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11 - Maravilha! O computador voltou para casa

 

 

Eram onze da noite de outro domingo quando Bruno e seus pais chegaram em casa, vindos de outra festa de aniversário. Antônio deixou o velho carro estacionado na entrada da casa, eles desceram, atravessaram o jardim e descobriram, mais uma vez, que a porta da frente estava entreaberta. Arrombada.

 

– Outra vez!, choramingou Magda. Correram para dentro e descobriram que de novo nada havia sido levado – a televisão no lugar certo, o aparelho de som, até o reloginho de ouro. Já Bruno, que fora direto para seu quarto, tinha boas notícias a dar – ou melhor, tinha uma boa notícia para dar. Meio gaguejando, conseguiu gritar:

 

– Pai, mãe, meu computador… está aqui…

 

Era verdade: o lindo, maravilhoso computador que ele havia ganho no concurso literário do jornal estava lá, na mesinha onde sempre estivera antes do roubo, sem um arranhão. Estavam todos ainda mudos de surpresa, mas Bruno correu a ligar a máquina para saber do seu texto.

 

– Maravilha das maravilhas – gritou outra vez, entusiasmado. – Está aqui,.. Inteirinho… Do jeito que estava quando foi roubado…

 

Só depois de conferir se o texto estava mesmo completo é que se lembrou de abrir o envelope branco colado com fita adesiva no computador. Dentro havia um folha de papel, com três palavras escritas em letras bem grandes: Agora me esqueçam.

 

Como sempre, a segunda-feira seria um dia duro – muito trabalho para Antônio, o caixa do supermercado para Magda e uma indigesta prova de Matemática para Bruno. Apesar desse futuro sombrio, ninguém foi para a cama – tinham agora um novo mistério para decifrar. Bruno ignorou o telefone fixo, foi direto ao celular. Ligou primeiro para Lucila, claro. Quando a namorada atendeu, gritou entusiasmado:

 

– Luci, você nem vai acreditar, meu computador está aqui em casa…

 

Luci, que saiu da cama para atender ao telefone, não entendeu nada, mas conjecturou, errado:

 

– Está? Então não foi roubado? Você tinha perdido o computador? Em casa?

 

Luci era assim, quando desandava a raciocinar depressa, ia colocando uma idéia em cima da outra, o resultado era sempre uma confusão.

 

– Não, Luci. Chegamos em casa, a porta estava arrombada outra vez, fomos ver se tinham levado alguma coisa, não levaram nada. Mas deixaram o computador lá no meu quarto. Do jeitinho que estava quando o levaram. Melhor ainda: com o meu texto lá dentro. Percebeu, Luci: agora o novo livro está quase pronto…

 

E ficou falando do novo livro, como seria – juntaria as duas histórias, a nova, que estava escrevendo, sobre as mudanças que estavam acontecendo na vida deles, na escola, com os professores, o blog, e a velha, com os balbucios do Pirão no ônibus em que viajava para São Paulo com o Juca Colosso. Esse pedaço, como havia lembrado a Luci logo no começo da conversa, estava quase pronto – era só completar contando as investigações que faziam pela internet, o acidente do Juca Olegário, o Jean…

 

E aí o escritor embatucou: que fim teria essa história? Os criminosos seriam descobertos, presos, condenados, pagariam por seu crime na Justiça? Ou ficariam livres e impunes, afinal haviam devolvido o que fora roubado, mereciam o perdão. Ou será que não, devem pagar de qualquer forma, crime é crime, arrependimento não absolve ninguém…

 

Antes de dormir, ligou para o Rogério para dar a boa e incrível novidade.

 

– Cara, essa não… – foi só o que Rogério conseguiu dizer.

 

Bruno foi dormir com todas essas minhocas remexendo na cabeça – e, é claro, as perspectivas para a prova de Matemática da manhã seguinte ficaram mais sombrias ainda.

 

* * *

 

Enquanto o Bruno enfrentava a prova de Matemática, Lucila teve aula de Artes com a professora Tieko, uma nissei baixinha, de cabelos curtos e muito risonha. Ela também aderira ao blog, e lá havia prometido um daruma legítimo, vindo do Japão, para quem fizesse o melhor trabalho sobre a imigração japonesa para o Brasil, que estará completando cem anos daqui a dois anos. No blog, a promessa não causou nenhuma sensação – teve apenas três comentários com a mesma pergunta: que é isso?

