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Conte a sua parte da história

9 - Presente fora do Natal

 

Seu Joaquim, o professor de Literatura, cultivava os escritores antigos por prazer, uma preferência pessoal que trazia da adolescência – gente como Machado de Assis, José de Alencar, alguns nem tão antigos, como Graciliano Ramos, José Lins do Rego. Torcia o nariz para Guimarães Rosa, não apreciava aquele linguajar todo complicado, cheio de palavras que ninguém usa. Dos estrangeiros, então, a lista era imensa, nem vale a pena citar, pois não acaba mais. Mas também torcia o nariz para James Joyce, Henry Miller, até o Marcel Proust. Mas gostava muito, exageradamente muito, do Balzac. Tinha mais afinidade com os franceses, talvez por serem latinos como nós, vai lá saber.

 

Naquela manhã, seu Joaquim pretendia distribuir cópias de um texto de um escritor bem novo, Menalton Braff, que apesar de novo já tinha em sua casa um prêmio Jabuti, o mais prestigiado prêmio literário do Brasil, da Câmara Brasileira do Livro. Gostava dessa lição – distribuir para os alunos textos de escritores de boa qualidade, fazê-los ler com atenção, e depois responderem uma grande quantidade de perguntas, com análise do texto, do estilo, comentários sobre cenas e assuntos tratados, personagens, lugares. Era, além de tudo, um magnífico treino da imaginação, pois a meninada precisava viajar um pouco para encontrar o que escrever para atender ao professor.

 

Ele havia escolhido um dos contos do livro À sombra do cipreste, exatamente o que fora premiado. Como sempre acontecia nessas ocasiões, o professor de Literatura estava com dificuldades para conseguir o número de cópias necessário – o xérox da escola era muito antigo, muito usado, enguiçava constantemente, borrava o papel, às vezes recusava-se terminantemente a cumprir sua tarefa e não havia quem o demovesse dessa teimosia. Na classe reinava aquele burburinho – e a rodinha das amigas de Lucila, que comentavam o trabalho que ela fazia no blog, era o mais saliente.

 

O blog… Pois foi falando nele que uma das meninas, a Clarissa, sugeriu com toda a naturalidade:

 

– Por que o seu Joaquim não põe o texto dele no blog? Todo mundo pegava pelo computador, e tava resolvido o problema.

 

Alguém contestou:

 

– Mas nem todo mundo tem computador em casa, né querida?

 

Ao que Lucila respondeu, já toda animada, lembrando as conversas do Rogério com Bruno:

 

– Mas todo mundo tem computador na escola, né querida?

 

E assim o seu Joaquim, que não tinha intimidade com computadores, foi docemente constrangido pela ala feminina da classe a colocar seu texto no blog. Era trabalhoso – o texto que ele selecionara para o trabalho da classe era cópia de um livro, bem novo, por sinal. Alguém precisava digitar aquilo tudo para enfiar no blog. Naturalmente, foi a blogueira quem ficou com a tarefa, que devia estar concluída naquela noite – o pessoal precisava ter o texto no dia seguinte, para entregar as respostas no outro dia.

 

Foi outro sucesso, principalmente porque os alunos decidiram entregar suas respostas, que eram todas textos enormes, alguns maiores do que aquele selecionado do livro, também pelo blog, utilizando o espaço reservado para os comentários. Seu Joaquim precisou imprimir todos eles, o computador e a impressora da escola, mas até que ficou satisfeito: os textos estavam todos em letras de forma, não teria de ficar decifrando os garranchos que os alunos faziam escrevendo com lápis nas folhas dos cadernos.

 

*  *  *

 

Depois, reunião outra vez na casa do Rogério. Lucila estava contando, toda animada, a decisão de colocar no blog o trabalho que o seu Joaquim passara para a turma, e como conseguira digitar todo o texto, no computador da escola, em menos de vinte minutos. Rogério não gostou nem um pouco – achava que era uma avacalhação da internet colocar trabalho de escola nela. Para ele, trabalho de escola era um dever, uma chateação, e internet era diversão. Não combinam.

