Conte a sua parte da história
10 - Frágeis calçadas de vidro
O movimento de pessoas na Rodoviária de Curitiba não se compara nem mesmo com os dias mais calmos dos terminais de São Paulo. Jean havia embarcado para lá dois dias depois do previsto, precisou cuidar da burocracia, documentos, dinheiro. Ao desembarcar na cidade, Jean lembrava que esta história, que começara como um favor para um amigo, estava se tornando uma grande investigação. E uma grande investigação era do que precisava para dar um impulso para cima na sua carreira na polícia, que estava meio estagnada. Ia jogar tudo nessa parada.
Ao chegar ao hospital, descobriu que o horário de visitas já havia terminado, teria de voltar no dia seguinte. Ficou um pouco aliviado, pois, assim, ganhava tempo para arrumar uma boa desculpa quando fosse conversar com Juca; afinal, não podia correr o risco de colocar a investigação em risco. Não pretendia revelar que era policial, pelo menos de saída.
Achou um hotel próximo ao hospital, registrou-se, nem olhou o quarto, resolveu matar o tempo na rua mesmo. Foi descobrir se era verdade algo que ouvira enquanto estava no ônibus: uma das praças da cidade estava sendo reformada e foram descobertos restos arqueológicos. Era verdade. É incrível ver, na Praça Tiradentes, no centro da cidade, todo aquele espaço aberto. Ali foram encontrados, pela equipe de arqueólogos da Universidade Federal do Paraná, restos de uma calçada, que pode ser dos séculos 19 ou 18. O material estava a quase um metro de profundidade. Olhando aquilo, Jean sentiu-se dentro de um filme de “Indiana Jones”. E pensou:
– Deviam colocar calçadas de vidro no passeio, assim o passado não ficava enterrado ou trancado em museus.
Nesse tipo de descobertas, pedaços separados são sem sentido, mas bem unidos podem explicar muita coisa. Esperava poder juntar mais um pedaço aos seus achados, na investigação, no outro dia, quando fosse falar com Olegário.
Jean foi ao hospital bem cedo, e conseguiu entrar na enfermaria onde Juca fora internado. Ao lado de uma das camas estava uma senhora de cabelos negros, uma pele tão alva, que dava a impressão de ter sido pintada em um quadro. Olhava pesarosa para o homem de cabelos curtos, também negros e pele morena, generosamente dourada pelo sol. Pela descrição deveria ser Olegário Pereira, ou Juca… ou Chico? Estava de olhos fechados, ligado a vários aparelhos.
– Boa-tarde, esse é o Juca? Ou melhor, o Olegário Pereira?
– Sim, ele mesmo. E o senhor quem é?
– Sou Jean, conheço um amigo do Juca que ficou sabendo do acidente, e como eu estava passando por aqui em viagem, ele me pediu para vir ver como estava.
– Está como Deus quer, meu senhor. Os médicos dizem que ele teve muita sorte, o acidente foi feio, e agora ele tá aí, coitadinho, sedado.
– Ele vinha visitar a senhora, não é? Ele saiu sem se despedir de ninguém, foi um choque para todos nós. Ele tinha algum compromisso por aqui no Sul?
– Olha, eu não sei. Só sei que meu Olegário estava com muita vontade de ir ficar comigo lá no Rio Grande. Eu falei pra ele não ficar em São Paulo, aquilo não é cidade pra gente como ele, simples.
– Ele não está falando, então?
– Ah, moço, ele vai ficar mais uns dias assim, o médico disse que ele tá com um edema na cabeça. Não pode se esforçar, então fica aí cheio de remédios. Eu falei pra ele que essa inocência dele ainda ia dar problema. Peixe morre pela boca ou então é fisgado e vai pro aquário, mas ele não me ouvia.
Jean não conseguiu mais nenhuma informação, pois a mulher caiu num choro de dar pena. Conseguiu deixar seu cartão, com um abraço enviado pelo amigo Bruno para o Olegário.
Saindo do hospital, foi para a rodoviária. Não podia esperar o tempo que Olegário ia ficar sedado. A repartição precisava de seus trabalhos. Ia para São Paulo sentindo-se como os arqueólogos de Curitiba: estava com algumas peças somente nas mãos, e não faziam sentido sozinhas.
– Vou esperar que esse Juca se recupere. Mas até lá, vamos ter de escavar mais fundo pra ver se achamos as outras peças, e essas estão em São Paulo. O peixe não morreu pela boca, mas foi fisgado?
