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Conte a sua parte da história

15 - O arquivo oculto

 

Mesmo que Bruno quisesse falar com a Luci, ela nunca estava em casa. Nas poucas vezes em que ligou para o celular dela, só ouvia a mensagem eletrônica: “Oi, aqui é a Luci! Deixe seu recado, assim que arranjar um tempinho, te ligo de volta, tá?”.

 

Naquela tarde, Bruno havia deixado três recados e nada, será que ela nem mesmo teve tempo para ouvir as mensagens? Somente neste momento, o namorado se deu conta de que o tempo havia passado depressa, ele já lembrava com nostalgia os primeiros encontros, beijos, as primeiras descobertas do amor.

 

Mas não se deixou abater, no fundo, ele estava contente em ver Luci tão empenhada e decidida quanto ele, com seu livro, que por sinal estava quase pronto. Ela já não parecia mais a mesma!

 

Ou não? Pensando bem, ela era a mesma doce garota que ele tanto amava, mas, como ele, também passava por um processo de descobertas e amadurecimento.

 

O livro estava quase terminado e Bruno ainda não havia se decidido, final feliz ou infeliz? Afinal, aquela experiência não fora de toda ruim! Não mesmo! Foi essa rocambolesca aventura que o levou à certeza de que deveria seguir sua verdadeira vocação. É verdade, havia ainda muitas dificuldades a vencer, mas pelo menos o concurso seria uma prova decisiva para seu talento. Seria mesmo um escritor?

 

Não mirava nenhum prêmio, queria fazer parte do projeto, ficar mais experiente, amadurecer literariamente. Havia um grande e largo caminho aberto diante dele, uma infinidade de livros para serem lidos e apreciados.

 

Bruno não chegava a reconhecer isso, mas só o fato de alimentar essas preocupações, enquanto dava os últimos retoques em sua obra, já demonstrava que ele amadurecera, sim, muito, durante aqueles poucos meses de tanta agitação e corre-corre.

 

Naquela tarde Bruno estava mais filosófico que nunca, até se arriscou a compor uma poesia para mandar por e-mail para Luci:

 

“Nada me resta sem você,

tudo que virá depois,

fará parte de mim para sempre

mas não apagará nada,

porque

afinal, quem somos nós

senão o resto de nós mesmos?”

 

Bruno estava decidido, mandou a poesia por e-mail para Luci. E voltou à revisão de seu texto, queria que todas as palavras, frases e idéias estivessem em ordem, perfeitamente enunciadas. Queria ser o mais profissional possível, lia tudo atentamente, parágrafo por parágrafo, fazendo sempre mais alguns ajustes. Sobretudo, cortando os excessos! E se perguntando:

 

– Por que os escritores nunca estão satisfeitos com o seu texto?

 

E lembrou Balzac, de que tanto falava o professor Joaquim:

 

– Ele escrevia e reescrevia seus romances, cada vez que recebia uma nova prova da tipografia, mudava tudo, era um desespero para os editores. Se ele tivesse um computador, como eu, seria muito mais fácil…

 

E aí, de repente, uma idéia incrível lhe veio à cabeça: se é tão fácil deletar palavras, o contrário também é verdadeiro. Quando devolveram seu computador, não lhe ocorreu que alguém poderia ter colocado palavras nele também! Freneticamente, começou a abrir todas as suas pastas e documentos! Um a um, passou um tempão rastreando tudo que havia no notebook roubado e devolvido. Finalmente, lá no diretório Arquivos de programas\arquivos comuns, topou com a pasta oculta JC!

 

Tremeu dos pés à cabeça, o estomago deu um nó, uma sensação sufocante de surpresa e incredulidade tomou conta de sua mente e ele pensou em voz alta:

 

– Meu, isso é medonho!!!

 

Respirou fundo, clicou sobre o ícone, uma tela nova se abriu, um texto em PDF dizia :

 

“Estou do seu lado, garoto! Não tenha medo! Posso parecer o inimigo, mas na verdade sou seu aliado!

Conte esta história! Existem muitas histórias a serem contadas neste mundo, mas só um escritor como você poderá contá-la sem modificar os detalhes, com arte e sabedoria!

JC, Chico para os amigos”

 

Medonho? Nem tanto, parecia até simpático. Animador. Bruno decidiu na hora, sem hesitar:

 

– Final feliz, claro…

 

Mais uma vez a atuação de Luci deu o que falar: muitos admiravam sua súbita vontade de mudar o mundo, mas a turminha do contra não perdia a oportunidade de criticar:

 

– Até parece que um chiclete fora da lixeira pode se tornar problema ambiental…

 

A jovem foi se envolvendo cada vez mais com a ONG – parecia ter passado a vida toda lá. Participava ativamente de todos os eventos, campanhas, mobilizações, conhecia gente de toda parte, defendendo as mais diversas causas. Mergulhou de cabeça na polêmica sobre a Amazônia.

