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Conte a sua parte da história

13 - Dois olhos de uma vez

 

 

“No Japão, a época foi caracterizada por fatores como a crise econômica, alto índice demográfico, grande contingente de mão-de-obra, desemprego e busca por melhores condições de vida. Já no Brasil, ao contrário, havia necessidade de força de trabalho nas plantações de café, principalmente em São Paulo, que se destacava cada vez mais no mercado internacional. Isso foi o impulso para o estabelecimento de conversações entre os governos dos dois países, que levaram a acordos de imigração. Graças a isso, em junho de 1908, o navio Kasato Maru atracou no porto de Santos trazendo 165 famílias, quase todas de camponeses pobres. Começava ali o longo processo de integração entre Brasil e Japão.

 

O Brasil foi um dos poucos países a receber os imigrantes japoneses, que ansiavam por uma vida próspera e rica para poderem, no futuro, voltar ao país de origem. Porém, o enriquecimento não foi tão rápido assim, nem para todos, principalmente porque chegavam mais e mais imigrantes, de outros países, que aqui competiam pelo trabalho com os japoneses. A Primeira Guerra Mundial (1914-1918), travada na Europa, com uma enorme mortandade de homens jovens, e pelo descontrole econômico de países como a França, a Alemanha e a Itália, foi responsável pela vinda da grande maioria deles.

 

Com o fim do conflito, o índice de desemprego no Japão subiu consideravelmente, fazendo com que o governo incentivasse a imigração, a fim de melhorar a vida de seu povo e ao mesmo tempo propagar a cultura japonesa pelo mundo, principalmente nas Américas.

 

A partir da década de 1960, o cenário social, político e econômico em ambos os países mudou consideravelmente. O Japão se reergueu após tanto sofrimento e devastação e se tornou uma potência, tornando-se a segunda maior economia mundial. A partir daí, um fenômeno curioso começou a se formar. O processo de imigração começou a se inverter: na década de 1980, a situação econômica desfavorável no Brasil fez com que muitos descendentes dos antigos imigrantes buscassem oportunidades do outro lado do mundo.

 

Eram os chamados dekasseguis. O contingente de brasileiros que se instalaram nas ilhas nipônicas chega a mais de 300 mil pessoas, entre dekasseguis e seus familiares. E ao contrário do Brasil, que concentra a maior comunidade japonesa fora do país de origem – que tem o bairro da Liberdade, na cidade de São Paulo, como seu núcleo mais significativo –, a comunidade brasileira no Japão é a terceira maior de imigrantes lá radicados.”

 

Começava assim a introdução do trabalho de Lucila. Ela escreveu sem parar, após reunir material suficiente para entregar um excelente trabalho e, conseqüentemente, ganhar o daruma. Mal conseguiu dormir de tanta ansiedade.

 

* * *

 

No dia seguinte, Lucila chegou séria ao colégio e estava nervosa, não mais por ela, mas por seu Nikito. A essa altura, ela não se preocupava tanto em apresentar o melhor trabalho, pois, mesmo querendo muito o daruma como prêmio, sentia-se responsável por seu convidado, que era mais que um pequenino senhor com idade avançada e saúde delicadamente debilitada; ele era a personificação da história de um dos mais importantes contingentes de estrangeiros que venceram no Brasil.

 

Seu Nikito faz parte da primeira geração de nikkeis (descendentes japoneses) estabelecidos no Brasil, os isseis, e formou uma família imensa. Sua bisneta, Emília Shizuka, uma adolescente de doze anos, faz parte da quinta geração – gosei – e gostava muito das histórias que seu Nikito contava.

 

Quando soube da participação dele no trabalho de Lucila, ela pediu para acompanhar o bisavô. Emília tinha um tremendo orgulho da família, e devotava a seu Nikito uma admiração sem igual, por tudo que ele lutou para conseguir e por amar a vida, acima de tudo, além de sempre ter sido companheiro zeloso com tudo e todos.

