Conte a sua parte da história
16 - Pobres cartas de amor, ridículas
Os professores recrutados para analisar o material entregue para o concurso estavam encantados. Afinal, uma das coisas com que menos podiam se regozijar era com a escrita dos alunos. Na rede estadual vinham, cada vez mais, sentindo a dificuldade dos alunos em registrar suas idéias. Talvez, se fossem instituídos mais concursos como esse na rede, desde o ensino fundamental, os estudantes se sentissem motivados para ler e escrever. Para se tornarem autores.
Há pessoas que nascem com aquela vontade inexplicável de escrever e, para tanto, lêem tudo, conhecem autores, dialogam com os textos, imiscuem-se nas tramas. No entanto, escrever pode ser agradável e é altamente relevante para qualquer pessoa. Escrever, colocar as idéias no papel, fazer com que outros as conheçam, não depende apenas de talento, é algo possível de ser aprendido e lapidado, de acordo com a familiaridade que se tenha com os bons autores e com situações motivadoras que incitem o exercício da escrita.
Encarregados de encontrar os melhores textos entre as centenas de concorrentes, os professores empenharam-se no trabalho, garimparam as melhores idéias e as palavras mais bem colocadas. Às vezes, a idéia sobressaía e encantava, porém, para um concurso são necessários atendimento a critérios preestabelecidos e uso correto da língua. Outras vezes, a linguagem era ortográfica e gramaticalmente correta, mas a idéia era pobre. Um trabalho árduo esse; no entanto, encantador! Os professores vibravam…
* * *
Bruno precisava contar as novidades para Luci. De qualquer jeito, precisava falar com ela. Era urgente.
Luci também estava vibrando com as novidades. As suas novidades! Depois da Amazônia, o Japão e depois? Europa… Europa…
Dinamarca, país gelado, diferente, ia ver a neve, andar pra lá e pra cá de avião. Precisava contar para o namorado. Era urgente.
Claro que contou tudo primeiro, quando se encontrou com Bruno. Meninas são sempre mais tagarelas e prolixas. Nesse caso da Luci, tão tagarelas e prolixas que Bruno esqueceu momentaneamente o arquivo oculto e tudo mais, as suas novidades.
Dinamarca… a terra de Andersen!
– É, Luci – disse empolgado, como quem sonha – Hans Christian Andersen, meu escritor preferido na infância…
Pensou um segundo, emendou:
– Depois do Monteiro Lobato, claro. Eu adoro seus contos e histórias. Meus preferidos são O Patinho Feio, o primeiro que conheci, e O Soldadinho de Chumbo. E você, meu bem (olha o meu bem de novo), deve gostar de A Pequena Sereia.
Bruno não sabia se colocava um fim nessa história de roubo – a história real, pois a de seu livro já estava escrita no exemplar entregue para o concurso. Nem se contava ao Jean sobre o tal arquivo oculto que havia encontrado no computador. Ou então se envolvia mais ainda o Rogério na história para que ele procurasse outros possíveis arquivos ocultos. Novamente a cabeça de Bruno, com tantas idéias e tanto para amadurecer, estava confusa. O que fazer?
Jean não fazia contato já há alguns dias, ninguém sabia se ele realmente estava próximo de encontrar o ladrão ou se havia seguido pista falsa novamente. Tinha vontade de ligar para o investigador e descobrir, talvez fosse mais pela curiosidade de saber quem foi o ladrão do que pela vontade de fazer justiça.
Na noite anterior, pegara o telefone, decidido, mas não completou a ligação. Desistiu no quarto dígito…
– Não, acho que essa história já foi longe demais – pensou. E ficou lá, parado, com o telefone na mão, com o som de linha ocupada fazendo “tu, tu, tu” como um fundo musical para aquela cena. A cada segundo mudava de idéia, ora achando melhor acabar com tudo, ora tendo certeza de que era melhor ir até o fim. Era a indecisão em pessoa naquele momento.
Ouvira as histórias da Luci com um ouvido, mas a cabeça ainda rodava distante. Depois do comentário sobre o Andersen, baixou um silêncio pesado entre eles.
– Está vendo como estamos distantes, meu bem… começou a Luci, para animar a situação.
Quando ela disse aquele “meu bem” deu gelo no estômago de Bruno, daqueles quando, de surpresa, vemos a pessoa amada.
Ela continuou, cautelosa:
– Ouvi seus recados no celular, me desculpe por não retornar, mas é que esses dias todos foram uma correria total para mim.
– Nem tentei ligar mais vezes, Luci, porque, apesar da saudade, eu também estava numa correria com o livro. Liguei pra saber de você mesmo.
– Não estava agüentando mais ficar longe de você.
Bruno abriu um sorriso de orelha a orelha, orgulhoso pelo que ouvira, e retribuiu:
– Eu também estava morrendo de saudades…
– Vamos lá para casa, então, minha mãe fez aquela musse de maracujá com cobertura de suspiro que você adora.
Quando começaram a caminhar, de mãos dadas, tocou o celular do Bruno.
Era Jean. Finalmente.
– Oi Jean, tem novidades?
– Tenho sim, Bruno, mas temos que conversar pessoalmente. Pode ser agora?
Ele não podia furar com Luci, além de estar louco para conversar calmamente com ela, namorar, como poderia “descombinar” aquela ida à casa dela? Ainda mais com a musse esperando. Feita especialmente para ele.
