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7 - Aulas inúteis de Geografia
A mente de Bruno parecia ter sido invadida por um tornado capaz de revirar seus pensamentos de cabeça para baixo. Era como se tudo em sua vida resolvesse acontecer ao mesmo tempo. Durante a aula de reforço, a única coisa em que não conseguia pensar era nos números e cálculos transcritos pela professora Gisele no antigo quadro verde da sala 28. O roubo do computador havia transformado sua vida em uma estrada repleta de cruzamentos, e isto o obrigava a decidir, a todo momento, sobre o que fazer e em quem confiar.
Nunca imaginou que aquela aventura apresentaria tantos riscos e exigiria tantas decisões. A criação do blog se revelara uma idéia fantástica, mas, com a evolução dos trabalhos e as últimas conseqüências inesperadas, não seria possível prever onde poderiam chegar. Tudo parecia uma grande loteria.
Depois de ter lido diversas vezes o e-mail que recebera, já não sabia mais se a idéia de escrever sobre as aventuras de Chico no blog era segura. Se o criminoso tivesse contato com o texto, como havia sugerido Lucy, as conseqüências poderiam ser graves até mesmo para a garota. Resolveu abandonar a aula antes do final, não lhe serviria de nada se continuasse a pensar nessas coisas todas durante as explicações de Gisele.
Na verdade, abandonos durante aquela aula eram comuns, já que se tratava de um opcional no currículo da escola, um benefício concedido ao aluno, e não uma obrigação. Precisava pensar no que fazer. Durante a reunião do grêmio, com Lucila a seu lado, os pensamentos foram diferentes. Olhares, toques suaves sobre as mãos, levaram-no a esquecer aquela realidade. Ali, era o sonho. Porém, quando recebeu de Rogério a informação, mesmo com a garantia de que não seriam descobertos, sentiu-se mais próximo do criminoso e, com isso, mais próximo do perigo. E da realidade.
Sabia de um lugar onde seus pensamentos poderiam ser guiados por palavras sábias e fiéis. Subiu ao segundo andar e caminhou até o fim do corredor. Uma porta de duas folhas dividia os ambientes, empurrou-a com as mãos, com a segurança da longa intimidade, e entrou. O cheiro inconfundível do saber parecia abastecê-lo de confiança. O pequeno acervo da biblioteca da escola não chegava aos pés da Biblioteca Nacional ou do complexo Mário de Andrade, mas atendia perfeitamente a seus anseios. Cinco mesas circulares, cada uma com seis cadeiras, e alguns computadores, limitavam a área de pesquisa, cercada por altas prateleiras de livros. Sem pensar, Bruno caminhou entre os livros, procurando algo que pudesse ajudar a decidir.
Correu os olhos entre romances, livros de ficção científica, enciclopédias, contos e, por fim, poesias. Não se considerava entre os mais entendidos do tema, mas por muitas vezes se via lendo versos e decorando linhas que pudessem ajudar a conquistar o coração de Lucy. Não sabia dizer por que, mas sentia que ali, nos mesmos versos que o levaram ao coração da namorada, poderia encontrar uma resposta para sua angústia. Correu os olhos sobre os livros de vários poetas: Clarice Lispector, Ferreira Gullar, Graciette Salomon, Judas Isgorogota, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond, Cecília Meirelles…
O professor Joaquim falava muito de Cecília Meirelles, do Romanceiro da Inconfidência, nunca lera suas poesias, mas parecia ter chegado a hora.
Sentou-se em uma das mesas e folheou um livro que parecia ser um resumo da obra da poeta. Entre peças, versos e canções, sua confiança ressurgia. A magia das palavras lhe trazia tranqüilidade, mesmo que nenhum dos textos, aparentemente, pudesse ajudá-lo a decidir. Porém, como um garimpeiro em uma grande montanha, no seu caso uma montanha de versos, Bruno acabou encontrando sua pepita. Sorrindo, sentiu de volta a segurança que o fizera chegar até ali. Estava decidido, seguiria em frente, pronto a se arriscar.
Soltou o livro sobre a mesa e saiu. No centro de uma das páginas que ficaram abertas, era possível ler uma poesia:
INSCRIÇÃO
Quem se deleita em tornar minha vida impossível por todos os lados?
Certamente estás rindo de longe,
ó encoberto adversário!
Mas a minha paciência é mais firme
Que todas as sanhas da sorte
Mais longa que a vida, mais clara
Que a luz do horizonte.
Passeio no gume de estradas tão graves
Que afligem o próprio inimigo
A mim, que me importam espécies de instantes,
Se existo infinita?
