Conte a sua parte da história
5 - Aqui esteve o Noronha
Na manhã seguinte, antes de Bruno acordar, Magda queixou-se ao marido que o menino estava indo longe demais com tudo aquilo. Ela entendia que o filho gostava de criar histórias, mas também sabia que a vida não era só isto.
– Por exemplo, ela disse, ele tem prova de Matemática amanhã e quem diz que pegou no livro pra estudar? Ontem, ele foi direto para a casa do Rogério, depois do colégio, e ficou até tarde lá sem dar satisfação. Ele nunca fez isto antes. Esse roubo do computador está mexendo com a cabeça do menino.
Antônio sorriu, despreocupado.
– E você ri? É só isto que sabe fazer? Você precisa falar com ele.
– Bem, não entendo essa sua preocupação toda. Só se a gente não conhecesse o nosso filho. Poxa, ele é obediente, amigo, inteligente, só dá orgulho pra gente. O Bruno é um filho de ouro, criatura. Eu ouço as coisas que meus amigos contam dos filhos deles, as reclamações que fazem, quando comparo com o Bruno só dou graças a Deus por ter um filho maravilhoso como ele.
Magda concordou, mas continuou preocupada: Bruno poderia estar correndo outros riscos: se o computador tinha sido roubado porque tinha a tal história lá, o criminoso que fez aquilo podia querer fazer alguma coisa com o menino agora, para apagar definitivamente a história.
– Eles podem querer seqüestrar nosso filho, matá-lo, Antônio – disse Magda bastante nervosa – porque a história ainda continua dentro do Bruno. Não está no computador, mas está na cabeça do nosso filho. Você ainda não pensou nisto?
Dessa vez Antônio balançou. Não é que Magda estava com a razão? Sentiu o corpo esquentar, como sempre acontecia quando estava excitado.
– Não me sinto mais tranqüila nesta casa, bem, e nem confio em deixar o Bruno andando pra lá e pra cá sozinho, como se nada tivesse acontecido.
– Bem – ela falou num tom mais alto, como se o estivesse chamando à distância – o bandido está à solta e quem me garante que ele não está preparando algo pro nosso filho?
Antônio tinha que concordar com Magda. Mas que fazer? Deveriam mudar daquela casa? Pedir proteção policial para o filho? Como conseguir isto?
Quando Bruno desceu para o café, o pai já tinha saído.
Sentou-se à mesa, mas deixou a comida quase toda no prato. Estava visivelmente preocupado e abatido.
– Filho, foi só um computador, estamos todos bem, disse Magda para quebrar o silêncio.
– Não, mãe, não foi “só um computador”, foi o computador que eu ganhei, tinha um valor muito especial pra mim e tinha o começo da minha história lá dentro. Vamos ter paciência mãe, o pai pode comprar outro só no Natal, como prometeu. Quem sabe se não o achamos antes? Estamos procurando, o Rogério está ajudando, a Lucila também vai ajudar. Acho até que vamos descobrir e pegar esses ladrões.
Magda ficou ainda mais assustada com o tom decidido do filho, mas não deu bandeira.
Bruno saiu de casa direto para o depósito, sem nem lembrar da prova de Matemática, que detestava. Quem salvava a sua pele, nas provas como a do dia seguinte, era Lucila. Estava um ano atrás dele, na escola, mas já sacava quase tudo que ele estava aprendendo lá na frente. Ou melhor, que ele devia estar aprendendo lá na frente, mas não aprendia. Incrível como ela tinha um pensamento lógico, ajustava as coisas uma a uma, em ordem, os números, e logo encontrava o caminho para resolver, mesmo sem conhecer as fórmulas, sem ter aprendido como resolveram o mesmo problema antes dela. Por isso o Rogério, que também era assim, sugeriu que ela cuidasse do blog. Tinha certeza de que ela daria conta do recado, mesmo sem saber quase nada de navegação na internet.
Bruno, não. Gostava mesmo era das aulas do seu Joaquim, literatura, os poetas todos que estava conhecendo, Manoel Bandeira, Carlos Drummond, o Vinicius de Moraes, que os amigos achavam que era só um compositor de letras para as músicas da Bossa Nova, que não era a deles, claro, pois o Vinicius era um grande poeta, tinha livros publicados, seu Joaquim sempre falava dele. E o Fernando Pessoa, então? Esse sim, era demais.