* * *
Era o momento de bolar todos os detalhes do plano para encontrar o tal John Constantine dos e-mails misteriosos. Bruno marcou uma reunião para logo cedo, no Acessa São Paulo. Seria de lá que criariam um e-mail fictício e o usariam para atrair John Constantine para uma cilada e desmascará-lo.
– Bom, pessoal, primeiro temos que pensar em um nome para criar o e-mail. Quem tem uma boa idéia? – disse Bruno, em tom de desafio.
Rogério soltou de bate-pronto:
– Eu acho que nosso internauta fictício deve se chamar John Locke ou então James Sawer.
Lucy nem levou a sério e ironizou:
– Acho melhor você parar de ficar fissurado em Lost, Rogério. Esse seriado norte-americano está deixando você “perdidinho” — e riram todos com o senso de
humor de Lucy.
Bruno, porém, em cinco segundos, fez o foco voltar ao plano original:
– Pessoal, é sério, quanto antes executarmos o plano, mais tempo teremos para atrair o JC para nossa armadilha.
Rogério veio com outra idéia:
– Poderia ser franz.kafka@gmail.com, o que acham?
– Agora sim, boa idéia, Rogério – elogiou Lucila.
– Boa, também gostei, perfeito para nosso internauta fictício, será uma verdadeira metamorfose – aprovou Bruno, fazendo um trocadilho com a mais famosa obra do escritor judeu-tcheco, A Metamorfose, em que um homem acorda, um dia, de manhã, transformado num inseto monstruoso – uma barata?
– E agora, onde criar o e-mail? – perguntou, olhando para Rogério, o entendido de informática.
– No Gmail, lógico, não preciso nem de cinco minutos para criar.
Foram os três para um dos terminais do Acessa São Paulo e, logicamente, Rogério sentou-se em frente ao micro e começou a digitar.
Entrou no Gmail, clicou em “Inscrever-se em Gmail”. Daí para a frente foi só preencher os formulários e pronto, sem burocracia, o e-mail estava criado.
O passo seguinte era entrar no webmail e clicar em “Responder” ao último e-mail enviado por john-constantine. Rogério acessou e disparou a pergunta:
– O que escrevemos para o JC?
– Vamos dar uma de enigmáticos e fazer como ele – sugeriu Lucy.
– Concordo, mas escrever o quê? – questionou Bruno.
– Sugiro a seguinte mensagem: “John Constantine, também podemos ajudar o garoto do blog a encontrar o computador”. E mais nada. Assim mostraremos a ele que
sabemos seu e-mail, john-constantine, e que também temos informações.
– Brilhante, meu bem! – exclamou Bruno, logo percebendo ter soltado outro “meu bem”. Ainda soava estranho, mas não muito.
Agora era só aguardar a resposta.
***
O blog já tinha vida própria, deslanchava até mesmo sem qualquer intervenção dos três, “pais” da “criança”. Naquele dia recebeu outra importante colaboração.
A professora Olívia, de Química, adorou a idéia quando alguns alunos lhe mostraram as questões de Matemática e Literatura no blog. Muito descolada e antenada com as novas tecnologias, ela tratou de mandar um desafio de Química para ser resolvido e respondido no blog. O primeiro aluno a responder teria um ponto positivo na média do bimestre (o que era muito valioso).
Não era nada fácil, o problema era bem complicado:
“Nas campanhas de desidratação infantil, a população é orientada a fazer uso do ‘soro caseiro’. Esse ‘soro’ é constituído de uma solução aquosa contendo 3,5 g/l de cloreto de sódio e 11,0 g/l de açúcar (C12H22O11). Os solutos dissolvidos no soro caseiro formam uma solução de molaridade aproximadamente igual a quanto?
O primeiro aluno que postar a resposta correta, com o cálculo completo (sem o cálculo não vale), terá um ponto positivo na média do bimestre. Boa sorte!”.
Formalmente, Lucila era a responsável pelo blog, mas com o sucesso ele ficou sem dono, já estava famoso em toda a escola, e era difícil neste momento saber se isso era bom ou ruim. Por um lado, renovou-se o interesse pelos estudos das matérias mais chatas, que passaram a ficar interessantes com essa interatividade toda, mas, por outro, o objetivo inicial do blog não era esse…
***
Enquanto Rogério, Bruno e Lucy aguardavam o e-mail de JC, chegou uma mensagem de alguém que não era John Constantine. Os três se entreolharam. Curiosíssimos, nem se preocuparam em tentar saber quem era e foram logo abrindo o e-mail. Enquanto aguardavam o processamento do computador, um mar de perguntas atropelava suas mentes. Será que JC havia mudado seu e-mail para confundi-los? Teria alguma relação com aquele último e-mail bem-humorado de john-constantine? Ou teria descoberto o rastreamento dos hackers norte-americanos amigos de Rogério? Ou seria outra pessoa se envolvendo no caso? Ou, ainda, seria outro suspeito? Foram nove segundos de angústia e muita especulação, mas em silêncio total. Tensão. Atenção. Respiração. Silêncio.