* * *
Magda estava aflita. A cama de Bruno intacta, logo cedo, denunciava: ele não dormiu em casa. Pela sua cabeça de mãe passavam os piores pensamentos: “Será que levaram meu filho?”, “teria sido o ladrão do computador?”, “pediriam resgate”, “estaria ele ainda vivo?”, enfim, as hipóteses mais terríveis lhe vinham à mente.
Sentou-se na cama de Bruno e não teve forças nem para pedir ajuda. Os dois minutos de pânico foram interrompidos quando Antônio passou pelo quarto e, serenamente, constatou:
– Magda, parece que Bruno dormiu fora de casa.
– Parece que dormiu fora de casa? É isso que você diz? E nessa calma toda? Nosso filho está metido em uma investigação sobre roubo, que é trabalho da polícia. O objetivo do roubo parece ter sido exatamente uma história que ainda está na cabeça dele. Isso o faz também um alvo para esse ladrão, ou quem sabe essa quadrilha, ou até mesmo uma máfia. Nosso filho corre risco de morte, pode ter sido seqüestrado, pode até mesmo estar morto neste momento e você me responde assim, com essa calma?
Antônio, que conhecia muito bem a esposa nervosa e exagerada com quem vivia, respondeu novamente com calma:
– Você já ligou para o celular do Bruno, para saber se ele está bem e descobrir onde passou a noite?
– Não – respondeu a mulher, surpresa consigo mesma, por não ter tido essa iniciativa, tão simples e prática.
– Então, depois que ligar, voltamos a falar sobre esse assunto – sentenciou Antônio, com ar irônico e a mesma calma. E foi para a cozinha, preparar seu café. Magda pega o telefone e liga para o filho.
Toca o celular de Bruno, tinha acabado de fugir da aula de Matemática, era de casa que chamavam. Sabia que era a mãe, aflita como sempre. Durante aqueles três toques, Bruno pensou no que havia feito naquela noite, que não havia avisado nada sobre dormir fora e que não havia ao menos pensado em uma desculpa para a mãe. Atendeu:
– Alô, mãe, bom-dia – caprichou na aparência de normalidade.
– Você está bem, Bruno? – perguntou ela, ainda ansiosa.
– Calma, mãe, estou sim – emendou Bruno.
– Onde você está, ou melhor, onde você esteve? Onde dormiu? Estou morrendo de preocupação!
– Ô mãe, me desculpe, não liguei para não te acordar, pois estava muito tarde e achei perigoso vir da casa da Lucila a pé, sozinho. Dormi lá – e sentiu uma ponta de remorso por ocultar o detalhe de que os pais da namorada tinham viajado.
– Ah, bom! Que susto tomei, Bruno, quando levantei cedo e vi sua cama ainda arrumada. Mas nunca deixe de me avisar, filho, seja a hora que for. Prefiro que me acorde a levar esse susto logo cedo.
– Tudo bem, mãe, não foi por mal – respondeu, aliviado e se despedindo.
O celular tocou de novo, imediatamente. Desta vez era Jean, o investigador:
– Bruno, Humaitá não existe apenas no Estado do Amazonas. Tem Humaitá também no Rio Grande do Sul, no norte do Estado. Ainda não sei nada sobre a cidade gaúcha, mas sobre a amazonense já tenho informações.
– Verdade? E quais informações? – perguntou Bruno, animado.
– Humaitá fica na Rodovia Transamazônica (BR-230) e não há ônibus direto de São Paulo para lá. Existe, porém, uma linha que sai do Terminal do Tietê e vai para Porto Velho, capital de Rondônia. Daí é preciso trocar de ônibus e seguir para Humaitá. No total a viagem pode demorar até três dias, até um pouco menos. A distância é de 3,2 mil quilômetros, sendo 3 mil até Porto Velho e mais 200 até Humaitá. Parecia uma aula de Geografia. Mas o bravo investigador tinha mais o que contar:
– Estou checando a lista de passageiros desse ônibus de São Paulo à Paraíba. Devo ter resposta ainda hoje.
– Obrigado, me mantenha informado, por favor. Eu lhe agradeç… – Antes que Bruno terminasse a frase Jean já havia desligado. Mas ele não se importou e foi logo contando a novidade para Rogério e Lucy.
O amigo correu para o computador instalado na biblioteca para pesquisar Humaitá.
Encontrou exatamente o que Jean havia informado e muito mais. Na Wikipedia, localizou seis artigos sobre Humaitá designando, cada um, uma Humaitá diferente.