“Um daruma”, repetiu a professora, na sala de aula.

 

– Quem sabe o que é um daruma? – perguntou em seguida. Imaginava que ninguém saberia responder, talvez o Sérgio Nakamura, descendente de japonês. Mas nem ele. Alguém perguntou se era uma arma; uma menina sugeriu que fosse um quimono, outra que poderia ser uma comida.

 

Decepção para a professora, que teve de explicar: “O daruma é um dos mais populares talismãs da sorte no Japão. Vendido em festivais religiosos e feiras, esse boneco fica sempre de pé, mesmo que seja golpeado de um lado ou de outro. Por isso é um símbolo da perseverança, mas também da flexibilidade e da determinação. Um provérbio japonês define essa característica do daruma: ‘Nana korobi yaoki (caia sete vezes, levante oito)”.

 

Lucila começava a prestar atenção, e já pensava em fazer o melhor trabalho para ganhar o prêmio que ainda não interessava a ninguém mais. A professora prosseguiu:

 

“O Daruma-san (senhor Daruma) é muito procurado pelas pessoas e pelos turistas ocidentais que vão ao Japão, pois, segundo a crença, ele dá ao seu possuidor uma grande paciência, disposição para as lutas da vida e a realização do sonho de cada um.

 

“Na China antiga havia um bonzo, um sacerdote budista, que queria saber a verdade da vida. Após várias tentativas com a prática ascética (aqui foi preciso explicar que prática ascética é um exercício espiritual), ele nada conseguiu. Sentou-se à frente de um templo, onde ficou meditando sobre a vida até chegar a uma gama verdadeira, ou seja, à essência da vida. Depois de nove anos de meditação…”

 

A essa altura já havia gente bocejando na sala, menos a Lucila, mas a professora continuou, decidida:

Daruma é o fundador do Zen Budismo…”

 

Foi interrompida por uma aluna, a Cecília:

 

– Professora, a gente pode pôr tudo isso no trabalho sobre a imigração japonesa?

 

– Não, isso não. Vocês precisam pesquisar sobre a imigração japonesa para o Brasil. Isso que estou falando sobre o daruma é só uma explicação sobre o presente que darei ao autor do melhor trabalho.

 

– Mas para que vai servir esse boneco?

 

Era a Cecília outra vez. Alguém respondeu no lugar da professora:

 

– Pra você pedir a ele pro Nakamura gostar de você.

 

Todos caíram na gargalhada, pois todo mundo sabia que a Cecília era gamada pelo nissei, que não dava pelota pra ela, só queria saber de estudar e estudar.

 

– Quem quer saber mais sobre o daruma? – perguntou a professora. Lucila levantou o braço. Ela continuou:

 

– O povo japonês costuma comprar o boneco, vendido em barraquinhas próximas aos templos e santuários, no Ano-Novo, para que se concretizem os sonhos do ano que começa. Ele vem sem os olhos: quando a pessoa quiser que o desejo se realize, pinta um dos olhos; se o pedido for atendido, o outro deverá ser pintado também, em sinal de gratidão.

Tocou a campainha, sinal de que acabara a aula. A professora ainda recomendou:

 

– Quem quiser saber mais sobre o daruma pode procurar no Google. Há bastantes coisas sobre ele lá. E não se esqueçam: quem fizer o melhor trabalho sobre a imigração ganhará um daruma. Lucila foi logo para o computador da biblioteca, ler mais sobre o daruma. A professora tinha razão: havia montes de informações sobre ele no Google. A figura na tela mostrava um homem de cara feia, parecia emburrado. Ainda assim, ela deixou com ele, em segredo, o desejo que iria desejar, se fizesse o melhor trabalho e ganhasse o prêmio.

 

* * *

 

Depois da prova do Bruno, os três amigos reuniram-se na biblioteca pra ver se havia alguma resposta no e-mail de Kafka.