 

A diretora da escola era fascinada pela cultura nipônica, dos costumes à gastronomia, não se opôs à visita de seu Nikito, como Lucila temia que acontecesse. Ao contrário, fez questão de recebê-lo pessoalmente e conduzi-lo até a sala. Mesmo sabendo que receberiam aquela visita – o blog mantinha todos informados sobre tudo, na escola –, todos os alunos, sem exceção, ficaram estáticos ao ver aquele mirrado senhor entrar pela porta a passos lentos, porém firmes e decididos.

Com os olhos apertados e o riso solto no rosto, seu Nikito sentou-se na cadeira estrategicamente posicionada no centro de um círculo que Lucila, no dia anterior, havia formado com as carteiras, para facilitar a visão de todos.

 

Ele recebeu o microfone das mãos da professora Tieko, e prontamente pôs-se a falar com desembaraço, mas lentamente. Lembrou sua juventude nas fazendas de café no interior do Paraná, onde passou a infância e cresceu vendo os pais competirem nos improvisados festivais de música japonesa, promovidos na cidade onde moravam, Assaí. Foi lá que ele tomou gosto pela música e também competia, conseguindo conquistar muitos prêmios, até mesmo o do Kaikan Três Barras, salão onde se reuniam os imigrantes da  região. O momento nostálgico o impulsionou a falar com segurança:

 

“Meu nome é Nikito Shimizu, e vou contar para vocês um pouco do meu Japão, o Japão que eu construí aqui no Brasil”, começou, pausadamente.

 

– Mas ele não fala enrolado igual ao seu Tetsuo, o dono da pastelaria perto da minha casa – exclamou – quem poderia ser, senão a Cecília?

 

A sala toda resolveu concordar com a colega e a lançar palpites sobre outros conhecidos que bagunçavam a pronúncia com o sotaque japonês, mas prontamente foram interrompidos pela professora Tieko, que já havia conversado com Lucila sobre o convidado:

 

– Apesar de ter nascido no Brasil, os pais do senhor Nikito, três irmãos e dois tios, que também vieram no navio Kasato Maru, falavam somente o japonês – isso sem contar com outras famílias que também se agarravam à língua como se trouxessem um pedaço do país de origem –, e ele cresceu ouvindo palavras que, à época, eram estranhas aos brasileiros.

 

E em tom mais ríspido, completou:

 

– Mas nem por isso eles deixaram de aprender a nossa língua, porque precisavam dela para sobreviver, assim como meus pais, que também sofreram por ter de deixar a terra amada e recomeçar do zero sem ter ao menos como se comunicar. Mostrem mais respeito! – completou a professora, que deixara de ser risonha naquele momento.

Os alunos arregalaram os olhos e não abriram a boca para contra-argumentar. Seu Nikito quebrou o silêncio:

 

– Não se preocupe, Tieko-san, eles são jovens, e jovens acabam falando sem pensar. Eu me especializei em língua portuguesa, tenho muito amor por esta língua tão rica e bela.

Assim, bem-humorado, prosseguiu com a história:

 

– Faz quase cem anos que o navio Kasato Maru trouxe as 165 famílias ao Brasil, e a minha estava entre elas. Não pude me despedir dos familiares que lá ficaram, e sequer pude pisar os pés naquela terra tão sofrida que deixamos para trás. Nasci no Brasil, há 99 anos, e nunca pude retornar.

 

Cresci no interior do Paraná, e cedo comecei a trabalhar nas lavouras de café com meus pais e irmãos. Recordo-me que não tínhamos muito para comer, e muitas vezes precisávamos dividir um pedaço de pão e um copo-d’água que o senhorio nos oferecia em um dia de trabalho. Nunca me esqueci do dia em que o senhor José, dono da fazenda, humilhou meu pai diante dos outros japoneses e da família toda, tratando-o pior do que a um animal só porque ele havia parado para descansar as pernas já desgastadas de tanto trabalho. Naquele dia, ele não retrucou e sequer derramou uma lágrima. À noite, ele reuniu a família para conversar, orou, pediu por proteção e força e nos disse: “Isso nunca vai acontecer com vocês, prometo”.

