Conte a sua parte da história
14 - Das novelas para a salvação do mundo
Emília sorria com os olhos apertadinhos, enquanto conversava com Lucila, na porta da casa.
– E tem algo mais que preciso lhe dizer: vá ao Japão, dê andamento a esse projeto tão relevante. Com certeza será um sucesso! No entanto, sinto no fundo da alma que não deve esperar levar consigo o meu avô. Quase centenário, ele parece bem e poderia viver ainda algum tempo, mas a promessa feita à esposa é muito importante. Na cultura japonesa, os compromissos assumidos com os entes queridos, com a família e os amigos próximos, beiram ao juramento mais solene. Quando o caso é de jura, então… nem se fala. Ele está sentindo que deve ir, não ao Japão, mas ao encontro da companheira. Sente que ela o espera, orgulhosa de seus feitos.
Essa conversa fez Lucila viajar, quando deveria estar prestando atenção às aulas. Passou horas e horas pensando em como seria uma visita ao Japão. Ao Japão!!! Do outro lado do mundo. Um mundo habitado por pessoas gentis como o seu Nikito, pensava ela, no seu quase delírio. Quem poderia imaginar uma coisa dessas? Há apenas três meses sua vida era aquela mansidão, uma tranqüilidade sufocante – de casa para a escola, da escola para casa, as novelas na televisão, à noite, no fim de semana um encontro furtivo com o Bruno. O que não era um dever, era um hábito imitado das amigas, dos adultos, das outras pessoas. Tudo limitado. Limitadíssimo.
E de repente, lá está ela, responsável por um blog que virou quase o órgão oficial da escola, onde todo mundo posta, íntima dos segredos da internet, esse universo maravilhoso onde é possível encontrar rigorosamente tudo. Responsável pela criação de um acordo de cooperação entre escolas de dois mundos tão diferentes quanto Brasil e Japão. E recém-convertida militante das causas ecológicas. Lucila estava numa surpreendente fase de aprendizado rápido e envolvimento instantâneo. Aquela já longínqua palestra do engenheiro, por exemplo…
Visitando os sites cujos endereços ele lhe dera, ficara sabendo muito daqueles enormes problemas ambientais citados na palestra. Mais importante: ficara conhecendo muitas pessoas, no mundo todo, que de uma forma ou de outra estavam empenhadas nessa batalha gigantesca que, bem colocadas as coisas, pode ser resumida em três palavras: salvar o mundo. Alguns em casa, outros em ações individuais, economizando água, deixando o carro na garagem e andando de metrô.
A imensa maioria, reunidas em organizações variadas, que no Brasil chamamos ONGs, organizações não-governamentais, algumas gigantescas, ramificadas pelo mundo todo, outras pequeninas, limitadas a uma cidade, um bairro, até a um quarteirão. Mas todas ousadas, atrevidas, irreverentes, prontas a chocar as pessoas desinteressadas, mostrando-lhes descaradamente como a sua indiferença contribuía para a ruína do nosso planeta, tanto quanto a fumaça preta das chaminés das fábricas antediluvianas que ainda existem, ou os automóveis, os caminhões, os ônibus fumacentos.
Estava se comunicando com um pessoal de uma delas, da Dinamarca, preocupado com a nossa Amazônia, a derrubada das árvores, quase todos os dias noticiada nos jornais e na televisão, ameaçando criar um deserto onde hoje há um paraíso. Decidida, Lucila mergulhava de cabeça nesse novo universo. Que também lhe fora revelado pela internet.
Era ela, sim, Lucila. A Luci do Bruno. Quem diria…
Estava louca para falar com o Bruno, e justo nesse momento percebeu que não tinha contado ainda nada de toda esta história para o namorado!
Correu à casa dele, ansiosa para contar as novidades, mas encontrou-o mergulhado no novo livro, agora com duas histórias paralelas, cheias de detalhes, minúcias, prazo curtíssimo para terminar. Exigia concentração.
Não quis interrompê-lo, correu para a casa do Rogério, que estava muito ocupado com a prova que faria para tentar o estágio na fábrica de computadores. Também não quis interrompê-lo.
Cada um estava no seu mundo. Nos últimos dias, aqueles mundos estiveram tão juntos, próximos, ligados, e agora, repentinamente, começavam a se afastar.
Era surpreendente. Na vida das pessoas, pelo menos das pessoas que não se deixam prender pela rotina, aquelas que são como o Noronha que escalou as montanhas americanas em busca de uma realização só sua, original, na vida dessas pessoas constantemente os mundos se juntam e se afastam, dependendo das situações, das descobertas, das coisas novas aprendidas. Lucila percebeu isso de repente, e voltou para casa feliz com o novo descobrimento. Era fascinante viver essa nova vida, com tantas coisas fantásticas que passaram a acontecer assim, de repente.