Havia. Abriram:

 

“Uma boa jogada, mas vocês não são exímios jogadores, meus heróis. Kafka? Um tanto óbvio para alguém que já conhece vocês. Mas gostei da estratégia. Agora já sei que sabem quem sou, ao menos na internet”.

 

Como ele havia descoberto que eram eles? Agora tinham perdido o contato? O que fazer?

 

– Como ele descobriu, Rogério?

 

– Não sei ainda, Bruno… esse cara é esperto demais.

 

– Mas como ele sabe que somos nós?

 

– Gente, que mancada nós demos!!! – gritou Lucila, com ar de triunfo, apesar da derrota.

 

– Como assim, Luci?

 

– Simples: se no destinatário não aparecia o endereço de e-mail dele, e como ele já mostrou ser muito esperto, esse endereço deve ser para se corresponder apenas conosco. Assim como nós fizemos um para falar só com ele.

 

– Este Constantine é bom mesmo!!!

 

– Não pensamos nisso, Rogério.

 

– E agora?

 

– Vamos responder e ver se ele manda algo

 

– Espera um pouco, Luci. Vamos ver o blog primeiro.

 

Abriram a página e lá estava uma postagem de comentário:

 

“Chico não é Chico. O menino já ganhou de volta seu computador?”.

 

Os três ficaram muito intrigados. Afinal, se Constantine não quisesse mais ajudar, não estaria se correspondendo com eles. Ou estava apenas querendo mostrar o quanto era inteligente?

 

– Bruno, vamos arriscar mais um e-mail?

 

– Não sei não, Rogério.

 

– Tenta pelo teu mesmo, oras!

 

Responderam: “Queremos sua ajuda, mas precisamos saber se é monstro ou amigo. Já percebemos que é muito inteligente. Não pensamos em subestimar sua inteligência.

 

Já sabemos que você não é Chico. Então quem é você?”

 

– Enviado. Agora é esperar.

 

Rogério e Lucila não deixaram Bruno esperar. Ele tinha uma obra literária a produzir, e não podia perder tempo. Rogério e Lucila foram para a reunião do grêmio estudantil.

 

* * *

 

Foi uma porcaria. A diretoria queria cobrar para fazer um campeonato de caçador no intervalo das aulas. Haveria uma equipe por sala, e cada equipe deveria pagar R$ 20. A equipe vencedora ganharia uma bola.

 

Rogério ficou irritado e pediu a palavra:

 

– Gente, grêmio é para se envolver em questões mais sérias, lutar pela qualidade do ensino, por aulas extras, cursos extracurriculares, questões ligadas ao nosso futuro.

 

Lucila, com seu senso prático, sugeriu:

 

– Vamos fazer alguma coisa mais inteligente, não sei o quê, mas vamos pensar. Por que a diretoria não utiliza o nosso blog para colher sugestões? Assim poderemos montar um verdadeiro programa de trabalho.

 

Era a primeira vez que ela tomava a palavra assim em público. E veio logo com uma sugestão ótima, que fez todos esqueceram o campeonato idiota que daria uma bola ao vencedor. Uma bola!

 

Rogério voltou para seu computador, em casa, e Lucila foi para a conferência do engenheiro da Sabesp, que falaria para toda a escola, no período da tarde, sobre o problema da água em São Paulo. Foi assim como quem não quer nada; depois de tanta correria tentando esclarecer o mistério do computador do Bruno, tinha agora uma tarde inteira só para ela. O namorado e o amigo estavam ocupados com suas próprias coisas.

 

O engenheiro era bom de conversa, projetava imagens e números na tela, tornava a sua aula bem atrativa, ninguém piscava o olho. Começou com uma informação alarmante: “Na Região Metropolitana de São Paulo, uma imensidão de mais de 7 mil quilômetros quadrados, 39 municípios, onde vivem mais de 20 milhões de pessoas, cada uma delas dispõe de apenas 200 mil litros de água para usar durante um ano. Só para vocês terem uma idéia do tamanho desse problema, no Estado do Piauí, lá no Nordeste, que é a região mais seca do Brasil, cada morador tem 9.185 metros cúbicos (quase 9,2 milhões de litros) de água por ano. O problema não é que falte água aqui em São Paulo – é que há gente demais e, além disso, boa parte dela está poluída. É preciso desenvolver uma nova cultura sobre o uso da água, para que todos nós passemos não apenas a economizar, gastando o menos possível da que existe nas torneiras, mas não sujando a que corre pelos rios e riachos”.

