois.</p>
<p>Do gringo, sobretudo.</p>
<p>Por causa disso, foi um Rogério exausto que deixou a sede da fábrica de computadores, naquele final de tarde. Exausto e abatido. Consciente do fracasso. Nunca iria estagiar no Vale do Silício, lá em São Francisco, cidade maravilhosa, nem parece americana, onde se comem caranguejos gigantescos (<em>king crabs</em>), esses mesmos que são exibidos diariamente no Discovery Channel, no programa <em>Deadliest catch</em> (Pesca mortal, em português) em intermináveis e repetitivas pescarias em alto-mar, a uma temperatura baixíssima e enorme desconforto para os pescadores. Que parecem felizes por ganharem assim seu rico dinheirinho.</p>
<p>* * *</p>
<p>Bruno, ao contrário, também estava exausto, mas animadíssimo. O livro chegava aos finalmente, ele tinha lido e relido tudo várias vezes, achava que estava ótimo. Faltava agora um final feliz para ele. Uma dúvida atroz: mandaria os ladrões para a cadeia, fiel à regra de que o mal precisa ser castigado, ou deixaria que saíssem por aí, afinal haviam devolvido o computador, quase pediram desculpas, não mandavam mais mensagens sibilinas e ameaçadoras, parecia até que torciam por ele no concurso que se aproximava rapidamente.</p>
<p>Rapidamente. E ele sem um final, feliz ou infeliz.</p>
<p>E aí ocorreu-lhe uma coisa em que não havia reparado: onde andava a Luci? Tempão já que não se viam, a culpa era dele, claro, estava sempre ocupado, escrevendo, escrevendo, quando não estava escrevendo estava pensando, ela passava na casa dele todo dia, mas mal trocavam um alô e um beijinho desinteressado.</p>
<p>Pois agora percebia que nos últimos dias&#8230; semanas? &#8230; nem isso.</p>
<p>Onde andava a Luci?</p>
<p>Telefonou para a casa dela, foi a mãe, dona Vilma, quem atendeu.</p>
<p>– Onde anda a Luci? E eu sei? Quando não está na escola está por aí com esta meninada esquisita, Rio Tietê pra lá e pra cá, poluição, quer brigar com todo mundo, os donos das fábricas, o governo&#8230; Me contaram que ela fez um vídeo que foi premiado, mas nós aqui em casa não vimos nada. Acho que é porque a gente economiza água, economiza eletricidade, não anda de carro por aí&#8230; Pra fazer economia, né? Não precisamos ser esclarecidos, como ela fala toda hora.</p>
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		<title>13 - Dois olhos de uma vez</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Jun 2008 16:58:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
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