 

Bruno, ao contrário, achou a iniciativa muito interessante.

 

– Imagina só, Rogério, se a escola toda começa a freqüentar o nosso blog, para passar os trabalhos, devolver as respostas, todos os dias, pois todos os dias tem lição nova… Vamos ter um número fantástico de acessos.

 

Estavam nessa conversa fiada quando Rogério alertou:

 

– Atenção, soldados! Chegou mensagem será  que é do…

 

Era.

 

Do JC. Outra vez sem endereço. Havia um texto curto, endereçado a Bruno:

 

– Ânimo, garoto. Parece que o Chico não é o Chico. Se não for, você é até capaz de ganhar um presente.

 

Desta vez não era uma ameaça, parecia até uma conversa cordial. Mas ninguém entendeu nada. O Chico não é o Chico? E quem seria esse Chico? E o presente? Lucila ficou assustada, presente dessa gente pode significar muita coisa… E tudo coisa ruim.

 

Mas Rogério tinha mais o que mostrar no e-mail. Junto com o texto, havia uma imagem.

 

Um arquivo JPG, como Rogério explicou aos amigos, menos enturmados que ele com as coisas da Informática, é sempre uma imagem. Bruno recomendou cuidado, pois ouvira falar do perigo de abrir essas coisas assim, sem cuidado, podem estar cheias de vírus.

 

– Deixa comigo, gabou-se Rogério. Sei como descobrir essas armadilhas, e escapar delas.

 

Abriu o arquivo…  e apareceu na tela um urso polar branco, mais branco que a neve, e uma foto de um mapa que indicava o caminho para o Pólo Norte…

 

– Mas o que isso está querendo dizer??? – espantou-se Bruno.

 

– O que os ursos podem ter a ver com o nosso caso? – perguntou Rogério.

 

Lucila enxergou o lado bom da coisa:

 

– Gente, o JC anda lendo nosso blog. Isso é evidentemente uma alusão ao texto da professora de Matemática, o problema de andar 10 quilômetros para lá e para cá e acabar no Pólo Norte.

Não era bem isso, claro, mas todos entenderam. O que ninguém entendeu foi o súbito bom humor do JC.

 

*  *  *     

 

Registrando as compras na caixa do supermercado, Magda ouviu a conversa distraída do casal que ia ensacando as próprias compras.

– É claro que é possível, disse ele. – Eles ganham rios de dinheiro, todo mundo tem computador e todo mundo está sempre pensando em comprar um computador novo. É uma mina de ouro.

– Está cheio de minas de ouro, um supermercado como este aqui é uma mina de ouro. E a empresa tem um monte, só aqui em São Paulo deve ter uns trinta… E nem por isso eles ficam fazendo esses concursos, ela respondeu.

– É porque um concurso assim dá prestígio, o nome da empresa vai aparecer nos jornais, na televisão. Ela está fazendo uma contribuição para a cultura do país.

– Pêra aí, pêra aí… Concurso de literatura, para escritor, vai dar notícia no jornal, na televisão? Só se fosse na Alemanha, na Suíça, aqui no Brasil notícia no jornal e na televisão só se for concurso de miss.

– E tem mais, ela insistiu. Se fosse só para prestigiar a cultura, não davam esses prêmios todos, computador, edição do livro, viagens para o estrangeiro…

– Ó, bem, não exagera, computador eles fabricam, não custa nada para eles…

Quando chegou em casa, Magda foi animadinha dar a notícia ao Bruno:

– Olha aí, tem um novo concurso de literatura por aí. Escutei uma conversa hoje, no supermercado. É de uma fábrica de computadores, e o prêmio é exatamente um computador. Por que você não se inscreve?

O menino não se mostrou animado.