 

E, de fato, foi assim. Meu pai sabia que não teria como voltar ao Japão, mas trabalhando muito conseguiu que as oportunidades aparecessem. Nós nos habituamos aos costumes do Brasil – preservando alguns dos nossos –, a economia cresceu e pudemos comprar nosso primeiro pedaço de terra. Meu pai se esforçava em nos garantir uma vida melhor, e minha mãe pedia que nunca nos esquecêssemos de onde os antepassados tinham vindo.

 

Mesmo com atraso, meus irmãos e eu entramos no colégio, estudamos, e seguimos para a faculdade, já na cidade grande. Mas antes, no interior do Paraná, em Assaí, conheci minha esposa, Yoshiko. Apaixonamo-nos e construímos uma família linda, forte e estruturada pelo amor. Ela sempre foi meu alicerce, meu chão, mesmo na velhice, já vítima do mal de Alzheimer, doença que acabou levando ela de nós no ano passado.

 

Seu Nikito não conteve as lágrimas. Para ele, ainda era recente a perda da mulher que o acompanhou por mais de 65 anos. Falou um pouco mais sobre Yoshiko, como se conheceram e o quanto suas histórias eram parecidas. Ela era dez anos mais nova do que ele, e seus pais, também imigrantes, coincidentemente, vieram no mesmo navio que atracou em Santos, em 1908. Ele falou de seus netos, que foram morar no Japão, em busca de trabalho, os chamados dekasseguis.

 

Ricardo, o mais apegado ao avô, se propôs a pagar a passagem para que ele fosse conhecer a sua terra, mas seu Nikito havia prometido que só iria ao Japão com a esposa, e a promessa nunca pôde ser cumprida.

 

Ao final da aula, que ultrapassou o horário regular sem que ninguém percebesse, até mesmo os mais apressados, a comoção era generalizada. Lucila, ainda com alguns resquícios da TPM, se debulhou em lágrimas. A professora Tieko se identificou com a história e sugeriu reportar o testemunho de seu Nikito ao Museu Histórico da Imigração Japonesa, no bairro da Liberdade, juntamente com o trabalho escrito entregue por Lucila.

 

– Definitivamente, este daruma é seu, Lucila. Obrigada por nos dar a oportunidade de ouvir a história de seu Nikito.

 

– Muito merecido mesmo, interveio seu Nikito, e completou: E sou eu quem deve agradecer a todos vocês.

 

* * *

 

No trajeto de volta para casa, Lucila e seu Nikito não trocaram uma palavra sequer, já que o sorriso claramente estampado no rosto dos dois e a cumplicidade que ambos trocaram nessa experiência pareciam falar por si só. Ao chegar à casa de seu Nikito, logo na porta, Lucila agradeceu novamente e lhe estendeu o daruma, colocando-o em suas mãos.

 

– Isto pertence ao senhor – ela disse, emocionada.

 

Seu Nikito apenas acenou com a cabeça e se esforçou em fazer o movimento de gratidão típico dos japoneses, mal conseguindo curvar-se, mas Lucila logo entendeu. Sorriu para ele, arriscou um “arigatô” – agora era ela quem misturava os sotaques – e foi embora satisfeita, não somente com o trabalho vitorioso, mas também porque sentia que o relato fora importante para todos, principalmente para seu vizinho.

 

Ao fechar a porta, seu Nikito logo foi se deitar, pois a ida à escola e as emoções que resgatou deixaram-no cansado. Mas, antes, ele caminhou vagarosamente pelo corredor e foi direto à cômoda da sala, abriu a primeira gaveta e pegou uma caneta preta. Com os próprios olhos marejados, o velhinho pintou os dois olhos do daruma e falou em japonês, como se se justificasse por ter pintado os dois olhos do boneco, um para o pedido e outro para agradecer pelo desejo atendido, de uma vez só: watashi no yume wa hontou ni natta (meu sonho se realizou). Tomou seu chá rotineiro e fez uma oração à esposa Yoshiko, quase como se cochichasse em seu ouvido:

 

– Vivi a história e sobrevivi para contá-la.