Tinha decidido procurar o Juca. Afinal, por que temê-lo? Precisava olhar na cara do Colosso, sentir o comportamento dele. Juca nunca tinha sido agressivo com ele, ao contrário, tinha sido sempre um camaradão. Bruno se divertia muito com as coisas que o Colosso contava, as brincadeiras que ele fazia. Custava a acreditar que o Juca pudesse ter roubado seu computador. O Colosso podia ser um cara turrão, e era, difícil de ser convencido às vezes, mas jeito de pessoa que quer conseguir as coisas à força, agir com violência, isso não. O Juca mesmo disse que era muito religioso, que detestava a violência, o banditismo. Sentira na própria família o mal que isso pode trazer, pois mataram seu irmão num assalto sem sentido – ele não tinha dinheiro nenhum, coitado.
É verdade que, num primeiro momento, quando descobriu que o computador sumira, ele suspeitou do Juca, mas agora, refletindo melhor, lembrando-se da amizade que eles desenvolveram, queria acreditar que o Colosso era inocente e até poderia ajudá-lo a solucionar o caso. Por isto, naquela manhã, de sopetão, sem falar nada com ninguém, nem com o Rogério, resolveu procurá-lo antes de ir para a escola.
Bruno tocou a campainha barulhenta do depósito e esperou. Suas mãos suavam frio. Ele as enxugou na bermuda. Estranho, o coração estava acelerado. Pensou como as coisas mudam na vida. Nunca, nunca antes ele sentira algo semelhante. Quantas vezes tocara aquela campanhia, sempre calmo, sempre ansioso para ver Juca e conversar com ele, ouvir seus casos, rir de suas brincadeiras. Nunca havia percebido se Juca demorava ou não para atender, mas naquela hora parecia que o Colosso estava demorando uma eternidade. Estranho, estranho mesmo como a gente se comporta de maneiras diferentes, mesmo em situações semelhantes. O que era diferente agora era que o Juca que ele esperava que abrisse a porta do depósito, era o Juca de quem ele suspeitara e… talvez ainda suspeitasse? Bruno não sabia dizer.
O portão abriu. Não era o Juca que veio atender. Era o rapaz que ficava anotando a entrada e a saída das mercadorias do depósito. Sabia das conversas do Bruno com o vigia, eles estavam quase todo dia juntos, por isso foi logo avisando, como quem estivesse com pressa de voltar para seu trabalho:
– Juca não está. Viajou.
Bruno sorriu amarelo.
– Viajou? Para onde?
– Sei lá. Foi ver o pai, parece que ficou doente. Lá pro Nordeste.
Bruno ficou sem saber o que fazer nem o que falar. Perguntou de novo:
– Que lugar do Nordeste? Bahia, Pernambuco, Ceará?
Tentava ir se aproximando, fixar um território, se fosse preciso procurar o Juca, pelo menos saberia onde era.
Mas o anotador não estava com vontade de ajudar, e nem sabia nada de útil.
– Parece que chama Humaitá. Num sei onde fica, não.
E fechou o portão.
Era mais um problema para o Bruno decifrar. Logo ele, que não gostava da Matemática, de resolver problemas. Foi para a escola com a cabeça rodando a mil.
***
Depois das aulas, reunião na casa do Rogério, para tratar do blog. Lucila também foi. Estava diferente, ela mesmo se achava diferente. Embora o Bruno estivesse com a cabeça cheia de preocupações, pensando no computador, na história que estava na memória dele, nos ladrões que o levaram, tentando descobrir por quê, ela não o sentia mais distante. Não sentia mais ciúme do computador. Não sentia mais ciúme de nada, nem de ninguém. Na verdade, pela primeira vez, desde que começaram a namorar, estavam juntos de verdade, para o que desse e viesse.
Lucila estava feliz da vida. E foi enfrentar o blog sem hesitar, disposta a tudo fazer direitinho para ajudar o Bruno. Quem diria! Dois dias atrás, Magda e Antônio, que estavam por dentro do que acontecia no namoro, nem sonhariam com uma coisa dessas – Lucila disposta a fazer tudo que pudesse para o Bruno recuperar o computador.
