Conte a sua parte da história
17 - Guerra e paz
A professora da USP estava uma fera.
– Não é possível. Esse menino escreve com a brandura e elegância de um Rubem Braga. Mas não é apenas um cronista, é um escritor. É, não será. Mas será grande, com certeza, embora ainda não seja conhecido. Não dar o prêmio para ele seria uma maluquice.
A reunião do júri que escolheria os trabalhos a serem premiados, entre os sete finalistas selecionados pelos professores, estava fervendo. Estavam os três juízes com as cópias do livro do Bruno na mão – a do diretor de Marketing da empresa de computadores cheia de marcadores de páginas. Ele grifara trechos secundários do texto, em que o Bruno dizia que o computador facilitava sua vida de escritor, mas não era indispensável. Citava o Balzac, com suas penas obsoletas, escrevendo e reescrevendo sem parar, o Guimarães Rosa, que também rabiscava os originais datilografados dos seus livros (era muito mais moderno do que o escritor francês), vezes e vezes sem-fim.
Claro, Bruno não era um Balzac, nem um Guimarães Rosa. Mas para a professora, tinha tudo para ser, era só ser estimulado, ajudado. E era o que ela queria fazer.
O diretor de Marketing objetava:
– O livro dele apresenta os computadores como irrelevantes. Isso será péssimo para a política de vendas de nossa empresa. Seríamos obrigados a reformular toda a nossa estratégia de publicidade.
Não era bem verdade. Bruno até que elogiava os computadores, seu personagem lutara muito para conseguir de volta o que lhe fora roubado, para ele era um ótimo instrumento de trabalho; afinal não estamos na França dos séculos 18 e 19, nem na Minas Gerais dos anos 1930, 40. Mas o homem não queria saber de literatura, queria saber de boas mensagens sobre computadores – queria que ele os apresentasse como indispensáveis para os escritores.
– Indispensável para um escritor é ler. Ler livros, muitos livros, toneladas de livros – rebatia a professora.
– E depois ler de novo, e de novo, e de novo – fazia coro o professor.
O impasse durava já uma hora, quando a professora, enjoada daquela discussão primária, atacou com tudo:
– Muito pior para a imagem da empresa será este concurso não chegar ao fim por falta de um júri para decidir sobre os prêmios…
E dirigindo-se diretamente ao companheiro da Unicamp:
– Não quero ficar, na história da literatura brasileira, ao lado daqueles três pascácios que em 1937 deixaram o Guimarães Rosa fora do concurso da Zé Olympio.
Era uma conversa cifrada, só os iniciados podiam saber o que ela queria dizer. O diretor de Marketing, claro, não entendeu bulhufas. Mas o colega da Unicamp sabia que ela se referia ao prêmio literário de 1937, promovido pela Editora José Olympio. Os concorrentes estavam identificados por apelidos, mas uma carta mantida sob sigilo, guardada pela direção da editora, identificava cada um deles.
O livro Contos de Viator era um forte concorrente, mas acabou perdendo para Maria Perigosa, de Luís Jardim. Como a carta de identificação de Viator havia se perdido, durante muito tempo não se soube quem era o autor verdadeiro daqueles contos, que receberam elogios acaloradíssimos de dois jurados que queriam lhe dar o prêmio.
Só muito depois se soube que eram do escritor mineiro Guimarães Rosa, que nos anos seguintes seria responsável por uma verdadeira revolução na literatura brasileira, sobretudo na especialidade dos regionalismos. Os contos derrotados no concurso, anos mais tarde, formaram o livro Sagarana, que os críticos consideram dos mais importantes na obra do famoso escritor.
O diretor de Marketing, que não entendera a conversa cifrada, não entendeu também a ameaça da professora. O professor da Unicamp, que conhecia a colega de longa data, gelou. Ela falava em renunciar ao cargo de julgadora antes da decisão. E com certeza contava com a adesão dele, que não estava a fim de fanfarronadas.
Com muita habilidade, começou a dar um jeitinho de pacificar a reunião.
– Acho que podemos chegar a uma decisão conciliatória.
– Conciliar como? – falaram ao mesmo tempo a professora e o diretor.