 

E seguiu falando, e falando e falando. Era muito convincente, o engenheiro, e tinha muitos outros dados alarmantes como esses. Lucila ficou tão impressionada que, terminada a palestra, quando a palavra foi aberta para quem quisesse fazer comentários ou perguntas, ela criou coragem e perguntou:

 

– Senhor engenheiro, se é tão grande assim o perigo de faltar água limpa para a gente usar, e se a água limpa que existe é tão pouca, por que os governos não criam um programa de emergência e jogam todos os recursos disponíveis para acabar com ele?

 

O engenheiro sorriu do radicalismo da proposta. E explicou para Lucila e todo o auditório, pacientemente:

 

– Não podemos jogar todos os recursos para resolver um problema só, por mais sério que ele seja. Para você ter uma idéia (ele se dirigia diretamente à perguntadora), só nesse campo das agruras do meio ambiente, precisamos nos ocupar de questões tão diferentes como a poluição da atmosfera, o aumento da temperatura média da Terra, a dramática diminuição das florestas e dos ecossistemas a elas associados, a ameaça de extinção de muitas formas de vida. Na verdade, todos esses problemas, e vários outros, formam um único e grande problema, que é o da manutenção das condições naturais que permitem a sobrevivência do homem, e de todos os demais seres vivos, neste nosso planetinha.

 

E por aí foi. Não era exatamente uma novidade, Lucila já havia ouvido falar muito dessas questões, nas aulas havia feito trabalhos a respeito, mas ela nunca parara para pensar a sério:

 

– O que eu tenho com isso?

 

A palestra do engenheiro serviu para isso: ela pensou, e achou que tinha muito a ver com isso; afinal, também era gente, tinha os seus direitos, e precisava lutar contra os que atentassem contra eles – os poluidores. Uma categoria que, ela iria descobrir aos poucos, era ampla demais para a gente conseguir enxergar de uma vez só.  E já que estava ficando íntima dos computadores e da internet, começou a ler tudo que conseguia encontrar sobre o assunto – a pedido dela, por sinal, o engenheiro havia citado uma série de endereços na rede onde ela (e todos os que ouviam a conferência) poderia encontrar muitas outras informações.

 

Nos meses seguintes, ela se tornaria uma chata, daquelas que vivem pegando no pé de todo mundo porque jogou um papel no chão, pegou mais água do que conseguiria beber, anda sozinho no seu automóvel e toda a infinidade de detalhes a que devemos estar atentos, para não prejudicar a natureza. Mas por enquanto começou a praticar sua nova doutrina apenas sozinha, com coisas simples como fechar a torneira enquanto escovava os dentes. Sem cobrar de ninguém que fizesse o mesmo.

 

Bruno é que não estava para brincadeiras. Agora com o computador em casa, passava boa parte das noites escrevendo furiosamente. Magda ficou preocupada e, pela primeira vez, também Antônio.

 

– Filho, sabemos que é importante para você, mas não vá se desgastar, trabalhando tanto. Descanse. O mundo não foi feito num dia só.

 

Bruno respondeu, repetindo o que sempre dizia:

 

– Vocês não entendem? Escrever é o que me realiza, o concurso vai abrir muitas portas para os ganhadores, vai haver muitos concorrentes preparadíssimos, não posso fazer nada que não seja o melhor. Está sendo muito corrido, que vou fazer, fiquei um tempão sem o meu computador, agora preciso tirar o atraso. A vantagem é que recuperei o texto, que já estava bem adiantado, assim não preciso começar do zero.

E, bombástico, concluiu:

 

– Não se preocupem. É na pressão alta que se forjam os grandes homens!

Os pais ficaram apalermados.

 

– Quem ensinou tudo isso para esse menino, Magda?

 

– Um pouquinho nós, com certeza. E muito os livros que ele lê, também com certeza. Vamos dormir, Antônio.