* * *
O sucesso do blog na escola já era tão grande que Luci não dava mais conta de administrar tantos posts e comentários. E-mails de alunos e professores com conteúdos de qualidade abarrotavam a sua caixa postal, e, embora encantada com a nova ferramenta de comunicação, a jovem fincava o pé: queria tempo para estudar, conversar com as amigas e, principalmente, namorar.
Foi até o quarto e pegou o caderno colorido recheado de anotações, recortes, pétalas de flores secas, ingressos de cinema, fotos, convites para aniversários. Tudo o que tinha importância estava registrado ali. Recostou-se no travesseiro, folheando as páginas da curta autobiografia. A sua vida tinha dado um salto. Aquilo tudo, de repente, pareceu coisa… de criança.
O toque do celular interrompeu seus pensamentos.
– Luci, hoje é dia do Rio Tietê! Era Tita, a amiga que não deixava ninguém jogar papel no chão, desperdiçar água e esquecer lâmpadas acesas. Na escola, ganhou o apelido de “ecochata”.
– E desde quando rio tem data para comemorar? Lucila, inexperiente em lutas ecológicas, perguntou.
Tita estava elétrica.
– Vai ter passeata, oficina de reciclagem e até show de música no Parque do Tietê, vamos!
Duas horas depois, as duas amigas chegavam ao Parque Ecológico do Tietê. A movimentação era grande – crianças, adultos, adolescentes superanimados. Luci se surpreendeu, esperava um blablablá e até politicagem, já que era ano de eleição, o que via era muita agitação.
Um grupo de jovens, cercado por público atento, mostrava tubos de ensaio cheios de água de diversas tonalidades e explicava de que trechos do Rio Tietê haviam sido retirados.
– Não dá para acreditar que esse rio seja limpo em algum lugar, pensou.
Mas é. Os jovens explicavam que a água saía purinha da nascente, no município de Salesópolis. Quando atravessa a cidade de São Paulo, recebe todo tipo de sujeira, lixo, esgoto. Fica com um aspecto de chorar e cheiro de torcer o nariz. Ainda tem gente que acha que rio é lugar de jogar tudo o que não serve mais, e depois não entende como acontecem as enchentes.
Quando o Tietê segue para o interior do Estado, a qualidade da água melhora um pouquinho, uma dessas mágicas da natureza. Lá perto do Rio Paraná, onde desemboca, dá até para pescar.
Aquela moçada toda – grupos de estudantes, escoteiros, associações comunitárias – monitora a qualidade da água por meio de kits distribuídos por uma ONG. São verdadeiras aulas de educação ambiental e cidadania, com lições de Química, Biologia, Geografia. Os grupos de voluntários trocam informações pela internet e lançam os dados em relatórios – uma das ferramentas que a ONG tem para cobrar providências do poder público. A outra estava à sua frente: milhares de pessoas lutando por um rio mais limpo e uma cidade mais saudável.
– Vai ter um concurso de vídeos feitos pelo celular – Tita continuava elétrica.
– O melhor trabalho será exibido em todos os eventos da ONG, com a presença do autor, que se torna voluntário na campanha pela despoluição do rio!
Luci voltou para casa e foi direto ao computador do irmão. Abriu o Google, digitou “Rio Tietê” e se surpreendeu com a quantidade de tópicos relacionados.
Tita não continha a empolgação:
– Podemos mostrar a população jogando lixo na rua, os bueiros entupidos…
Mas a idéia de Luci era outra. Achava que o mundo já tinha notícias ruins demais, o que deixava as pessoas anestesiadas, nem prestavam mais atenção. Se o vídeo mostrasse como seria bom ter um rio para passear, nadar, brincar, talvez as pessoas se sensibilizassem.
Em poucos dias, o roteiro estava pronto: o Rio Tietê aparecia limpo, de uma hora para outra. Ninguém entendia como aquilo tinha acontecido – nem o que fazer com uma opção de lazer tão legal – e saíam em busca do “culpado”, que era um cientista bem velhinho, que passou a vida fazendo experimentos para melhorar a qualidade de vida da população.
* * *
A votação para a escolha do vídeo vencedor aconteceu em duas partes: primeiro, pela internet. Depois, os dez “mais” foram exibidos para uma comissão formada por ambientalistas, cineastas, professores.
Os internautas só podiam votar uma vez. As adolescentes capricharam na divulgação, e com aquela força do blog – também por merecimento, claro –, o vídeo foi para a final. Para Tita, que sonhava em ser cineasta, artista, jornalista, publicitária ou… O que mais, mesmo? O auditório cheio parecia coisa de Oscar.
Luci permitiu-se ficar nervosa, mesmo convencida de que a sua idéia era muito boa. Bruno gostou do charminho.
– É coisa de mulher, constatou para Rogério. Estava mais sensível às sutilezas do universo feminino. Para um escritor, isso era fundamental.
Lá pela terceira exibição, o clima pesou no auditório. Eram visíveis o desconforto e o desinteresse da platéia e do júri: os vídeos beiravam o drama, mostrando um rio agonizante. Pior: a saída parecia estar apenas nas mãos do poder público, do governo, quando, na verdade, todos davam a sua contribuição pessoal na poluição.
