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12 - Onde é que há gente no mundo?

 

Bruno havia esquecido de contar a Jean o reaparecimento do computador. Quando se lembrou, foi logo ligando para lhe dar a boa notícia. Havia esquecido, também, que Jean tinha voltado a Curitiba para interrogar Juca Colosso. Mas para quê, o amigo (que bom poder chamá-lo amigo novamente) Juca não poderia ser o ladrão, pois o larápio estava solto, se não, não teria devolvido o computador. Tanto empenho de Jean, seguindo a pista errada…

– Alô, Jean! Está em Curitiba?
– Não, Bruno, estou na delegacia, aqui em São Paulo.
– Preciso te contar uma novidade.
– Sobre o reaparecimento do computador?
– Como você sabe?
– Estive em Curitiba novamente, interroguei o Juca, mas nunca deixei de investigar as outras possibilidades. Vi de cara que o Juca nada tinha a ver com o seu caso. Mas outras linhas de investigação renderam bons frutos e estamos quase descobrindo a identidade do ladrão.
– Como assim “quase”?
– Bruno, não posso dizer mais nada para não atrapalhar as investigações. Não conte a ninguém essas coisas que estou falando, nem a seus pais, nem a seus amigos. Apenas que estive em Curitiba, interroguei o Juca, ele está bem e é inocente nessa história. Mais nada.
– Tudo bem, mas você está me deixando ainda mais curioso.
– Mais nada, Bruno. Entendido?
– Entendido. Tudo bem, já disse.
– Mais nada e a ninguém. Ninguém.

Jean desligou, como de costume, seco, sem despedir-se.
Bruno ficou ali, parado, segurando o telefone ainda no ouvido, pensando nas possibilidades e nos novos rumos que a história tomara. Será que Jean havia obtido alguma informação importante com o Juca? Teria ele dado uma pista valiosa para Jean? E como ele já sabia sobre o reaparecimento do computador? Quem contou? Ou estaria seguindo o ladrão, já identificado e aguardando o melhor momento para capturá-lo? E por que não dizer nada nem aos pais? E nem aos amigos? Seria Rogério um suspeito? Ou estava desconfiando neste momento novamente de outro amigo?

Essas perguntas todas fizeram Bruno ficar paralisado por alguns minutos. Ainda com o telefone no ouvido. Como se aguardasse uma resposta, ao menos uma, para suas questões. Lembrou-se, então, de uma das aulas do professor Joaquim Paulino. Sim, seu nome era Joaquim Paulino, mas gostava que o chamassem apenas de Joaquim, pois era são-paulino roxo e já havia ficado de saco cheio com o trocadilho com seu nome e as piadinhas de mau gosto. Seu Joaquim havia apresentado na aula um poema de Fernando Pessoa, sob o heterônimo de Álvaro de Campos, que refletia muito bem tudo que passava pela cabeça de Bruno neste momento, de ter desconfiado do amigo Juca, de agora desconfiar até de Rogério, desconfiar pela razão, pela mente, e ao mesmo tempo de não ter coragem em seu coração de desconfiar de nenhum deles. Sentia-se com a possibilidade de ser traído e traidor dos amigos, ainda que apenas em pensamento.
E foi no poema que pensou enquanto tirava, lentamente, o telefone do ouvido e o desligava.

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

 

* * *

 

O daruma não saía da cabeça de Lucila. Já fazia três horas e meia que ela pesquisava sobre os cem anos da imigração japonesa no Brasil no computador da biblioteca. Seu trabalho tinha que ser o melhor, o mais completo.

Quando digitou no Google a frase “100 anos da imigração japonesa no Brasil” – assim mesmo, entre aspas, como Rogério havia lhe ensinado para quando quisesse pesquisar na internet alguma frase que estivesse exatamente assim, nessa ordem e com essas palavras, ipsis litteris – o primeiro resultado foi um dos melhores conteúdos que encontrou, era o site http://www.nippobrasilia.com.br, um portal da cultura japonesa em Brasília (DF), que na página do centenário explicava:

 

“No dia 18/06/1908, chega ao Brasil, no Porto de Santos, o navio Kasato Maru trazendo as primeiras 165 famílias japonesas que vislumbraram o sonho de uma vida melhor. No dia 18/06/2008 iremos completar os 100 anos da Imigração Japonesa no Brasil, com cerca de 1,5 milhão de nikkeis (descendentes de japoneses que nasceram fora do Japão), é a maior comunidade nipônica fora do Japão.


Devemos lembrar, também, que no final da década de 80 começou um fenômeno reverso, a ida de nikkeis para trabalhar no Japão, os dekasseguis. Atualmente, são mais de 300 mil pessoas, a terceira maior comunidade brasileira no exterior e que remete cerca de 2 bilhões de dólares (aproximadamente R$ 4,1 bilhões) para o Brasil”.

