Conte a sua parte da história
8 - Pólos, ursos coloridos e versos
Foi uma semana de trabalho intenso. Jean ligava a toda hora, com novidades que pareciam, mas nunca eram realmente importantes. As buscas de Rogério pela internet ainda não tinham produzido nada de significativo. Bruno ia desenvolvendo as duas histórias ao mesmo tempo, e a do sumiço do computador era colocada no blog pela Lucila. Mas ninguém ainda mordera a isca. O blog, em todo o caso, ia de vento em popa – era o maior sucesso na escola, todo mundo disputava os poucos computadores para postar comentários, pensamentos, poesias, piadinhas. Até a professora de Matemática, vejam só, que só dava nota 10 para o autor do livro, resolveu postar um texto sobre a sua matéria – e, ao contrário de suas aulas, fez grande sucesso. Era assim:
“Partindo de um certo ponto da Terra, um caçador andou 10 quilômetros para o sul, 10 quilômetros para o leste e 10 quilômetros para o norte e chegou ao ponto de onde partira. Ali encontrou um urso. De que cor é o urso?
“Uma vez apresentei essa charada na sala de aula. Os alunos fizeram observações interessantes: para uns, seria impossível o caçador voltar ao ponto de partida andando 10 quilômetros para o sul, 10 quilômetros para o leste e 10 quilômetros para o norte. Estavam errados: a Terra não é uma superfície plana, mas curva. Raciocinando de novo, eles concluíram que era, sim, possível – andando naquelas três direções perpendiculares umas às outras, o caçador pode voltar ao ponto de partida – mas só se ele estiver exatamente num dos pólos, Sul ou Norte.
“Em qual pólo estava o nosso caçador?”
Choveram respostas, muitas brincadeirinhas, mas nenhuma resposta como a professora queria – não bastava dizer Norte ou Sul, ao acaso, era preciso explicar como se chegara a esse resultado (a professora prometeu dar a resposta no sábado seguinte).
* * *
No sábado, a professora explicou: o caçador estava no Pólo Norte, pois no Pólo Sul não há ursos. E no Pólo Norte só há ursos brancos.
Foi um sucesso. Na noite daquele sábado, depois de uma semana de intenso trabalho, escrevendo duas histórias ao mesmo tempo, à máquina, os computadores estavam sempre ocupados, e, ajudando Lucila com o blog, Bruno entrou em casa, morto de cansado, de forma displicente, com a cabeça nas nuvens.
Na sala, encontrou o pai e a mãe abraçados, como que esquecidos do mundo, e lembrou a maravilhosa noite que passou com Lucila, dos beijos, do carinho e da certeza de que ela era o grande amor de sua vida. Sabia que ainda era jovem, mas sabia também que algo nos últimos dias havia mudado, já não era o mesmo meninão de antes. Alguma coisa havia se transformado dentro dele, e dessas transformações brotou uma certeza: tinha muitas coisas para viver, conhecer e aprender. Estava só no começo. Olhou para os pais, sorriu, carinhoso, e, dizendo que estava muito cansado, foi para o quarto.
Trabalhara muito duro nas histórias, e estava exausto. Mas uma dúvida ainda estava atormentando seus pensamentos: deveria ou não publicar a história do roubo do computador no blog? Afinal, as pistas estavam apontando para o criminoso, mas algo ainda não estava claro para Bruno, e um pensamento lhe veio à mente: “O óbvio é o caminho dos tolos”. Tudo parecia muito certo, mas mesmo assim não podia arriscar e confiar em mais ninguém para ajudar nas investigações. Um último pensamento lhe ocorreu, antes de pegar no sono: naquela semana, haveria nova prova de Matemática.
– Mais números e nenhuma resposta! Pensou em voz alta.
* * *
O domingo começou bem, com arzinho frio e sol agradável, o que tornava o passeio à casa dos tios um bom programa, diferente dos que vinha vivendo intensamente. Era o almoço de aniversário do primo Paulo, dois anos mais velho que Bruno, grande amigo.
Em meio às brincadeiras no jardim, cuidado com muito capricho pela tia Clarice, os meninos divertiam-se, mas algo mudara: Paulo ficara um craque no futebol, mas Bruno ficara craque na leitura.