– Mãe, não tenho nenhum livro escrito para entrar no concurso. To escrevendo, mas não está nada pronto. E se é um concurso assim, com tantos prêmios, vai haver concorrentes aos montes, difícil ganhar.

Mas a minhoquinha ficou bem enfiada na cabeça dele. Três dias depois, conversando fiado com o Rogério na escola, sem nem lembrar dos e-mails misteriosos, das investigações do Jean, das duas histórias que estava escrevendo simultaneamente, perguntou ao amigo:

– Rogério, soube que uma fábrica de computadores está promovendo um concurso literário. Será que é verdade? Você sabe que fábrica é essa?

Rogério reagiu como sempre, prático e eficiente:

– Não tenho a menor idéia. Mas é fácil descobrir, não tem tantas fábricas de computadores assim no Brasil.

À noite, quando ligou para o amigo, para dar a informação exata que encontrara na internet, tinha um tom bem animado na voz:

– Bruno, achei o teu concurso. É de uma empresa grande, e os prêmios são ótimos. Pelo menos o primeiro e o segundo são ótimos.

– Quais são os prêmios?

– Para o primeiro lugar, um computador e a edição do livro que ganhou o concurso. Para o segundo, só o computador. Tem um terceiro, mas é mixo: só a edição do livro.

– Mixo, Rogério? A edição de um livro é um prêmio ótimo, para quem quer ser escritor, claro. Para quem, como você, que quer passar a vida brincando com essas maquininhas, pode parecer mixo… Mas diz aí, como são as regras do concurso?

– Ah, cara, é um monte de telas, não fiquei passando todas… Pega o computador da escola e olha você mesmo, toma aí o endereço. E passou o endereço para o Bruno.

 

*  *  *

 

No dia seguinte, depois das aulas, Bruno foi à biblioteca, mas desta vez não queria nenhuma livro. Estava interessado em usar o computador. Digitou o endereço dado pelo Rogério, e ficou conhecendo tudo sobre o concurso. Havia os três prêmios, mas uma coisa também muito atraente: os livros premiados seriam editados e lançados numa festa especial, que seria realizada em agosto.

 

Bruno era ruim de Matemática, preferiu ir falando os nomes todos em vez de fazer uma conta, com certeza ia errar:

 

– Estamos no fim de março, tem ainda abril, maio, junho e julho. Pêra aí, só metade de julho, pois o concurso acaba no dia 15. Catando milho na Olivetti não dá, com certeza…

 

E lamentou mais uma vez:

 

– Se ainda tivesse aquele meu computador…

 

Aquela noite era de folga das reuniões na casa do Rogério. Nada havia aparecido de novo, nenhum e-mail misterioso, Jean não telefonara mais – será que tinha ido mesmo para Curitiba? E o Juca Colosso, estaria lá no hospital?

 

Essas perguntas já não pareciam interessantes nem urgentes. Comentou o concurso com a Lucila, à noite, e ela ficou mais animada do que ele.

 

– Claro que dá, Bruno. É só você, em vez de ficar batucando na máquina de escrever, ir lá no Acessa São Paulo.

 

– Lucy, no Acessa não dá para escrever um livro, a gente tem tempo certo para ficar usando o computador, tem sempre uma fila de gente esperando. Dá para você escrever textos curtinhos, cartas, mandar uma mensagem pela internet… Livro é outro história, meu bem.

 

Até ele estranhou. Nunca haviam usado essas expressões de namorados.

 

Mas Lucila não estava para nhen-nhen-nhen nenhum. Insistiu:

 

– Se você tiver força de vontade, dá…

 

– Mas Lucy, são duas histórias, não posso deixar de lado a do roubo do computador, que estamos colocando no blog, aos pedacinhos. É ela que vai nos dar alguma pista do ladrão, se é que existe alguma pista.

 

Despediram-se com um beijo bem comportado. E Bruno foi repetindo:

 

Meu bem! Meu bem!

 

Até que era bonito. Carinhoso.

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