Abriu!
Bastaram poucos segundos para que todos lessem a mensagem e logo sacassem que era o problema de Química da professora Olívia. Foram três “Ah!” de decepção e Rogério foi logo copiando e colando o texto no blog para atender ao pedido da professora.
– Pronto, está publicado e lançado o desafio de Química. Voltemos nós ao que interessa: aguardar o e-mail do JC.
Rogério já estava aflito, pois o horário dos três no Acessa São Paulo estava se esgotando. E já que havia enviado a mensagem num tom de “hacker para hacker”, poderia rastrear o e-mail e tentar descobrir o IP (sigla em inglês que significa Protocolo de Internet) do computador de onde o e-mail de JC partiu. Tentou explicar o plano aos amigos:
– Assim que recebermos o e-mail dele, além de tentarmos marcar a armadilha, também vou tentar descobrir o IP dele, analisando o cabeçalho do e-mail, parte que normalmente fica oculta, onde estão todas as informações trocadas entre os servidores de e-mails. É como se cada computador conectado à internet tivesse um número que o identificasse, isso é o IP. Tendo esse número, podemos pesquisar no Registro.br se é um IP do Brasil ou não. Se não for, pesquisamos na Arin.net e vemos de que país é. Sabendo a origem, podemos rastreá-lo para identificar o nome da empresa que o detém, seu CNPJ e contatos. Assim podemos saber se JC continua no campus de informática da universidade, em São Paulo, ou se está enviando e-mail de outro local.
– Legal.
– Legal – repetiu Bruno, depois de Lucy.
A idéia era realmente boa, mas passaram-se os trinta e cinco minutos restantes do tempo que tinham no computador do Acessa São Paulo e nada de e-mail. Teriam que voltar e aguardar uma mensagem no computador da biblioteca da escola mesmo, e deixar pra lá a idéia de rastrear o e-mail, pois seria como desfazer a metamorfose e entregar de bandeja a identidade secreta de franz.kafka@gmail.com a JC. Também não poderiam responder ao e-mail, pois o tal IP que fica no cabeçalho oculto dos e-mails os denunciaria. Saíram do Acessa São Paulo, cabisbaixos, na certeza de que teriam de voltar, assim que obtivessem uma resposta por e-mail, fosse no computador da escola, fosse na casa de Rogério.
***
Magda intimou Antônio. Desta vez foi incisiva e sentenciou:
– Semana que vem vamos comprar o computador para o Bruno. E faremos surpresa para ele.
Antônio apenas acenou a cabeça em sinal de concordância. Ele sabia que não seria o melhor momento para ir contra, ou mesmo para argumentar contra, discutir.
Quando Magda falava daquele jeito era melhor concordar e não discutir. Tudo bem que a frase entrou por um ouvido de Antônio e saiu por outro. Os dezoito anos de casados haviam lhe ensinado muita coisa, uma delas era não brigar por algo que não aconteceria naquele momento. Semana que vem era semana que vem. Ele tinha sete dias para, no momento certo, tocar no assunto e provar para Magda que isso não era uma decisão assim, simples. As economias da família não eram suficientes para comprar o computador tão antes do Natal. Havia outras prioridades. Mas isso seria um papo para mais adiante.
O melhor negócio naquele momento era acenar a cabeça em sinal de positivo. Isso lhe garantiria um almoço caprichado e, quem sabe, até uma sobremesa.