– Como jogador, sou um ótimo torcedor! Tô fora! – desculpava-se quando o primo o desafiava para um bate-bola.
– Daqui a pouco você vai ficar gordo e nem a Lucila vai te querer!!
Riram muito, lembrando os bons momentos em que passavam férias na praia, ainda pequenos, e todos diziam que pareciam irmãos, inseparáveis. Mas o tempo passou, os interesses foram se transformando, e afastaram-se um pouco, mas ainda eram grandes amigos.
Depois do almoço, Paulo apresentou outro desafio a Bruno: jogar videogame. Para espanto de Bruno, que estava completamente por fora desse universo, o primo colocou para rodar o jogo do Constantine no seu Playstation 2. Seus olhos brilharam, e ele pensou em voz alta:
– Sabia que conhecia este nome! John Constantine! O personagem da história em quadrinhos. Mas o que isso tem a ver com o Juca?
O primo, claro, não entendeu nada, e menos ainda quando Bruno gritou um tchau para todos e saiu correndo, porta afora.
* * *
– Esse menino tá muito preocupado com essa história do computador – reclamou Magda para Antônio.
– Mas o que eu posso fazer? Indagou o pai.
– Acho que a gente podia dar um jeito de comprar o computador, como presente adiantado de Natal, quem sabe ele desiste da história e esquece essa maluquice?
– O problema é que ele não esquece a história, e o computador já não é o objetivo, ele quer é terminar a história.
* * *
Lucila já estava na casa de Rogério, que já estava com o computador ligado, esperando Bruno chegar.
– Elementar, meu caro Watson! Entrou, gritando e provocando um alvoroço, como se fosse o próprio Sherlock.
– Juca não é nosso dono dos e-mails! Ele é um blefe!!
– Do que está falando Bruno? Perguntou Lucila.
– Fui ao almoço do meu primo e a gente foi jogar Playstation, e adivinha que jogo ele colocou? Constantine. Ele é um personagem de historia em quadrinhos da DC Comics, surgiu como um personagem figurante da revista Monstro do Pântano em 1985, e logo ganhou papel principal na revista Hellblazer, em 1988. Ele é um mago, aprendeu muito cedo sobre muitas disciplinas mágicas, foi vocalista de uma banda chamada Membrana Mucosa, mas depois de tentar invocar um demônio, sem sucesso para controlá-lo, acidentalmente levou uma menina junto com ele para o inferno, sendo que somente ele escapou – acabou internado no hospício de Ravenscar por dois anos. Depois disso seguiu vagando pelo mundo, para descobrir mais sobre a magia.
Um tanto arrogante, e sarcástico, Constantine é tido por muitos como um charlatão, enganador, mas a série fez muito sucesso, pois envolve histórias de terror e muito perigo. A história mais famosa de Hellblazer é Hábitos perigosos, em que Constantine vence um câncer de pulmão ao enganar o demônio. Foi essa a história que serviu de base para o filme rodado em 2005. Esse personagem é um ser que mesmo estando envolvido nas eternas batalhas travadas entre céu e inferno, defendendo o céu, não é de todo santo, mas tem suas contas a pagar. Um personagem e tanto para nós.
Lucila e Rogério se olhavam sem entender.
– John Constantine é o nome do e-mail, mas por que acha que não é o Juca, Bruno?
– Porque está muito na cara, John Constantine, Juca Colosso. Como falei, Constantine é considerado por muitos um charlatão. Isso está com jeito de alguém que quer desviar nossa atenção para esconder sua verdadeira identidade. Nessa história tem alguém mentindo, e bem.
– Mas, então – perguntou Rogério – você não acha melhor a gente tentar falar com ele? Se você tem tanta certeza, a gente precisa descobrir se ele está do nosso lado e como sabe tanto sobre o computador roubado. Será que ele sabe da história lá dentro, também?
Juntaram-se na frente do computador. Encontraram uma nova mensagem:
“Sei q vcs estão investigando o roubo”.
Bruno respondeu:
– Você tem olhos nas costas ou demônios nos vigiando?
Ficaram com os olhos fixos na tela, esperando a resposta. Bruno achou que tinha dado bandeira demais ao falar de demônios, mas tinha de dar uma cartada para conseguir arrancar alguma pista.