 

Bruno foi surpreendentemente bem na prova de Matemática – não tirou um 10, é verdade, ninguém tirava, só o autor do livro, mas ficou com um belíssimo 7,5, nota que o livrou do risco de ficar em recuperação. Seria uma chatice. Foi com essa alegria, uma disposição para achar tudo ótimo e interessante, que foi para a aula de Literatura.

 

Seu Joaquim entrou na sala agitado, com vários livros nas mãos, mas apenas um deles interessava para aquela aula, um que tinha a capa escura e parecia datar do século 19. Bruno ficara surpreso com a feição do professor, pois nunca o havia visto daquele jeito, mas logo descobriu por quê.

 

– Classe, o tema de hoje é literatura francesa, disse ele, levantando o livro para todos verem.

 

Alguns alunos soltaram um “ah” de descontentamento, mas Bruno, muito intrigado, quis ler o nome gravado na capa. Era Honoré de Balzac, o autor preferido de seu Joaquim.

 

– Vocês já devem ter ouvido falar da expressão “balzaquiana”, não? – perguntou o professor, e continuou antes mesmo que alguém lançasse um palpite – ela vem de um dos maiores conjuntos de obras literárias do nosso tempo: A Comédia Humana, escrita por um único homem, o francês Honoré de Balzac. Esse título engloba 95 obras, entre contos, romances e novelas, escritas e publicadas entre 1831 e 1847. Seus textos perduram até hoje, e influenciaram, entre muitos outros escritores, o também francês Marcel Proust, o americano William Faulkner, o português Camilo Castelo Branco e o brasileiro José Lins do Rego. Balzac foi um dos precursores do Realismo, sendo o escritor mais importante da transição do Romantismo para a narrativa realista.

 

Bruno ouvia atentamente, quase sem piscar.

 

A Comédia Humana foi dividida em três partes: Estudos Analíticos, Estudos Filosóficos e Estudos de Costumes. Deste último, fazem parte os livros A Mulher de Trinta Anos, de 1834, a obra-prima que deu origem ao termo “balzaquiana”, utilizado até hoje para designar as mulheres dessa idade, e Ilusões Perdidas, de 1843, que estou segurando em minhas mãos. Nesta obra, Balzac trata, sobretudo, como em grande parte de seus escritos, da burguesia francesa pós-revolução, de maneira muito crítica. Ilusões Perdidas conta ainda a história da imprensa, por meio das desventuras de um jovem aspirante a escritor em Paris, Lucien Chardon, mais tarde Lucien de Rubempré, um apaixonado por literatura, e seu cunhado e melhor amigo, David Séchard, um rapaz fascinado pelas ciências exatas.

 

Foi uma das melhores aulas do ano, anotou Bruno. Seu Joaquim dissecou a obra, falando do surgimento da prensa – peça rudimentar utilizada para imprimir tudo que fosse preciso na época do escritor, meados do século 19 –, passando pelos primeiros meios de comunicação e o papel desempenhado pelos impressores, que escolhiam criteriosamente o que seria divulgado, até chegar à influência que a imprensa teve na vida de escritores, como ele, Bruno, em início de carreira.

 

“O infortúnio é um degrau para o gênio, uma piscina para o cristão, um tesouro para o homem hábil e um abismo para o fraco”, recitou o professor para a sala, uma frase de Balzac que encerrou a aula.

 

Bruno ficara maravilhado. O desfecho da aula ajudou-o a tomar uma decisão importante: deixar de lado aquela investigação até agora inútil, até mesmo porque recebera de volta seu precioso computador com o texto que considerava perdido, e se dedicar inteiramente ao livro que estava escrevendo.

 

O que essa decisão podia significar ninguém sabia, nem ele mesmo, pois a mãe e o pai não tinham dúvida de que ele já estava se dedicando inteiramente ao livro. Os grandes homens, repetiu para ele mesmo, forjam-se nas grandes pressões. Se Balzac foi capaz de escrever 95 livros em 16 anos (6 livros por ano, um a cada dois meses) por que ele, Bruno, não seria capaz de escrever o seu em três meses – era começo de abril, o concurso seria encerrado no fim de junho, para dar tempo de editar e imprimir os livros premiados e lançá-los na Bienal do Livro, em agosto.

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