 

– Luci, essa sua brincadeira de ecologista está passando dos limites – resmungou dona Vilma no café da manhã, quando a filha falou sobre o convite que tinha recebido para conhecer a maior floresta do mundo. Igualzinho a Magda reclamando do Bruno com o computador.

 

– É um lugar muito perigoso, onde só tem bicho, índio, plantas desconhecidas, venenosas. Além do mais, foi lá que mataram a freira.

 

Luci não se deu por vencida: tinha recebido um convite de outra ONG, parceira da sua, para um grande evento que reuniria jovens de todo o País para lutar contra a retaliação da Amazônia, e não queria ficar de fora. O problema é que o encontro seria no Pará, a bola da vez em todos os noticiários, sempre com notícias ruins.

 

* * *

 

– Ela chegou bem, Vilma garantiu ao marido ao desligar o telefone.

 

– Agora é rezar para essa reunião acabar logo, sem ataques de índios e sem nenhuma morte.

 

O discurso dramático disfarçava a admiração que a mãe sentia pela filha. Pela nova filha. Mas ela ainda suspirava, de vez em quando: bem que Luci podia ser uma adolescente como as outras, ligada em moda, baladas, em crise com as espinhas e com o cabelo. Mas, não.

 

O evento no Pará reuniu jovens de diversas partes do País, com o objetivo de ampliar a mobilização contra o desmatamento. A ONG trabalhava com jovens de comunidades ribeirinhas, incentivando a sua participação nos debates sobre sua “casa”, a Amazônia.

 

Luci se encantou com o conhecimento que eles tinham sobre sua terra, meio ambiente, política. E como escreviam bem! Uma das atividades do encontro era a produção de um jornal, e a adolescente ficou de queixo caído com a facilidade com que os ribeirinhos compunham versos e paródias.

 

Ao contrário do que muitos, como a Vilma, ainda acham, a Amazônia não tem só bicho e planta, mas uma população cheia de histórias. Os caboclos, mistura de índio com branco, moram dentro da floresta, vivem do extrativismo e são os verdadeiros guardiões da floresta, pois estão lá todo o tempo e dependem dela para sobreviver. Pescam, fabricam artesanato, os jovens freqüentam escolas, têm produção de alta qualidade e são mais conscientes do que muitos da “cidade”.

 

* * *

 

Foram poucas horas, menos de dois dias, naquele mundaréu verde e calorento, mas Luci voltou para São Paulo transformada. Mal teve tempo de contar para Bruno tudo o que tinha visto. A mãe parecia mais conformada:

 

– Ainda bem que você só vai para o Japão quando chegarem as férias. Não deixaria você faltar na escola para passear.

 

A visita seria no comecinho de dezembro, sérios como eram, os japoneses, como a Vilma, não queriam interromper os estudos da jovem. Ela ficaria lá três semanas e voltaria a tempo de passar o Ano-Novo com a família.

 

Vilma sabia que sentiria saudades, mas suportaria – logo a filha estaria de volta.

 

Mas quando o telefone tocou e Luci deu um grito, depois de ouvir as primeiras palavras, o medo voltou. E não era para menos:

 

– Dina… Dinamarca?

 

* * *

 

Notícia boa corre rápido, ao contrário do que muitos pensam, e as ONGs formam uma espécie de rede, conhecem o trabalho umas das outras. Luci se destacava rapidamente pela militância engajada, e pareceu bastante natural que fosse indicada por unanimidade para participar de uma conferência da juventude na Europa: o evento pretendia reunir jovens do mundo todo para trocar experiências e fortalecer seu protagonismo diante das causas ambientais.

 

Luci já ia mesmo dar a volta ao mundo para chegar ao Japão. Natural que aproveitasse a passagem paga pelo rico governo japonês – é a segunda potência econômica do mundo –, pois ONGs não têm dinheiro sobrando: na viagem de volta ao Brasil, faria uma escala em Copenhague, a capital da tal Dinamarca que reacendeu os temores de Vilma. Ela não tinha intimidade com o Google, pegou então um velho atlas que a Luci usava na escola, para saber onde ficava o tal país.

 

Longe, descobriu. Muito longe. Pertinho do Pólo Norte. Gelado. Em dezembro então, deveria ser um horror.

Com um suspiro, foi ao armário das coisas fora de uso, em busca das esquecidas agulhas de tricô. Numa tarde qualquer iria à 25 de Março comprar uma montanha de novelos de lã. Até dezembro, imaginava, teria tempo de sobra para preparar agasalhos para a filha querida, agora fonte de tantas preocupações.