A resposta demorou, deu tempo para Bruno pensar algo diferente.
– Não sou seu inimigo. Apenas sei de informações que podem te ajudar a achar teu computador. Afinal quem sabe conseguimos nos ajudar?
Bruno ficou irritado:
– Quem é você? Sei que não é quem tenta parecer. Sei que está perto, diga onde.
– Bruno, você está maluco? Assim o cara não responde mais – reclamou Lucila.
– Realmente, não veio resposta pelo e-mail.
Mas o celular do Bruno tocou:
– Alô?
Era Jean, o detetive.
– Bruno, tenho más noticias.
– O que aconteceu?
– A tal mulher lá do depósito foi à delegacia pra dar queixa de que o funcionário dela tinha sumido. Descobri que era o Juca, mas seu nome verdadeiro era Olegário Pereira. Com a ajuda de uns amigos descobri que ele havia ido para a casa de uma namorada, lá no Rio Grande. Liguei para lá, mas ela também estava procurando por ele.
– Mas o que aconteceu afinal? Como assim, não estava lá?
– Descobri que o ônibus em que ele viajava sofreu um acidente, e os passageiros foram mandados para os hospitais que tinham vaga. Parece que ele está internado em Curitiba, no Hospital Cajuru. O acidente foi feio, mas acho que sobrevive. Vou continuar minhas investigações para ver se consigo descobrir mais alguma coisa. Amanhã bem cedo vou para Curitiba e se esse Juca sabe de alguma coisa, vou descobrir.
– Bruno o que aconteceu? Você está branco? Quem era no telefone? – perguntou Lucila, alarmada.
– Eu estava certo, não é o Juca que manda as mensagens de e-mail.
– Como assim? Perguntou Rogério, já sentindo um friozinho na barriga e uma curiosidade enorme.
– Era o Jean, ele descobriu que o Juca sofreu um acidente indo para o Rio Grande do Sul, e está internado em um hospital em Curitiba. Não está bem, mas não corre risco de vida.
– Então ele não pode estar conversando conosco pela internet. Mas quem pode ter acesso a todas essas informações?
– Calma, Lucila, a gente vai descobrir. O que a gente não pode é perder o rumo agora.
Já anoitecera, e acabaram decidindo que ficar na casa de Rogério seria a melhor solução. Ninguém, depois de tudo que acontecera, queria arriscar-se a sair para a rua naquela hora da noite. Ligaram para os pais, e avisaram que na manhã seguinte iriam para casa.
Bruno sabia que sua história na internet tinha gerado aquela situação, mas não podia parar agora. Estavam mais perto do que eles imaginavam, e havia mais pessoas envolvidas. Juca tinha saído assim tão depressa por nada? Quem mandava as mensagens conhecia seus hábitos, como continuariam dali não sabia. E Pirão? E Coquinho? Quem eram?
E Rogério, como que se estivesse conversando com ele mesmo, jogou mais uma lasquinha naquela enorme confusão:
– Por que esse Jean está fazendo tudo isso? Trabalha dia e noite na investigação, vai viajar para Curitiba… Com dinheiro de quem? O que ele está ganhando trabalhando desse jeito?
E Bruno fez como se respondesse ao amigo, trocando de assunto:
– Olegário… Conheço um Olegário… Dos livros que o seu Joaquim fez a gente ler no semestre passado. E foi recitando, como se fosse a coisa mais natural e simples do mundo:
Quando passa o áureo momento,
Vem a tragédia em três atos.
Três atos
Com um epílogo. Depois,
Um noivado, um casamento,
Um bruto arrependimento
E no fim vem o divórcio entre os dois.
Bruno sorriu… Olegário Mariano, o poeta pernambucano, da Academia Brasileira de Letras, que coisa mais engraçada, como é que lembrara daqueles versos tão sem sentido?
– Entre mim e Lucila isso não vai acontecer, podes crer, seu Olegário.
* * *
Quando se reencontraram na escola, Bruno foi conversar com Rogério.
– Alguém querendo me ajudar? Quem e por quê? Rogério, aquela mensagem do tal JC continua martelando na minha cabeça. Acho que deveríamos ir atrás e apurar quem ele é. Tenho um plano, cara, veja se dá certo..