Juntou isso a resultados de outras pesquisas nos livros da biblioteca. Tinha consciência de que uma boa pesquisa precisava ir muito além da internet. O texto que escrevia para o trabalho estava ficando muito bom, mas ela sentia que precisava de algo mais, que seu trabalho arrasasse e merecesse um dez, ou melhor, um daruma. Foi quando ela teve uma idéia criativa:

– Já sei, vou escrever, logo depois do trabalho, que teremos uma apresentação real, nada de virtual, sobre a imigração japonesa. Coloco isso no final do meu post, no blog, e faço uma surpresa a todos. Vou apenas combinar com a diretora e ver em qual sala posso ter um microfone à disposição – disse ela a si mesma, pensando em uma apresentação de arrasar.

A idéia de Lucila era muito boa: convidar seu Nikito, um vizinho, para falar sobre a imigração. Ele era bem velhinho e tinha muitas histórias para contar. Seria um bom texto aliado a uma apresentação de surpreender a todos. O resultado só poderia ser um daruma! Agora, o seu Nikito tem que topar falar em público na escola.

Luci pegou todos os seus livros e cadernos, juntou-os, e saiu da biblioteca voando. Correu para casa, deixou tudo lá e partiu para sua missão: convencer seu Nikito.

Logo que apertou a campainha, seu Nikito saiu para atendê-la, ela sempre ia lá para pegar a chave de casa que os seus pais deixavam com ele quando saíam. Seu Nikito era o vizinho de mais confiança da família de Lucila. E ele foi logo dizendo:

– Desta vez seus pais não deixaram a chave aqui.

– Não, seu Nikito, não vim atrás da chave, meus pais estão em casa. Hoje o assunto é outro.

– Então entre, minha filha – disse ele com voz amável.

Após convidá-la a sentar-se, perguntou:

– Pois não, filha, em que posso ajudar?

A pergunta não podia ser melhor.

– Seu Nikito, estou fazendo um trabalho na escola, sobre o centenário da imigração japonesa no Brasil, e gostaria que o senhor fosse lá para nos contar um pouco de sua experiência, vindo viver num país completamente diferente, falar da cultura de seu povo. Quero enriquecer meu trabalho com um pedacinho da sua sabedoria.

Seu Nikito estava com um alegre sorriso nos lábios e de olhos fechados. Lucila percebeu que aquilo era um sim e logo também se emocionou quando viu uma lágrima escorrer dos olhos apertados de seu Nikito. Serenamente, ele abriu novamente os olhos e respondeu:

– Eu estava no Kasato Maru quando ele atracou em Santos.

– Então o senhor tem mais de cem anos já? – espantou-se Lucila.

– Não, minha filha, tenho 99, faço 100 no fim do ano, eu estava na barriga de minha mãe naquele navio. Nasci aqui, mas fui gerado lá, no Japão.
Lucila não conseguia conter a emoção e agora a alegria. Seu tiro não poderia ter atingido o alvo de uma forma melhor. Não poderia haver pessoa melhor para a sua apresentação.

– Vou marcar a apresentação então, seu Nikito, confirmo com a diretora da escola e lhe aviso. Tudo bem?

– Está bem, minha filha, vou com o maior prazer.

Seria um espetáculo. Mas não podia esperar, voltou para casa, avisou a mãe e correu novamente para a escola. Tinha que falar com a diretora ainda naquele dia.

* * *

 

Após a paralisia causada pelo telefonema a Jean e a lembrança do poema de Pessoa, ou melhor, do Álvaro de Campos, martelando em sua cabeça, Bruno voltou a escrever freneticamente seu livro. Também estava ficando muito bom. As idéias fluíam em sua mente, como um rio que corria para o mar, sem obstáculos, com correnteza forte. Seguro do que escrevia, Bruno não corrigia nada. Não voltava, não apagava nada, as idéias iam se encaixando e a história ficava cada vez mais intrigante.  Exatamente do jeito que ele estava fazendo quando o computador foi roubado.

 

Mas agora a ficção misturava-se com a realidade sendo vivida ali, naquele momento, por eles três. Tinha algo de autobiográfico. Tinha idéias que Bruno realmente estava pensando. Mas seu dom de escritor, já brotando para o mundo das letras, também fornecia pitadas de ficção bem tramada. Escrevia um parágrafo, mas sua mente estava dois ou três à frente. Sua lentidão para digitar era compensada pela ausência de pausas, as palavras vinham como se fosse uma linha de produção, em escala industrial. Sem parar.