Quando a telona mostrou a primeira imagem do vídeo de Luci e Tita, o silêncio deu lugar a um burburinho. Em seguida, a risadas. Logo depois, a gargalhadas.
Luci se lembrava da euforia no dia da grande final enquanto se preparava para conversar sobre a importância de (boas) ações individuais com os alunos de uma escola estadual. O vídeo delas ganhou por unanimidade, e tornou-se um verdadeiro cult. Era o mais acessado na internet e virou ferramenta de mobilização em tudo que era lugar: escolas, clubes, empresas… A jovem se esforçava para dividir o tempo entre as aulas, o namorado, as amigas e o estágio que ganhou na ONG.
Estava aprendendo muito. Sempre que possível – e ela dava jeito pra ser sempre mesmo – acompanhava os ambientalistas nas palestras. Era divertido: num dia, falavam para crianças. Em outro, para homens engravatados de uma indústria importante. Teve até palestra para um grupo GLS, que achou Luci “uma gracinha de ecologista”.
Coisa raríssima.
A proposta era simples: reciclar o lixo, substituir as sacolas plásticas pelas de tecido – muito mais charmosas, por sinal –, evitar o desperdício de água e aderir ao consumo consciente, comprando só o necessário e sempre de empresas que se preocupam com o meio ambiente. A presença da jovem dava mais credibilidade ao discurso, leve e divertido.
A ONG gostou tanto do vídeo que abriu uma vaga de estágio para Tita, que ajudava na criação de eventos e mobilização de novos voluntários.
* * *
Rogério foi mal no teste escrito para a vaga de estagiário.
Mal? Põe mal nisso. Não acertou uma, pelo menos ele achava que não acertara uma. Assim, quando chegou a sua hora para a entrevista individual com o gringo americano, que só falava inglês – fazia parte do teste essa conversa em inglês, quem não fosse capaz não tinha chance, mesmo que tivesse acertado tudo na prova escrita –, pois então, o Rogério foi tão mal que decidiu desbundar na hora da entrevista. Em inglês, claro, pro cara entender –, ou não entender, sabe-se lá.
Respondeu tudo de bate-pronto, com as idéias mais loucas que lhe chegavam à cabeça. E foi se entusiasmando com a diálogo, o gringo aproveitava as deixas dele e perguntava no mesmo nível. Foi mais de uma hora de papo extremamente confuso, para quem não está por dentro dos segredos do mundo digital. Não era o caso deles dois.
Do gringo, sobretudo.
Por causa disso, foi um Rogério exausto que deixou a sede da fábrica de computadores, naquele final de tarde. Exausto e abatido. Consciente do fracasso. Nunca iria estagiar no Vale do Silício, lá em São Francisco, cidade maravilhosa, nem parece americana, onde se comem caranguejos gigantescos (king crabs), esses mesmos que são exibidos diariamente no Discovery Channel, no programa Deadliest catch (Pesca mortal, em português) em intermináveis e repetitivas pescarias em alto-mar, a uma temperatura baixíssima e enorme desconforto para os pescadores. Que parecem felizes por ganharem assim seu rico dinheirinho.
* * *
Bruno, ao contrário, também estava exausto, mas animadíssimo. O livro chegava aos finalmente, ele tinha lido e relido tudo várias vezes, achava que estava ótimo. Faltava agora um final feliz para ele. Uma dúvida atroz: mandaria os ladrões para a cadeia, fiel à regra de que o mal precisa ser castigado, ou deixaria que saíssem por aí, afinal haviam devolvido o computador, quase pediram desculpas, não mandavam mais mensagens sibilinas e ameaçadoras, parecia até que torciam por ele no concurso que se aproximava rapidamente.
Rapidamente. E ele sem um final, feliz ou infeliz.
E aí ocorreu-lhe uma coisa em que não havia reparado: onde andava a Luci? Tempão já que não se viam, a culpa era dele, claro, estava sempre ocupado, escrevendo, escrevendo, quando não estava escrevendo estava pensando, ela passava na casa dele todo dia, mas mal trocavam um alô e um beijinho desinteressado.
Pois agora percebia que nos últimos dias… semanas? … nem isso.
Onde andava a Luci?
Telefonou para a casa dela, foi a mãe, dona Vilma, quem atendeu.
– Onde anda a Luci? E eu sei? Quando não está na escola está por aí com esta meninada esquisita, Rio Tietê pra lá e pra cá, poluição, quer brigar com todo mundo, os donos das fábricas, o governo… Me contaram que ela fez um vídeo que foi premiado, mas nós aqui em casa não vimos nada. Acho que é porque a gente economiza água, economiza eletricidade, não anda de carro por aí… Pra fazer economia, né? Não precisamos ser esclarecidos, como ela fala toda hora.
20º BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DE SÃO PAULO
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