* Humaitá - município brasileiro do Estado do Amazonas;
* Humaitá - município brasileiro do Estado do Rio Grande do Sul;
* Humaitá - bairro do município do Rio de Janeiro;
* Humaitá - bairro do município de Porto Alegre;
* Rio Humaitá - rio brasileiro do Estado do Acre;
* Fortaleza de Humaitá - a mais poderosa e temida fortificação paraguaia à época da Guerra da Tríplice Aliança.
– Mais Geografia, pensou Bruno, mas não reclamou.
Aparentemente, Jean está certo em investigar as duas cidades homônimas, pois os bairros carioca e porto-alegrense eram hipóteses muito remotas para serem o destino de Juca Colosso. O Rio Humaitá e a Fortaleza paraguaia, mais ainda.
Acessando o Google Maps, Rogério viu a Humaitá amazonense no mapa e percebeu que a cidade fica no entroncamento da rodovia Transamazônica com as BRs 319 e 174. A primeira liga Porto Velho a Manaus, com 880,4 quilômetros; a última chega à cidade de Pacaraima, em Roraima, fronteira do país com a Venezuela, com 992 quilômetros e um detalhe muito importante: “Atravessa ainda a área indígena Waimiri-Atroari, localizada na região de divisa entre Amazonas e Roraima. A rodovia é fechada neste trecho durante a noite e é recomendável não parar dentro da reserva”.
Bruno e Lucy, mesmo já um pouco ambientados com o universo mágico da internet, ficaram embasbacados ao verem a performance de Rogério e as possibilidades que a Web trazia para o estudo. Era informação demais em muito pouco tempo e com agilidade inimaginável alguns anos atrás. Incrédulo, Bruno ainda perguntou:
– Você achou tudo isso agora, na net?
– E achei mais ainda – continuou Rogério, todo orgulhoso. – A Rodovia Transamazônica (BR-230), projetada pelo general Emílio Garrastazu Médici (ditador de 1969 a 1974) sendo uma das chamadas “obras faraônicas” devido às suas proporções gigantescas, realizadas pelo regime militar, é a terceira maior rodovia do Brasil.
Pulou, imediatamente, de volta ao Rio Grande do Sul: Humaitá, no Rio Grande do Sul, fica no noroeste do Estado, quase na divisa com a Argentina. E tem cerca de cinco mil habitantes.
Lucy enjoou de tanta Geografia:
– Espere aí, Rogério. É muita informação, mas em que isso nos ajudaria?
– Elementar, minha cara Lucy. Se o investigado Jean encontrar uma lista de passageiros com o nome de Juca Colosso, podemos dar à polícia mais informações para o segundo passo da investigação e, assim, ganhar tempo e impedir que o Juca vá para ainda mais longe.
– Entendi – disseram os dois, ao mesmo tempo. Riram da coincidência, se olharam e se beijaram.
Até Rogério, que era pouco observador, notara que Bruno e Lucila estavam diferentes, mais melados um com o outro, mas ainda não sabia o verdadeiro motivo.
Reunião do grêmio mesmo não houve. Pelo menos para os três, não. Pois, não ouviram nada, só conversaram sobre o assunto que não deixava suas mentes em paz. Enquanto ouvia algumas discussões do grêmio, estavam como que em outro planeta, pensando no que diriam um ao outro na próxima pausa, na próxima oportunidade.
* * *
Apesar de ser um sábado, Jean trabalhava incessantemente no caso do computador de Bruno. Em pé, em frente ao aparelho de fax, esperava a impressão da lista completa dos passageiros do ônibus, que partia duas vezes por semana, de São Paulo para João Pessoa. Era o embarque da primeira viagem desse percurso após a data do roubo.
– Antunes, Benedicto, José Alves, José Antônio, José Carlos, José Luiz, Lívia, Madalena, Maria da Conceição, Maria José, Maria do Socorro, Rodrigo, Raimundo, Raimundo, Raimundo, Saturnino Vitor, Zélia… Pôxa, não tem nenhum Juca nessa lista de passageiros – concluiu Jean, desapontado, mas pediu logo que lhe enviasse a lista dos embarques seguintes.
Enquanto ligava para pedir os embarques seguintes chegava também o fax dos passageiros de São Paulo para Porto Alegre que embarcaram em seguida para Barra do Quarai, tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Uruguai, pela BR-472, possível destino de Juca se fosse para a Humaitá gaúcha. Verificou a lista e nada de Juca também, entre os 48 passageiros brasileiros e um argentino.
Jean ligou logo para Bruno. Precisava lhe dar essa informação, mas ainda mais importante era dizer-lhe que a investigação continuaria e esse era só o começo da busca por possíveis pistas.