 

 * * *

 

Bruno continuava escrevendo freneticamente. Tinha medo de perder o prazo de entrega do livro para o concurso. Num rápido telefonema, pediu a Rogério para entrar no site da fábrica de computadores e ler com atenção o regulamento. Rogério fez isso, distraidamente, estava pensando na amiga (amiga?) Fernanda e na mãe dela.

 

Depois foi passeando vagarosamente pelo site, leu a história da empresa, conheceu os nomes dos diretores e distraidamente clicou um ícone identificado como Oportunidades. Leu o que estava lá e ficou eletrizado: ofereciam vagas de estágio para jovens estudantes que tivessem experiência com computadores.

 

Logo bateu-lhe na cabeça aquela conversa com a mãe de Fernanda sobre futuro, a importância de se trabalhar com aquilo de que se gosta, e foi em frente: consultou a lista de requisitos para que pudesse se candidatar a uma vaga. Basicamente, era o que ele já tinha – experiência com computador. Mas exigia-se que fosse um conhecimento sistematizado, obtido em cursos e treinamentos, e não brincando em casa por conta própria. Rogério era bom de computador, mas era um autodidata.

 

Hesitou bastante, roeu as unhas, levantou-se da cadeira, deu várias voltas pela sala. Pensou em consultar os amigos, não adiantaria, estavam ambos enfurnados, cada um no seu trabalho, ninguém estava mais se preocupando com os problemas dos outros. Decidiu sozinho: abriu a ficha de inscrição e anotou todos os seus dados.

 

– Não tenho nada a perder – falou para ele mesmo, ao terminar.

 

– Não tem nem taxa de inscrição para pagar – consolou-se.

 

* * *

 

Depois que o trabalho de Lucila chegou ao Museu da Imigração Japonesa, para onde fora enviado pela professora Tieko, o sucesso da exposição de seu Nikito surpreendeu a comunidade, que de repente começou a se animar com a perspectiva das comemorações do centenário da imigração, dali a dois anos.

 

No consulado do Japão em São Paulo, o funcionário encarregado com tanta antecedência de planejar os eventos a serem realizados, Akio Kubota, teve um despertar súbito. Ele ainda não sabia o que fazer, o que propor, divagava muito, mas não conseguia se concentrar em nada.

 

Ao saber da apresentação de Lucila, e do sucesso que fizera, tanto com a população brasileira quanto com a dos descendentes de japoneses residentes no Brasil, imaginou um programa de dois anos, que envolvesse as escolas e os estudantes brasileiros, em estudos e trabalhos extracurriculares sobre o Japão e os japoneses que vieram para o Brasil. Era uma empreitada difícil: teria de convencer o cônsul, que teria de convencer o embaixador, em Brasília, que teria de convencer o Ministério, no Japão.

 

Imaginou que o caminho seria trilhado mais facilmente se partisse de um acontecimento, um fato que mostrasse, por si só, o alcance do programa que estava imaginando. Poderia, no caso, usar parte da verba de que dispunha para levar o velhinho e a estudante que o convidara para uma visita ao Japão, onde participariam do maior número possível de eventos com escolares daquele país. Sua idéia era estabelecer uma programação de festejos que envolvesse as escolas japonesas e brasileiras, o que daria ao seu projeto um sempre desejado caráter cultural.

 

A burocracia japonesa é lenta, mas Akio, valendo-se sabe-se lá de que recursos, conseguiu autorização para dar os primeiros passos para a concretização daquele projeto ainda mal esboçado. Duas semanas depois, um carro com placas de serviço consular, estacionou em frente às casas de Lucila e de seu Nikito – e o convite a ambos, para a visita ao Japão, antes do final do ano, foi apresentado. Dependeria da aceitação deles uma posterior oficialização do ato.

Lucila, claro, deu pulos de alegria. Seu Nikito manteve a fleuma oriental, sorriu docemente, não disse sim, nem não – mas estava ainda apegado à promessa feita à mulher, que já não poderia ser cumprida.

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