– Simples. O menino diz aí que o computador é importante, mas não é fundamental. Fundamentais são os livros. Acredito que, para ele, mais fundamental do que todos os outros é o livro dele que estamos julgando aqui.
Até aí, ninguém entendera nada. Ele continuou, mansamente:
– Podemos dar a ele o terceiro lugar. Ele não ganha o computador, que não é tão importante, mas ganha a edição do livro, que é fundamental para quem quer começar a carreira de escritor.
A professora logo objetou:
– O Guimarães ficou em segundo, em 1937. Ele vai ficar em terceiro, é pior ainda.
O professor da Unicamp rebateu, habilmente:
– Sagarana demorou muitos anos para ser editado, só chegou ao público quando o Guimarães já era um escritor consagrado. O do menino será editado imediatamente, quando ele ainda é um desconhecido.
A professora finalmente cedeu. Concordou. Estava programada para aquela noite uma apresentação da ópera A Flauta Mágica, de Mozart, que era a sua preferida. Queria se preparar adequadamente para a noitada, não valia a pena continuar com aquela rixa.
Mas o diretor de Marketing não se rendeu, embora sem saber o que dizer e fazer. Achava que mesmo o terceiro lugar era um prêmio imerecido para o livro que fazia pouco dos computadores. Pediu um tempo para consultar seus superiores.
Enquanto ele consultava, a professora pegou o telefone, sobre a mesa, e começou a discar. Quando atenderam, perguntou:
– É da Embaixada do Brasil?
– Quero falar com o adido cultural.
– Claro, é o César.
Passou um tempinho em silêncio, logo retomou a conversa:
– César? Está resolvido seu problema. Tenho aqui a pessoa certinha para aquele lugar no novo centro de estudos.
– Quem é? É um menino de 15 anos.
– Como assim, muito novo? Estou aqui com o livro que ele acaba de escrever, estamos fazendo o julgamento de um concurso literário.
– Não, não tirou o primeiro lugar. Mas é igualzinho ao Guimarães Rosa em 1937. Vai ficar com o terceiro e o seu livro vai ser editado imediatamente. Garanto que vai ser um sucesso.
– Tá bom, vou ver aqui na carta de inscrição, tem o nome completo, endereço, tudo direitinho. Passo para você por e-mail. Pegou a bolsa, verificou se estava tudo em ordem lá dentro, e explicou para o colega atônito, antes de ir embora sem ao menos esperar a decisão da diretoria:
– O Ministério dos Negócios Estrangeiros (Orsay) da França, em convênio com a Universidade de Paris e com o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, instituiu um programa novo, que contempla estudantes antes da idade universitária. Esse programa tem por objetivo estimular e dar formação a jovens escritores promissores, oriundos dos países emergentes. Todo ano serão escolhidos três desses países, e um concurso seleciona os candidatos, que, uma vez aprovados, se reunirão em Paris. Foram escolhidos este ano o Brasil, a China e a Índia para fornecer os jovens talentos. Se Bruno tiver o livro editado, terá atendido o primeiro requisito para ser admitido. Se tiver sido aprovado no colégio e falar pelo menos um pouquinho de francês, estará tudo em ordem.
E completou a explicação:
– Vai para Paris estudar “Redação e Prática de Escrita Criativa”. O curso, em francês, reunirá estudantes brasileiros, indianos e chineses, que são obrigados a aprender francês. Aprenderão lá mesmo. Mas eles se tornarão escritores em suas próprias e respectivas línguas, e nem poderia ser de outra maneira, para o que haverá professores especializados. Para sobreviver, recebem uma pequena bolsa com os custos divididos entre os governos francês e brasileiro e vão morar na Cidade Universitária, onde farão suas refeições a preços subsidiados e muito baratos, nos vários restaurantes para estudantes, afetuosamente chamados de “Restau-U”.
Parecia uma aula, das boas. Embora estivesse falando com um professor, como ela, a professora gostava de deixar tudo explicadinho. Por isso, prosseguiu:
– Por causa dos brasileiros, e porque rende mais do ponto de vista econômico devido à unidade lingüística, a direção do programa resolveu estender a parte brasileira para mais alunos de língua portuguesa, tanto dos países africanos (Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe) quanto de Portugal.