E foi desfilando suas idéias para o amigo: “Você disse que a mensagem foi rastreada e que ela foi enviada de um computador em São Paulo, do campus de informática da universidade. Correto?
– Correto – respondeu Rogério.
– E que o endereço eletrônico é john-constantine@gmail.com, certo?
– Certo.
– Então, salvo engano, qualquer mensagem precisa de um computador para ser encaminhada, ou seja, precisa de um hardware?
– É, precisa de uma máquina para mandar as mensagens.
– E este equipamento está no campus da universidade, não é? Minha idéia é simples: não adianta termos o endereço eletrônico do JC, porque só isso não irá revelar a identidade dele. Então, como diria o Milton Nascimento: “todo artista precisa ir onde o povo está.” Ou seja, nós precisamos ir até o campus de informática da universidade e, lá, darmos o bote no sujeito que enviou essa mensagem, ou, pelo menos, tentarmos descobrir de qual computador da universidade elas estão sendo enviadas.
Foi a vez de Rogério coçar a cabeça e franzir o rosto, demonstrando uma expressão que beirava a estranheza e a expectativa, mas não deixou de ser irônico ao responder:
- Ok, ok. Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, mas como nós faremos para entrar no campus da universidade? Nem eu nem você prestamos o vestibular para sermos universitários. Tá bom, dois moleques entrando lá, na maior, falando bom-dia e boa-tarde pros guardas do campus, e você acha que ninguém vai notar?
Bruno sabia que Rogério sempre fazia o papel do advogado do diabo. Isso era bom, em parte. Concordou com ele. Mas logo seu olhar se iluminou de novo.
– Já sei! Podemos inventar que somos alunos do ensino médio e que fomos até lá para fazer uma pesquisa solicitada pela professora de Matemática ou, sei lá, pelo professor de Literatura. Aí, nós entramos no campus e a coisa fica chuchu beleza. – disse sem esconder a alegria pela boa idéia que brotara.
Rogério pôs a mão no queixo e retorquiu, como bom advogado do diabo:
– É, a idéia não parece ser ruim. Só tem uma coisa:
– O quê?
– Uma não, duas: primeiro, como vamos saber quem é o cara que se senta ao computador e manda as mensagens e, segundo: por se tratar de um campus de informática ele ter um monte de computadores, vamos ter que sentar na frente de um por um para vasculhar os arquivos?
Parece que agora o amigo tinha convencido Bruno de que a idéia, apesar de boa, era impraticável. Mas Bruno não desistiu:
– E se a gente não fosse a gente?
– Cume qu’é? – perguntou Rogério, não entendendo mais nada. “Deu tilt, coitado”, pensou.
– É, veja só: e se nós enviarmos uma mensagem ao JC dizendo que “nós” temos pistas importantes sobre o paradeiro do computador e que essas pistas poderiam ajudar “aquele” garoto, o tal do Bruno? Inventaríamos outro nome qualquer e um outro apelido, marcamos um encontro com o cara no campus da universidade para mostrar-lhe as tais pistas e, pimba!, damos o flagra no sujeito.
Agora a coisa estava ficando mais clara e mais interessante. Rogério começou a gostar da idéia. No entanto, fez algumas ponderações:
– É, parece que isso dá pra fazer. Mas a mensagem não pode ser encaminhada do meu computador, NÉ? Aí não vai adiantar nada. O cara vai sacar na hora quem verdadeiramente nós somos.
– Isso eu sei. E se nós formos até uma…
Rogério cortou seco, antes dele concluir:
- Lan house nem pensar. Tô sem um conto no bolso.
Bruno emendou:
– Calma, meu. Você nem espera eu terminar de falar. Eu ia dizer que a gente poderia ir até um posto do Acessa São Paulo ou uma agência do Poupatempo. Foi você mesmo quem deu a idéia de irmos nesses lugares usar os computadores de graça. Lá passam centenas de pessoas por dia, ninguém vai desconfiar. E aí, o que você acha?
Rogério sentiu firmeza na idéia de Bruno. Disfarçar-se como um espião, pensou, daqueles do tipo 007. “Bond, Rogério Bond, ao seu dispor.”
Precisariam refinar o plano, mas ele parecia bom. Quem sabe…
20º BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DE SÃO PAULO
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