Dessa vez não estavam só na casa do Rogério – estavam também no território que era dele e de mais ninguém: a Informática. O mestre começou ensinando o que tinha aprendido na Wikipedia:
“Um weblog, blog ou blogue é uma página da Web cujas atualizações (chamadas posts) são organizadas cronologicamente de forma inversa (como um diário). Estes posts podem ou não pertencer ao mesmo gênero de escrita, referir-se ao mesmo assunto ou ter sido escritos pela mesma pessoa. E os sistemas de criação e edição de blogs são muito atrativos pelas facilidades que oferecem, pois dispensam o conhecimento de HTML, o que atrai pessoas a criá-los”.
Não ajudava muito, claro. Rogério precisava explicar melhor.
Primeira coisa: precisariam pagar para ter um blog? A questão era grave, pois eram “duros”, ninguém tinha dinheiro sobrando para coisa alguma. Bingo! Era grátis, disse o Rogério. Que depois passou a falar do Blogger e do Wordress, as duas ferramentas para construção de blogs mais recomendadas pelos internautas. Bruno e Lucila ficaram orgulhosos e envaidecidos dos progressos feitos, sentiam-se já como verdadeiros internautas, eles que na véspera mal sabiam trocar mensagens de e-mail.
O passo seguinte era dar um nome atraente para o blog – uma estratégia para atrair os primeiros leitores – e conseguir formar uma comunidade virtual – assim a investigação do furto do laptop começaria a ganhar força.
– Ei Bruno, o que você acha de “Poirot e Holmes – Uma fenda para a literatura policial”? Não é um nome legal?
A proposta foi da Lucila.
Legal? Era legal, mas Rogério, o sabidão, advertiu: “Elementar, caros amigos: muito comprido”. Ficaram quebrando as cabeças para descobrir outro. Concordaram, de saída, que seria bom ter no nome a palavra “mistério”. Foram necessárias três rodadas de coca-cola e uma boa dose de cansaço para que Rogério, finalmente, acendesse a luz, pegando a própria frase com que derrubara a primeira proposta.
– Que tal “Caros amigos dos mistérios”?
Não parecia o melhor, nem muito atraente, mas àquela altura… E com uma prova de Matemática pela proa, não era o Bruno que iria reclamar. Mesmo porque, blog era lá com o Rogério e a aprendiz Lucila. Ele entraria com a Literatura. Ele? Muito melhor, o seu Joaquim, que já lera todos os livros, sabia de tudo, conhecia todo mundo nesse universo, brasileiros e estrangeiros.
Bruno, claro, exagerava a capacidade do professor de quem gostava tanto. Mas conseguiu a aprovação de todos: seu Joaquim ia escrever um artigo semanal no blog, um post como preferia dizer o Rogério. Claro, faltava convencer o seu Joaquim, que sabia ainda menos do que eles, Bruno e Lucila, de blogs e internet.
***
Uma semana depois o blog estava no ar. Inteirinho construído pelo Rogério, que sabia alguma coisa também de webdesign. Colosso não tinha voltado, nem dado sinal de vida. Bruno recebera um 2,5 na prova de Matemática porque a professora, meio antipática, gostava de dizer: “10 só para o autor do livro; 0 só para aluno morto”.
Bruno, claro, estava mais vivo do que nunca. Tinha a Lucila todo o tempo ao lado, faziam tudo juntos, uma agarração que as amigas dela repararam e começaram a falar, pura inveja, claro. Seu Joaquim, que tinha ficado apavorado e orgulhoso, ao mesmo tempo, com o convite para escrever, tinha arranjado na prosa, não na poesia de Fernando Pessoa, o tema para o seu primeiro post. Bem apropriado para eles, empenhados naquela busca insana, parece até que foi de propósito. Vejam só:
“Contou em tempos um jornal americano que um explorador casual, que por ousadia se aventurou por uma garganta intransitável das Allegheny, ficou, em certa altura da viagem que tinha por única naquelas paragens das cordilheiras, surpreendido com o aparecimento, numa parte lisa de um rochedo escuro, de umas breves palavras gravadas, evidentemente com um instrumento de acaso. O viajante era de raça inglesa, e, como tal, não falava outra língua senão a sua. Desconheceu por isso a língua em que a inscrição estava feita. Copiou-a, porém, esperando sem dúvida ter descoberto o indício, naquelas alturas, de qualquer povo primitivo, misterioso e estranho. Porém quando, regressado à planície e à povoação, mostrou a inscrição que copiara alguém houve que lha lesse logo, e lhe transtornasse de pronto as idéias que formara. A inscrição, afinal, era em português; era simples, e dizia assim: ESTEVE AQUI O NORONHA.