 

* * *

 

Quase no mesmo momento do telefonema da Dinamarca para a Luci, tocou o telefone na casa do Rogério. Foi a mãe, dona Ester, quem atendeu. E gritou:

 

– Rogério, é para você. Lá daquela fábrica de computadores…

 

Rogério deu um pulo da cadeira. Correu para o telefone, já sonhando:

 

– Será que houve uma repescagem e eu voltei para a primeira divisão?

 

Era quase isso. O gringo, quem diria, ficou encantado com aquela conversa alucinante com o Rogério. Uma torrente de idéias e sugestões originalíssimas. É disso, exatamente disso, que vive o mundo digital. O Google, por exemplo, essa potência, uma das mais valiosas empresas do mundo, nasceu do nada, de uma idéia maluca de dois garotos como o Rogério.

 

Alucinados.

 

A prova escrita demonstrava que o Rogério não sabia muito de informática, só o arroz com feijão necessário para navegar com competência pela internet e fuçar coisas mundo afora. Mas como sabia pensar… Pensar diferente, com ousadia, grande, imensamente grande. Grande como tudo que flutua no mundo virtual.

 

Pois não é que o gringo queria levá-lo para um estágio, não no Vale do Silício, onde apenas se fabricam chips cada vez menores e mais poderosos, mas na Amazon Books?

 

Nem o Rogério sabia direito o que é essa Amazon Books, a não ser que ela nada tem a ver com a Amazônia da Luci.

 

Correu ao Google para saber.

 

De saída, que era fruto de uma idéia maluca como as que ele tinha aos montes. Mas não era de garotos atrevidos, era de um competente freqüentador do centro financeiro mundial, Wall Street: em 1994, o americano Jeffrey Bezos deixou um valioso emprego ali, na afamada ponta sul da Ilha de Manhattan, e criou a que seria a primeira livraria virtual de relevância na internet. Ao contrário de muita gente por aí, ele acreditava que livros têm tudo a ver com o mundo virtual, poderiam ser uma rica fonte de negócios e de dinheiro para quem se atrevesse a encarar o desafio. Ele se atreveu, e não teve por que se arrepender de ter abandonado a intimidade com a dinheirama de Wall Street.

 

O capital para abrir o negócio veio, é claro, dos chamados investidores de risco, gente com dinheiro suficiente para fazer apostas em empreendimentos originais. Assim, Bezos tornou-se um pioneiro da chamada economia digital, criou um novo modelo de negócios, que dispensa lojas, vendedores e, virtude das virtudes no mundo empresarial, opera com estoques reduzidos.

 

Outras inovações da Amazon são a ligação direta com o consumidor, sem intermediários, e a capacidade de fidelizar o cliente, ao difundir o conceito de e-mail marketing, que oferece ao comprador de um livro um novo título que venha a ser lançado, do mesmo gênero ou do mesmo autor.

 

O gringo achava que Rogério, apesar da ignorância, mas com aquele inglês perfeito, para um jovem estrangeiro, tinha tudo a ver com o espírito reinante na Amazon Books. E queria levá-lo para lá. No começo de dezembro, claro, pois era preciso esperar o fim das aulas.

 

Quando Rogério conseguiu contar tudo isso para a mãe, ela imediatamente ligou para o marido para dar a grande nova.

 

Boa ou ruim? Não sabia, ainda. Depois começou a ligar para as amigas, uma a uma. Não tinha certeza, mas achava que estava orgulhosa. Quando contou a novidade para Vilma, aproveitou para combinar de irem juntas à 25 de Março. Nos Estados Unidos, ela sabia de tantos filmes vistos na televisão, também faz um frio de rachar em dezembro.

 

* * *

 

Bruno conseguiu aprontar as três cópias do texto do seu livro no último dia das inscrições para o concurso literário da fábrica de computadores. Não tinha grandes esperanças, havia visto nos sites dos jornais notícias sobre ele, e sabia que não seria uma brincadeirinha como o concurso do jornal, em que ganhara o computador.

 

Como os prêmios eram valiosos, esperavam-se centenas de competidores. Seria preciso muita gente para ler aquilo tudo e fazer a seleção. Foram recrutados, então, sessenta professores de Literatura das escolas de ensino médio do Estado, para compor a linha de frente dessa estrutura. Seu Joaquim estava entre eles.

 

Os professores fariam duas leituras e reduziriam aquela prevista imensidão de livros a apenas sete. Então um júri muito especial escolheria desse conjunto os três a serem premiados. Era formado por uma professora de Literatura da Universidade de São Paulo, aposentada, e, portanto, com tempo livre para enfrentar essa parada; e um professor da Unicamp.

 

Claro, a empresa estava gastando uma boa grana com o concurso e queria tirar dele algum benefício para a sua imagem pública. O marqueteiro estava lá para fazer com que o resultado fosse o mais rendoso possível.

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