***
A estratégia da professora Olívia deu certo. A resposta pelo blog veio no mesmo dia. A mais “CDF” da classe, Célia Regina, resolvera a questão de Química e, entre um recado e outro do Orkut (ela era viciada no Orkut, uma rede social com comunidades das mais diversas), postou a resposta no blog. Não foi a primeira a postar, foi a terceira, mas foi a primeira resposta cem por cento correta e bem resolvida:
“NaCl = cloreto de sódio Massa molar = 23,0 + 35,5 = 58,5 ———> 1 mol = 58,5g
Número de mols = 3,5g/58,5g = 0,0598 ou 0,06
Sacarose: C12H22O11 = Mol = 342g
Número de mols = 11g/342g = 0,032
Somando 0,06 mol de cloreto de sódio + 0,032 mol de sacarose dá 0,092 mol – aproximadamente 0,09M”
Mereceu. Ela teria um precioso ponto a mais na média bimestral de Química. Ponto que seria invejado por todos os colegas. O que ia ser difícil era a professora Olívia conseguir somar mais um à média de Célia Regina que sempre tira dez em tudo. Olívia vai ter que pedir ajuda à professora de Matemática, dona Merli. Aliás, era só em Matemática que Célia não tinha dez; afinal, “dez somente para o autor do livro, zero só para o aluno morto”, Merli não cansava de repetir a todos.
***
No caminho de volta do Acessa São Paulo, percebendo a frustração de Bruno, Lucy voltou a incentivá-lo a participar do concurso de literatura. Dispôs-se até mesmo a digitar o texto no computador da biblioteca, caso ele preferisse. Lucila não queria somente levantar o moral do namorado, mas também começava a desacreditar, perder a esperança de que seria possível recuperar o computador. E o concurso resolveria esse problema. Não recuperaria o texto com a história de Juca Colosso, mas metade do problema estaria resolvida. Mas o namorado hesitava, parecia inseguro.
Enquanto Lucy tentava animar Bruno, Rogério mantinha-se ao lado dos dois em silêncio absoluto. Dois ônibus e muita caminhada à frente, Bruno e Lucy perceberam que o amigo estava concentrado demais, quando Lucy cutucou:
– Rogério, por que está quieto desse jeito?
– Estou pensando algo.
– O quê? – perguntou Bruno, curioso.
– E se o Jean descobrir que o Juca não tem nada a ver com o roubo? Quem seria nosso segundo suspeito? Não temos ninguém mais? O que faremos? E se o JC não responder ao e-mail? Ou mesmo se responder, se não cair na nossa armadilha para desmascará-lo? Estamos chegando numa situação em que podemos encontrar uma parede nesse labirinto e ter que voltar a zero!
Os dois ouviram como quem respondia “não havia pensado nisso!” e ficaram calados. Agora eram três em silêncio absoluto, caminhando pela cidade. Já estavam próximos do bairro e aqueles doze minutos de silêncio absoluto foram quebrados pelo toque do celular de Bruno.
O menino estava tão anestesiado com a hipótese levantada por Rogério que demorou a perceber que era seu telefone que estava tocando. Lucy teve de alertá-lo:
– Atende, Bruno.
– Ãh, é o meu? É o meu! Alô!
Era Jean e a notícia não podia ser melhor:
– Bruno, Juca acordou, está consciente e estou indo interrogá-lo daqui a uma hora. Assim que falar com ele te ligo – e desligou, como na maioria das vezes, sem despedir-se.
E agora? A notícia tão esperada poderia transformar-se na pior notícia, se Juca não tiver nada a ver com o roubo. Ou na melhor notícia, pois sairia das costas de Bruno a horrível sensação de desconfiar do amigo Colosso, mas, nesse caso, voltariam à estaca zero.
Bruno nem sabia o que pensar.
* * *
Lucila achava um absurdo Bruno não participar do concurso. Tinham que achar uma solução para essa situação. Dois dias depois, encontrou-se ao final da tarde com Bruno na casa de Rogério. Entraram de mãos dadas, e encontraram o amigo sorrindo, como se tivesse comido o último doce da terra. Mas o que ele tinha era um papel.
– O que é isso?
– Isso é a carta-branca para o Bruno participar do concurso. Minha mãe conseguiu um computador com um amigo dela. Ele normalmente aluga, mas como é para uma boa causa, emprestou o PC antigo dele. Ela emprestou no nome dela. É um computador antigo, mas pra escrever dá bem. Agora nosso menino prodígio só precisa trabalhar, e muito.
Bruno estava sem saber o que falar. Um misto de alegria e de tristeza tomou conta dele. Como iria dizer para os amigos que o computador não era o principal problema? Que o verdadeiro problema era recuperar o texto que estava na memória da máquina, pois sem ele não conseguiria aprontar o novo livro a tempo?
– Mas eu não tenho mais a minha história, o tempo é muito curto. E tem ainda as provas na escola… e como vão ficar nossas investigações?