“O Noronha é o exemplo supremo da iniciativa, que tem por prêmio só mesmo a iniciativa”.
“Deixemos o lado patriótico do assunto”. A velha raça dos navegadores tem – é certo – quem se aventura por montanhas inéditas e, entrando por gargantas desconhecidas, deixe, por escrito, o bilhete de visita esculpido na face dos rochedos. É sabido que em qualquer recanto desconhecido do mundo ou aparece um inglês ou um português – um inglês porque eles são muitos, e um ou outro lá há de ir parar em aventuras ou comércio; um português, porque, embora haja poucos, é destino e não tem lá nada que fazer.
“O teu destino na vida é fazer embrulhos? Descobre, no fazer de embrulhos, a passagem para as gargantas das Allegheny. Não a encontras. É que não sabes encontrá-la. O Noronha encontrou a sua. Julgas que encontrarás a que ele encontrou? Mas se nem encontras a que tens perto, como encontrarás a quem tens longe?”
“Montanhas da América”? Em toda parte tens montanhas da América. Na rotina que te cerca, na estupidez que te prende, na suspensão que te põe a falta de iniciativa dos que te rodeiam… O Noronha está em tudo isso, se temos alma para subir com ele… Utilmente? Inutilmente? Isso é, acredita, secundário… O esforço é que vale e a alma que anima esse esforço… Esteve aqui o Noronha.
“Conhecido? Desconhecido?”. Isso é secundário.
“Tenha o orgulho de ter a inciativa. Tenha o prazer de ter feito o que ninguém fez e de ter passado por onde ninguém passou…”.
Há beleza, verdadeira beleza, e não se sabe quem esculpiu, com o instrumento tosco, na face do rochedo no alto das Allegheny, aquela frase simples, que o inglês não pôde traduzir.
“Aqui esteve a iniciativa, o inédito Noronha”.
“Qualquer que seja o teu trabalho, põe individualidade nele, esforça-te por lhe pores qualquer cousa de único, de diferente, de teu. Há aventuras até no fazer embrulhos. Há campo para a criação até na redação de facturas. Lembra-te do Noronha. Ninguém podia passar pelas gargantas das Allegheny”. Foi lá ter o Noronha.
“Eras capaz de lá ir ter? Não eras. Sê ao menos capaz de ir ter a um novo modo de redigir cartas, de dobrar circulares, de colar selos. Sê original em qualquer cousa. Vive. Sê gente… Não te deixes ser igual aos outros, como se tivesses nascido carneiro”.
“Não faças isso para brilhar”. O Noronha não quis brilhar, pois nem sequer disse bem quem era. Faz isso para te sentires homem, forte, com vida e iniciativa. Toda a vida é passar de montanhas e gargantas de cordilheiras. Em toda parte tu podes viver como um homem com alma para escrever, sobre a superfície das cousas, Esteve aqui o Noronha!
Que fazia o Noronha nas gargantas altas das cordilheiras americanas? Nada. Não é natural que lá fizesse nada. Mas, como ninguém lá tinha ido, foi ele, só porque ninguém lá tinha ido. Deixou o bilhete de visita e, é de supor, retornou, se não morreu lá, o que não sabemos. Mas, seja como for, fez aquilo só porque ninguém o tinha feito. Tanto basta para justificar uma vida. Não foi igual aos outros, não seguiu o caminho trilhado; talhou o seu caminho, com uma alma própria e sua, entre os altos rochedos das cordilheiras altíssimas… Esteve aqui o Noronha.
“Quantos dos que lêem estas breves palavras são capazes de fazer, no seu mister, humilde que seja, no seu cargo, monótono que pareça, o que fez o Noronha? Não é muito galgar montanhas, ou trilhar gargantas de cordilheiras altíssimas. É muito somente ter iniciativa, saber fazer o que os outros não fizeram”.
“Tudo é encontrar qualquer cousa. Mesmo perder é achar o estado de ter essa cousa perdida. Nada se perde; só se encontra qualquer cousa. Há no fundo deste poço, como na fábula, a Verdade. Sentir é buscar.”
20º BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DE SÃO PAULO
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