Magda passava pelo quarto de Bruno, via que ele estava submerso naquele mundo da literatura e tinha uma mistura de preocupação e orgulho. O filho estava envolvido em algo que podia lhe render um grande futuro, seria um orgulho ter um filho escritor. Ao mesmo tempo, preocupava-se com o envolvimento do garoto em excesso, ficava sem comer, escrevendo sem parar, parecia que o tal concurso havia se tornado uma compulsão. Doença…

Coisas de mãe.

Antônio também estava preocupado, mas numa proporção inversa à da mulher – 10% de preocupação, 90% de orgulho e certeza de que o filho estava fazendo o certo, escolhera o melhor caminho, seguia sua vocação. Era um caminho estreito para as opções que os garotos da sua idade tinham, mas, com certeza, o melhor para ele. Otimista, acreditava que a educação que ele e Magda deram ao filho renderia bons frutos, sobretudo sendo Bruno como era – um menino e tanto, gabava-se o sereno e aparentemente sossegado Antônio.

Com o reaparecimento do computador, começou a pensar no presente que daria ao filho no final do ano, pois o dinheiro que seria economizado com a compra do micro que não precisava mais ser feita, deveria ter outro destino. Seria uma decisão difícil, principalmente se quisessem fazer uma surpresa a Bruno e não pudessem contar com a opinião do filho para escolher o presente. Mas havia tempo para isso, o Natal ainda estava bem longe.

 

* * *

 

Bruno parou de escrever de repente. Um pensamento desviou totalmente sua atenção. Não entendia o significado das três palavras escritas no papel grudado no computador: “Agora me esqueçam”. Seria o suspeito de Jean? Ou ele estaria novamente seguindo uma pista errada? Seria JC e seus e-mails enigmáticos? Seria alguém muito próximo? Mas por que roubar o computador e devolvê-lo assim, sem danificá-lo e ainda mais com o texto intacto? O que isso queria dizer?


Bruno questionava-se enquanto fechava o arquivo com o texto do livro e abria o programa de e-mails. Ele decidira ver novamente se não havia chegado mais nada de JC.
Abriu. Digitou sua senha. Clicou no botão para receber e-mails. Esperou o computador conectar-se à internet, pois ainda utilizava uma conexão discada por linha telefônica convencional. E esperou o micro baixar seus onze e-mails novos. Enquanto as mensagens apareciam na tela, Bruno perdia ainda mais a esperança, eram todas propagandas não solicitadas, o famoso spam, lixo eletrônico que os especialistas falavam que estava acabando com o sistema de e-mails do planeta. Mas a última mensagem, sempre a última, era a que interessava a Bruno. Era de JC. E dizia:

“Está feliz agora? Termine este seu livro, parece muito bom, espero que seja um sucesso”.

 

Bruno ficou literalmente boquiaberto, como se escrevia nos livros antigamente, e decidiu contar tudo aos amigos na mesma hora.

 

* * *

 

Lá se foi uma semana inteira. Logo cedo, de manhã, café correndo, pegar o ônibus, escola. Provas de Química, Matemática, Literatura. O dia começou bem… bem mal! E ainda tinha reunião na casa do Rogério com o Bruno. Apesar de o trabalho sobre a imigração japonesa correr maravilhosamente bem, seu Nikito revelava-se cada vez mais uma preciosidade, Lucila não estava legal naquele dia, irritada e de saco cheio. Coisas que os homens não entendem, mas as mulheres conhecem bem: TPM. Mais conhecida como o mal das mulheres e o inferno dos homens.

 

Quando chegou na casa de Rogério, estava mais irritada e ainda por cima com cólicas. Queria voltar para casa, mas também queria ficar. Sentia falta de Bruno, mas quando ele chegava perto tinha vontade de mandar que fosse pra bem longe. Ai, socorro!!! Era muita coisa pra sentir ao mesmo tempo, e olha que de 28 em 28 dias era atacada por essa loucura de sensações insuportáveis, que só lhe davam vontade de chorar.

 

– O que foi, Luci?

 

– Nada, não, Bruno, só não chega muito perto, não.

 

– Como assim? O que te fiz?

 

– Ai, Bruno pára com isso… parece criança. Vamos falar do que interessa. Como vão as investigações?

 

– Não, não vamos dar um jeito é na nossa situação. O que eu te fiz Luci???

Rogério não agüentou e caiu na gargalhada.

Bruno não estava entendendo nada, a namorada não o queria por perto, estava preocupado, e o amigo ria da cara dele? O que estava acontecendo que ele não sabia?

 

– Calma, meu caro! – disse Rogério, batendo em suas costas e sentando perto dele no sofá.

 

– Não precisa ter uma DR, isso é TPM!!

 

– O quê? DR? TPM?