– Como é que é? Não dá tempo? Esqueceu que você é o escritor da turma? O 007 aqui consegue ir a fundo nas investigações. E prova a gente sempre tem, não é motivo para parar de viver.
– É quem sabe você não consegue, com nossas investigações, terminar seu livro? Afinal, a história deve ser muito boa, ou muito real.
– Como é que é, Lucy?
– As coisas não parecem o que são. Não são tão difíceis…
– As coisas não são o que aparentam? – repetiu Bruno com um sorriso.
– Afinal, do que você está falando, Bruno? Você não vai participar do concurso?
Bruno sorria e enquanto acessava o e-mail, para ver suas mensagens, sorrindo, respondeu:
– Não só vou participar como acredito que nele esteja a chave para encontrar as respostas que procuramos!
– Respostas?
Bruno abriu a página do blog, e com um tom de suspense olhou para os amigos e respondeu:
– Elementar, meu caro Watson. Apresento-lhes nosso amigo Chico.
E, apontando para a tela do computador, mostrou o seu texto editado no blog:
“… Chico era um homem respeitador, de bons costumes e vida simples. Não procurava encrenca, era amigo de todos e seu divertimento era o pagode nas sextas-feiras. Em uma dessas noites ouviu algo que lhe causou preocupação. Uma conversa entre dois homens, falavam de entregas, do Chefe e do bagulho. Isso lhe soou muito estranho…”.
* * *
Naquela tarde não teve encontro na casa do Rogério. A Lucila tinha curso de informática, o Rogério estava gripado, e Bruno tinha a sua encrenca com a Matemática. Achou melhor aproveitar e estudar. Nota baixa era a última coisa de que precisava a esta altura dos acontecimentos. Sabia que no outro dia teriam trabalho dobrado: blog, e-mail e a Lucila.
Abriu o livro de Matemática. Equações de segundo grau. Ficou pensando por que as coisas não podiam ter ficado nas de primeiro grau, muito mais fáceis. Pela primeira vez em sua vida escolar estava pensando para que serviria o que estava aprendendo.
Com tantas coisas reais e importantes acontecendo em sua vida, perguntava-se que valor teriam as equações de segundo grau. Seria escritor, já estava no caminho certo. O que fazer com a Matemática, a Física, a Química? Ficou ali um tempo olhando para o livro aberto, sem achar a resposta, então lembrou-se de Lucila. As perguntas que ficaram em sua cabeça, sobre as coisas reais que lhe aconteciam pareciam ser muito mais importantes que uma prova de Matemática.
Equação de segundo grau ax2+bx+c=0, usar a fórmula de Báscara, achar as incógnitas, organizar a equação para enxergarmos na forma geral da equação quais são os elementos. Existem ainda as equações incompletas, quando falta um dos membros dela. Resolução com dois resultados. De repente, foi como se uma luz brilhasse diante de seus olhos:
– Organizar a equação para chegar aos resultados!!!
Descobriu para que servia a Matemática, e ficou ali pensando que a escola lhe ensinava muitas coisas, há muito tempo, mas só agora podia entender que não eram apenas teorias, serviam para a vida real, só dependia dele usar ou não os conhecimentos. E foi aí que entendeu uma frase ouvida do professor de História, que ficara rolando na sua cabeça:
– Se você tem conhecimento, cultura, e não aplica na sua vida, conhece e não usa, então melhor não conhecer. Quer prova maior de estagnação?
Bruno sabia agora o que fazer. Agora sim, podia concentrar-se em sua prova. Aos poucos aprendia que a vida não espera resolver um problema para depois aparecer outro. Eles estão ali todos juntos, e devem ser resolvidos ao mesmo tempo.
A equação estava na sua frente o tempo todo. Juca, Constantine, Jean, o computador com a história, o concurso. Organizando tudo conseguiria decifrar essa equação de muitas incógnitas. Mas ainda faltavam dados para resolver o problema.
Enviou uma mensagem para Lucila fazer a seguinte postagem no blog, depois da aula de Informática:
A volta do malandro, de Chico Buarque
Eis o malandro na praça outra vez
Caminhando na ponta dos pés
Como quem pisa nos corações
Que rolaram dos cabarés
Entre deusas e bofetões
Entre dados e coronéis
Entre parangolés e patrões
O malandro anda assim de viés
Deixa balançar a maré
E a poeira assentar no chão
Deixa a praça virar um salão
Que o malandro é o barão da ralé
Se Chico não é Chico, me diga então quem és!
20º BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DE SÃO PAULO
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