Assim, amplia-se consideravelmente o cosmopolitismo da experiência de Bruno, que fará vários amigos entre outros jovens de proveniências tão diferentes, mas todos com interesses semelhantes pela literatura e pela escrita. Espero que ele descubra que, afinal, muito há em comum entre os seres humanos, mais do que as idiossincrasias que os separam. E comece a formar o conjunto de experiências e conhecimentos que farão dele, um dia, com certeza, outro Guimarães Rosa, para nosso orgulho.
Os poderosos chefões da fábrica de computadores, naturalmente, acharam uma bobagem aquelas preocupações do diretor de Marketing. Vê lá se o livrinho de um frangote desconhecido iria abalar a imagem de uma multinacional como aquela, com fábricas espalhadas por todo o mundo. Ainda se fosse uma publicação no blog do Noblat, do Luís Nassif, que todo mundo lê, podia ser.
Desautorizado, o diretor de Marketing aceitou a decisão dos dois professores e Bruno ficou com o terceiro lugar no concurso. E uma estada em Paris, com tudo pago, coisa que ele não sabia nem imaginava que fosse cair no seu colo, mas que iria adorar quando soubesse.
* * *
O resultado do concurso foi anunciado na televisão, na hora do almoço, pelo diretor de Marketing, o mesmo que não queria dar o terceiro lugar para o Bruno.
A notícia espalhou-se pela cidade como fogo em palha seca, Magda soube quando operava a caixa registradora do supermercado, teve um chilique, precisou ir para a enfermaria tomar um calmante. Antônio quase caiu da escada, em que subira para acertar um transformador que estava dando o prego.
Na escola, foi um carnaval. A diretora suspendeu as aulas, todo mundo foi para o pátio, onde reinava uma algazarra generalizada – parecia que o Corinthians fora campeão. Bruno recebeu cumprimentos de todo mundo, tapas nas costas, beijos das meninas. Seu Joaquim era um orgulho só. Até a professora de Matemática foi abraçar o literato premiado, que provocou uma gargalhada geral:
– Então, professora, agora posso ganhar um 10? Eu sou o autor do livro…
* * *
Uma semana depois, um carro preto, todo solene, parou na porta da casa do Bruno. A vizinhança ficou assanhada. Comentários de toda ordem.
– Deve ser a polícia, fofocou dona Miguelina.
– É mesmo, concordou dona Josefina.
– Esse Bruno não tem parada, fica aí com essas histórias de drogas, computador roubado, alguma nova deve ter aprontado.
Não era a polícia. Era um funcionário da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo que vinha trazer aos pais do Bruno a notícia de que ele fora selecionado para aquela primeira turma daquele programa lá em Paris, de que a professora tinha falado lá no concurso. Era um envelope lacrado, com as cores da bandeira francesa. O funcionário não sabia explicar direito o que era aquilo, mas eles poderiam obter informações ligando para o Ministério das Relações Exteriores, o famoso Itamaraty, em Brasília.
Lá ficaram sabendo pouca coisa mais, apenas aqueles detalhes que a professora havia enumerado ao colega da Unicamp. Bruno deveria se apresentar na representação do Ministério, no Rio de Janeiro, no começo de dezembro. Receberia todas as informações necessárias, e de lá mesmo seguiria para Paris, na companhia de um funcionário da embaixada.
Magda recolheu as xícaras da mesa e os pratinhos onde servira suas rosquinhas para o visitante ilustre, e pegou o telefone.
– Vilma? É Magda. Quando é que você vai à 25 de Março com a Ester?
– Hoje mesmo?
– Já estão saindo?
– Então faça um cafezinho para ela, espere um pouquinho enquanto eu me apronto correndo. Vou com vocês.
Exatamente uma semana depois parou outro carro preto na porta da casa do Bruno.
– Será que é aquele Itamaraty outra vez? dona Miguelina perguntou a dona Josefina, toda assanhada.
Não era.
Era a polícia. Ou melhor, era o Jean.