 

– DR = Discutir a Relação; TPM = Tensão Pré-Menstrual. Que nesse caso parece mais menstrual, né, Luci? As meninas ficam assim confusas no período da menstruação, Bruno, elas querem estar perto mas te mandam embora, e choram muito. Nesses dias, o melhor que a gente faz é compreender e fazer tudo o que elas pedem.

 

– Como é possível – matutou Bruno – fazer tudo que elas pedem? Ela me manda embora, logo me quer perto, quer atenção, depois quer que a deixe em paz…

 

– Onde você aprendeu tudo isso, Rogério? Agora era Luci quem estava impressionada.

 

– Não sou só um expert em computadores, eu pesquiso e leio muito na internet, oras. Fiquei expert em muitas coisas, mulheres especialmente. Como disse a Rita Lee “mulher é bicho esquisito, todo mês

sangra”. Nada mais simples do que entender as mulheres, pelo menos nestes dias.

 

– Nossa, Rogério! Você esta me surpreendendo. Acho que isso está me cheirando a paixão! E não é virtual, não, é real mesmo…

 

– Ah, ah, engraçadinho você, Bruno. Depois te dou o endereço dos sites, vê se fica mais ligado no mundo feminino.

E fazendo uma voz de galã de filme de romance, recitou:

 

As mulheres gostam de homens que buscam entender como elas sentem o mundo!!!

 

Todos caíram na gargalhada. Até Lucila, que ficou mais tranqüila, o fato de saber que os dois conheciam um pouco das suas agruras era simpático.

Depois que Bruno contou as novidades para os companheiros, começaram uma nova fase no trabalho de investigação, que andava devagar, quase parando – pudera, estavam todos com tarefas gigantescas para cumprir em pouco tempo.

A primeira coisa que fizeram foi postar no blog uma grande notícia sobre o reaparecimento do computador, sem mencionar, é claro, o bilhete deixado. Colocaram ainda um agradecimento ao “bom” indivíduo que o devolveu.

O próximo passo era mandar um e-mail para Constantine. E na mensagem colocaram uma observação sutil, subliminar, lembrou Bruno, que, como escritor ainda principiante, gostava de usar palavras incomuns:

 

“Agora já tenho de volta o que preciso. Meu computador voltou. A busca acabou. Você muito me ajudou.
Adeus”

 

Sentiram uma pontada de tristeza em fazer aquilo. Não sabiam com certeza se Constantine era do bem ou do mal, mocinho ou bandido. Mas não podiam correr riscos. Agora, a conversa era somente entre eles. Já que sabiam que Juca não estava na história, sabiam que todo o cuidado era pouco.

Trabalharam rápido, pois Lucila queria ir embora, Bruno tinha de escrever o texto falso para postar no blog. E Rogério não ia para o Orkut, não, tinha de ir à casa de sua amiga.

Amiga?

 

* * *

 

Era uma viagem não muito comprida, no ônibus lotado, até o Butantã. Fernanda era uma garota incrível: como manjava muito de computador, fazia Rogério sentir-se menos esquisito por querer saber mais e mais sobre eles, e (quase) só pensar neles. Sem contar que ela era adorável, com lindos olhos verdes, simpática com aquela mania de querer ser “neguinha”. Era loira, mas jurava ter ascendência negra na família, e sempre se queixava do cabelo lambido e da cor branquinha demais.

 

– Olha só, minha avó era negra, meu avô alemão, por isso não peguei a cor. Mas quando tomo sol fico bem dourada. Dá até pra dizer que não posso negar minha raça. No fundo, no fundo, sou é bem brasileirinha.

 

E assim cativava cada dia mais o coração de Rogério.

Chegou à casa dela já de noite, e dona Judite, a mãe de Fernanda, logo decidiu (sozinha) que ele iria ficar ali, no outro dia os dois iriam pra escola juntos.

 

Conversavam sobre muitas coisas, e também sobre o futuro. A escola cada dia mais difícil, a necessidade de escolher uma profissão para o resto da vida, como aproveitar bem o que sabia sobre informática, tudo o deixava angustiado.

 

Dona Judite tinha um jeito simples de tranqüilizá-lo quando estava assim, na fossa:

 

– Não diz pra vida toda, não, é muito tempo, daí parece que pesa mais, a escolha fica difícil. Pensa que é algo de que você goste. Fica mais fácil. Pense naquilo em que você é bom e se diverte fazendo.

 

Dormiram em quartos separados. E, ao acordarem, dona Judite já tinha preparado o café da manhã. Que serviu, com uma daquelas frases oportunas:

 

– Saco vazio não pára em pé, nem estuda direito. Ninguém deve sair de casa sem o café da manhã.

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