– Hoje não posso, Jean.
– Nem à noite?
– É, à noite pode ser que dê. Que horas?
– Venha às 21h00 na delegacia, estou de plantão hoje.
– Tudo bem, combinado.
Mas Bruno disse a última palavra para um celular mudo, pois Jean, como sempre, desligou antes de despedir-se.
* * *
Feliz da vida, Rogério, assim como a mãe, queria dar a notícia, a ótima notícia, para Deus e o mundo. Decidiu ligar primeiro para Fernanda. Pegou o celular, procurou na agenda, Fabio, Fabíola, Felipe, Fernanda! Apertou o botão verde e esperou chamar. Enquanto o telefone se conectava para iniciar a chamada, Rogério refletiu, naqueles poucos segundos, sobre sua vida:
– Por que estou ligando primeiro para contar isso à Fernanda? Por que não ao Bruno, meu melhor amigo? Por que não à Luci?
Mas a reflexão não pôde chegar ao fim, Fernanda atendeu:
– Alô.
– Fê, tenho uma ótima notícia pra te dar e você é a primeira pessoa para quem estou ligando para contar.
– Que honra, Rogério… disse ela, surpresa e alegre. Na verdade, mais alegre do que surpresa.
– Sabe aquela fábrica de computadores, na qual fui fazer aquele teste para estágio?
– Não me diga que eles te chamaram?
– E para trabalhar na Amazon Books, nos Estados Unidos!
– Não acredito!
– Nem eu!
– Que legal, Rogério, tenho que te dar os parabéns pessoalmente, onde você está?
– Estou em casa, mas se quiser vou até aí.
– Então vem logo!
Rogério, esbaforido, não achava as chaves, queria sair voando para a casa da Fernanda.
Atitude própria dos apaixonados. Com uma diferença: Bruno e Luci já tinham consciência disso; ele e Fernanda ainda não… mas não ia demorar.
Enquanto corria, Rogério lembrou-se de contar para o amigo sobre a inesperada notícia.
– Alô, Bruno.
– Oi, Rogério, quanto tempo, hein!
– É, esses dias têm sido de correria. Mas liguei para você para lhe dar uma ótima notícia. Vou trabalhar nos Estados Unidos no fim do ano!
– Ah, não brinca. É sério mesmo?
– Sim, a fábrica de computadores me chamou para fazer estágio na Amazon Book, lá nos “Istêitis”, cara. Não é demais?
– Putz, que notícia ótima. Isso merece uma comemoração!
– Verdade, estou indo para a casa da Fernanda agora.
– Pra casa da Fernanda?
– É, ela quer me dar os parabéns pessoalmente.
– Hummmmm, disse Bruno, insinuando o que só o Rogério não queria ver.
– Não, Bruno, ela é só minha amiga.
– Sei. Amiga. Amicíssima.
– Sério.
– Eu estou a caminho da casa da Luci, vou ligar para ela e ver se podemos comemorar os quatro juntos então. Já te ligo.
E assim combinaram de comemorar na casa da Lucila, pois lá tinha o tal musse de maracujá com cobertura de suspiro, imperdível. Vinte minutos depois, estavam lá, os quatro, brindando suas recentes
conquistas com taças de musse. O livro de Bruno terminado, as viagens de Luci para o Japão e Dinamarca, o estágio do Rogério na Amazon e a ainda não declarada paixão de Fernanda por Rogério, e vice-versa.
Em apenas um olhar para Luci, Bruno deu sinal para deixarem Rogério e Fernanda a sós, para ver se saía algum coelho daquele mato.
Luci convidou todos para irem a seu quarto, ver as fotos da viagem para a Amazônia.
Ao chegarem no quarto, Luci agarrou Bruno e ficaram os dois se beijando. Rogério e Fernanda ficarem no sofá, sentados lado a lado. No começo, constrangidos. Sem jeito. Mas aquela situação era o que Fernanda estava esperando. A oportunidade. Quando Bruno e Luci se desgrudaram pouquinho, viram no outro sofá o mais novo casal se formando.
* * *
Sozinho, olhando para o daruma como um troféu, estava decidido. Não iria ao Japão. Por mais tentador que fosse o convite, para ele, mais importante que conhecer o berço de seu povo era manter seu juramento à esposa. Melhor que ter ido ao Japão foi ter trazido parte dele para o Brasil, ter compartilhado um pedacinho de sua experiência com toda uma escola, com jovens que levarão isso para a vida toda. Estava orgulhoso de si. Feliz por Lucila ter tido essa idéia. E mais feliz, ainda, pelo trabalho ter sido um sucesso tão grande.
Ir ao Japão já não era tão importante naquele momento. O daruma de sua vida já estava com os dois olhos pintados muito antes disso.
Mas não diria a decisão a ninguém ainda. A paciência oriental era sua prática incansável. Aguardaria até que Luci lhe perguntasse. Por enquanto, a decisão ficaria guardada apenas com ele.
Seu Nikito continuava, como se estivesse anestesiado, a olhar para o daruma, pensando na amada que se fora. Pensava nela como se redigisse uma carta de amor, talvez tão compenetrado como Fernando Pessoa, ou melhor, Álvaro de Campos, em Todas as Cartas de Amor são Ridículas:
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor
Se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
20º BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DE SÃO PAULO
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