Bruno não fora ouvir as novidades, ele vinha contar. Era história comprida. Magda, que já havia voltado do trabalho, voou para a cozinha, para preparar um café especial, para servir com as rosquinhas. Enquanto isso, Antônio voltava correndo do trabalho. Bruno, esse, estava no curso de francês que começara logo após receber a notícia da viagem para Paris. Sabia que lá teria um curso daquela língua, mas pretendia chegar falando pelo menos o feijão com arroz, ou melhor, a lagosta com a maionese (já sabia algumas coisas sobre a França). Holmes e Poirot também apareceram; afinal, armava-se a cena final de todos os livros de histórias policiais, quando o detetive vai fazer aquele discurso final, esclarecendo todos os mistérios. Queriam saber como aquele pobre Jean daria conta dessa tarefa.
Café com rosquinhas… Holmes torceu o nariz, nas suas histórias serve-se sempre um cálice de xerez. Enfim, ali ele não era o personagem principal, era um coadjuvante. Cabia-lhe ouvir, apenas. Mas continuou implicando:
– Nunca vi discurso final diante de uma multidão. Eu faço os meus apenas para o dr. Watson. Ele é que se encarrega de contar aos outros, escrevendo livros, suponho.
Poirot objetou:
– Sont deux personnes reais, de carne e osso, e deux personnes virtuais. Non ser une multidão.
– Não é para vocês, lá do continente, que são promíscuos. Para nós, da Grã-Bretanha, que nos orgulhamos de nossa privacidade, qualquer conversa de mais de duas pessoas é multidão.
Poirot ficou uma fera. Aquele “vocês, lá do continente” punha no mesmo saco os franceses junto com aquela gentinha da Espanha, da Itália, dos Bálcãs, da Turquia…
– Intolérable, vociferou, como nos mais legítimos livros de contos policiais.
– Privacidade… Com todos aqueles pasquins maledicentes, quem tem privacidade naquela terra decadente?
Pensou, mas não falou. Ficou quieto.
Estava tudo pronto para o grand finale. Holmes acendeu o cachimbo. Felizmente Jean não fez o mesmo, se fizesse o ar ficaria irrespirável.
O detetive brasileiro limpou um pigarro e disparou:
– Tudo começou quando o Bruno contou para o Colosso que estava escrevendo um livro com as coisas que ele tinha ouvido durante o sonho do Pirão. O Pirão é um joão-ninguém, não tem importância nenhuma no mundo do crime organizado, vive na periferia, não entra lá dentro, não poderia contar nada de importante do que lá acontece. Foi contar do livro do Bruno para o Coquinho só para se garantir, mas ninguém ligou. Começaram a ligar quando o Pirão lembrou de contar que o Bruno havia falado que o nome do personagem fictício que tinha criado no seu livro era Chico.
– Por quê, perguntou de forma teatral, dando-se ares de Miss Marple.
– Por que – respondeu prontamente – Chico é o codinome de um poderoso chefão do narcotráfico, que domina a favela de um dos mais belos morros do Rio de Janeiro. Ficou a dúvida: estaria o Bruno, apesar de toda a ignorância do Pirão, contando no seu livro a história do verdadeiro Chico?
– Esse pessoal da pesada – continuou, depois de tomar um último gole do café, já frio – não brinca em serviço. Imediatamente foi feito contato com os chefes do crime organizado aqui de São Paulo, a maioria dos quais hospedada em prisões do Estado, e deram um jeito de roubar o computador do Bruno, com a história lá dentro.
– O computador foi passando de mão em mão, até chegar ao próprio Chico, o verdadeiro, lá no morro do Rio de Janeiro. Esse Chico é um criminoso singular, culto como ninguém, gosta de ler. Quando a polícia carioca conseguiu chegar ao seu esconderijo, encontrou várias estantes cheias ocupando boa parte do lugar.
– O Chico leu a história que o Bruno estava inventando, viu que não tinha nada a ver com a sua, verdadeira, e resolveu deixar para lá. Mas aí os especialistas do crime organizado, que ficam permanentemente vigiando na internet, descobriram as mensagens que o Bruno e o Rogério estavam distribuindo, para ver se pescavam alguma pista do computador. Os chefões resolveram entrar na brincadeira, para ver o que aquilo iria dar.
– Voilá, estes brésiliens avacalham até o crime organizado. Organizado…
Era Poirot, ainda indignado. Agora com o crime organizado carioca. Talvez o paulista fosse mais respeitável.