O celular de Bruno tocou pela terceira vez.
– Alô, Bruno. Tenho boas e más notícias.
Sem-cerimônia, Bruno nem respondeu ao “alô” de Jean:
– Diga logo as más.
– Não há nenhum Juca na lista de passageiros para o Nordeste, nem para o Sul.
– E a boa?
– Que esse é só o começo da investigação e temos muito a verificar ainda.
“Que bela notícia”, apenas pensou Bruno. Depois de dois segundos de silêncio, mostrando um nítido desapontamento, perguntou:
– Certeza que não há nenhum Juca?
– Certeza, nenhum Juca entre os 44 passageiros que foram para a Paraíba e nenhum também entre os 48 brasileiros e um argentino que foram para o Rio Grande do Sul.
Como um sexto sentido, Bruno sentiu uma desconfiança de que algo podia estar errado por trás desta última informação: um argentino. Não teve dúvida e perguntou:
– Qual o nome do argentino?
– Por quê?
– Só curiosidade mesmo.
– Deixe-me pegar a lista… O nome dele é Juan Constantino.
Bruno agradeceu e desligou sem se despedir, como Jean já havia feito. Estava quase paralisado. Juan Constantino. JC. John-Constantine. JC. Juca Colosso. JC.
* * *
Por mais que as coisas começassem a caminhar, Bruno não conseguia parar de pensar na inesperada viagem de Juca. Com certeza, essa viagem o deixara com a pulga atrás da orelha. Teria Juca fugido ou ido ao encontro de Pirão? Do Coquinho? Mais uma pergunta sem resposta, pelo menos por enquanto. Decidiu-se, mais uma vez:
– Segunda-feira passo no depósito e falo com outra pessoa, quem sabe pode me dizer alguma coisa mais sobre o Juca e a viagem.
E assim fez. Não eram nem sete horas e ele já estava no local para executar o plano. A mulher que veio atendê-lo, no portão, chamava-se Maria Ângela, a chefe de Juca, ou alguma coisa parecida com isso, ninguém melhor para esclarecer tudo!
Tudo? Quando Bruno se identificou como amigo de Juca, Maria Ângela respondeu rápido:
– Que bom garoto! Estou à procura de algum conhecido do Juca, para saber dele, viajou sem me dar nenhuma satisfação. Você sabe me dizer por onde ele anda?
– É justamente por esse motivo que vim até aqui, eu também estou à procura do Juca!
Lembrando de uma antiga dúvida, Bruno perguntou: Juca é um apelido, não é? Como é o nome dele mesmo?
Maria Ângela desconfiou:
– Ora, você não sabe? Me disse que é amigo dele!
– Sim, mas eu só o conheço por Juca mesmo.
– O nome dele é Olegário Pereira, Juca foi um apelido que deram para ele aqui, pois parecia com um tal de Juca de alguma novela, não sei direito.
Bruno foi embora pensativo. O nome não tinha, a princípio, nada de estranho, mas toda aquela investigação do Jean com as listas de passageiros tinha sido inútil. Haveria algum Olegário naqueles papéis?
Olegário… E outra questão intrigante: como ele viajou sem ao menos comunicar sua chefe? Por quê?
* * *
Depois da aula, reunião outra vez na casa do Rogério. Era preciso cuidar do blog.
Blog tem disso, tem de cuidar todo dia, toda hora, se não desanda, como bolo mal batido, como sempre dizia a mãe do Bruno. Era tarefa da Lucila, e ela não quis que ninguém ajudasse. Embora sem experiência, tinha lá umas idéias para incrementar a coisa – encher as telas de notícias, notas, fofocas da escola. O resto da internet que se danasse, ela queria focar (fofocar?) era naquele mundinho que estava ao redor deles.
Rogério deixou o computador com ela, o trabalho de rastrear as pistas que porventura existissem na rede, papear com os internautas, tentar descobrir quem soubesse alguma de um computador e uma história – um pedaço de uma história – roubados, tudo isso ele faria melhor à noite.
E Bruno foi para a Olivetti cuidar das duas histórias que ocupavam sua cabeça: a do sonho do Pirão, no ônibus, que parecia ter provocado toda aquela confusão, que eles colocariam na rede para ver o que dava de volta; e a nova, toda essa revolução na vida deles, que, pressentia, daria um livro ainda melhor, mais real, de horizontes amplos, infinitos talvez.
Que importava o roubo de um computador diante da realidade de três jovens, cheios de vigor e esperança, que começavam a descobrir, cada um a seu jeito, o mundo que os aguardava no futuro?
20º BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DE SÃO PAULO
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