– Assim surgiu aquele misterioso JC. Não era John Constantine, o dos jogos e dos filmes, nem Juca Colosso, nem Jóquei Clube, como chegaram a pensar, quando as mensagens começaram a chegar do campus da USP, que fica ali pertinho. Eram apenas as duas letras que os traficantes usam para informar uns aos outros a chegada de uma nova remessa de drogas.
JC – já chegou.
– Pois o Chico, o verdadeiro, com toda sua cultura, achou a história que o Bruno estava escrevendo muito legal. Quando soube que ele tinha todos aqueles problemas para escrever, precisava ir no Acessa São Paulo, depois no Poupatempo, gastava o pouco dinheirinho que o pai podia lhe dar na lan house do shopping, não sobrava nada nem para pagar um sorvetinho para a Lucila, mandou devolver o aparelho. Que fez toda aquela viagem de volta, do Rio para São Paulo. Por isso demorou tanto, os criminosos não podem simplesmente pegar um avião da ponte aérea e sair pela rua com um computador.
– Infelizmente – começou a concluir Jean, vendo que a xícara estava vazia e não havia mais café no bule – não conseguimos prender o Chico. Prendemos o Coquinho, o Pirão não interessava. Mas o Chico conseguiu escapar, parece que foi para a Colômbia, não sei se vai agüentar, com todas aquelas delicadezas de homem culto. Lá a barra é pesada…
Holmes guardou o cachimbo, como se desinteressado do restante da história. Se é que haveria algum restante. E resmungou mais uma vez:
– Nessa história, todo mundo vai embora para o estrangeiro…
Poirot sorriu, ferino, e disparou a pergunta implacável:
– Pourquoi ninguém foi para aquela ilha do Canal da Mancha?
Ilha do Canal da Mancha? Essa, não. Foi a vez de Holmes ficar indignado, embora mantivesse a tradicional fleuma britânica. Pelo menos a aparência de calma. Por dentro estava fervendo.
– Ninguém? O que o Bruno poderia estudar in England? Por desleixo o governo brasileiro deixou acabar o Centro de Estudos de Cultura Portuguesa, de Oxford, negou um dinheirinho miserável para eles…
– O que o Bruno iria estudar in England? Repetiu.
E disparou, certeiro e mortal:
– Ele só sabe falar duas línguas secundárias, uma delas ainda bem pouquinho…
Mon dieu, desta vez o saxão foi longe demais. Secundária, a sagrada língua de Racine, Molière, Rousseau, Catherine Deneuve, Charles Aznavour…
Poirot soltou fogo pelas ventas. Por um momento, pareceu iminente o reinício da Guerra dos Cem Anos. As cinzas de Joana d’Arc juntaram-se outra vez, em Orleans, e os clarins soltaram seus trinados bélicos ao longe.
Felizmente, Magda trouxe um segundo bule de café e mais rosquinhas. Feliz com a estocada fatal que dera no inimigo incapaz de reação, Holmes acendeu o cachimbo outra vez e aceitou uma xícara com a respectiva rosquinha, conformado com a falta do xerez. Poirot ficou emburrado, no canto. Jean, depois de um novo cafezinho, como Holmes, e sem nada mais para contar, acendeu o cachimbo, outra vez como Holmes.
E o Juca? Ainda está no hospital? Tem esperanças de recuperação?
Jean, inexperiente nessas exibições de discurso final de história de detetive, tinha esquecido aquela parte. Tomou a palavra, outra vez, para finalizar:
– Quando falei com a mãe dele, lá no hospital de Curitiba, deixei com ela um cartão com o meu telefone e o telefone do Bruno. Ela ligou para mim, anteontem. O filho teve alta, foi para a casa dela, lá no interior do Rio Grande do Sul. Estava bem, mandava lembranças para o Bruno, pedia desculpas. Não queria mais saber de São Paulo.
– Um colosso – ela disse.
E completou, para fechar a história de uma vez:
– Parece que é coisa de família, isso de falar essa palavra a toda hora. Ou sotaque gaúcho, não sei direito.
20º BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DE SÃO PAULO
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