Livro de Todos | » 4 - Holmes, Poirot e Jean


Conte a sua parte da história

4 - Holmes, Poirot e Jean

Ninguém respondeu. Bruno não insistiu. Ficou parado, olhando para a tela, com outro medo que não aquele sentido segundos antes. A súbita lembrança de Lucila nada tinha a ver com a mensagem recebida – ela usava, sempre que possível, o computador do irmão, em casa, e até trocava mensagens pela internet, mas nunca usava aquele jeito de escrever próprio dos internautas apaixonados, como Rogério.

Lucila vivia apenas no mundo real, ao contrário do namorado, que, criança ainda, já se dividia entre esse universo real, das pessoas de carne e osso, que se esforçam no trabalho, o mesmo todos os dias, maldizem o trânsito, estabelecem relações fugazes e superficiais, e o seu – próprio, da arte que ainda mal se esboçava, onde tudo deve ser perfeito, e por isso impõe tarefas intermináveis, sempre a exigir mais um retoque, mais uma emenda, mais um recomeço. No seu caso, escrever e reescrever, reescrever, reescrever, como recomendava o professor Joaquim.

– Claro, disse Bruno, como se pensando alto, – eu não preciso recuperar meu computador para retomar a minha história, o ladrão levou meu instrumento de trabalho, mas não roubou minhas idéias. Posso, perfeitamente, continuar a escrevê-la, seja à mão, seja na velha Olivetti de papai e, em paralelo, continuo investigando esse mistério.

Rogério nem tempo teve de retrucar, pois o amigo estava distante, pensando em outra coisa. Precisava encontrar Lucila. Precisava dela, da sua certeza calma e segura, encontrar nela o rumo certo para a sua busca. Ali, naquele mundinho fisicamente acanhado de Rogério, com telas reluzentes, cabos e fios se enroscando por toda parte, aparelhos empoeirados, quase mágicos, começou a duvidar – valeria o computador aquele esforço todo? Seria ele fundamental para o que sonhava criar? Mais importante e assustador: o que era realmente mais valioso para o ladrão – o computador de alguns milhares de reais ou o texto mal começado, pequeno no tamanho físico, mas infinito nas suas possibilidades?

Bruno era um leitor voraz, ao contrário dos colegas de escola – seu território era a biblioteca, não o ginásio de esportes, mas ainda não tinha lido tanto que pudesse formular desse jeito a sua angústia. De repente, apenas sentiu que precisava de Lucila, e ligou para ela. A namorada atendeu ao primeiro toque, como se adivinhasse que era ele do outro lado. Talvez porque, naquele momento, ela também precisava dele. O encontro com Magda, a quase sogra, e Francisca, a alcoviteira, marcara fundo demais o seu espírito. Era como se, de repente, como as outras duas deixasse de se ver menina para se ver mulher – e estava assustada, muito assustada. Quando ele falou em se encontrarem na praça de alimentação do shopping, não vacilou: disse sim, calçou as sandálias e, como ele, saiu em disparada.

Sentados nos banquinhos altos da lanchonete, conversaram. Era a primeira vez que faziam isso, assim de conversar mesmo, não trocar quatro ou cinco palavras, frases que ficavam pelo meio, mais insinuavam do que diziam, como acontece com todos os primeiros namorados, desde Romeu e Julieta. Bruno sabia que Lucila tinha ciúme do computador, considerava-o o rival que lhe roubava tanto o corpo quanto a alma e a atenção do namorado. Naquele momento, Bruno, aturdido como estava com as novas idéias que lhe brotavam na cabeça, até concordava com ela. Em parte, apenas.

Concordava com a distância física e mental que os separava, mas não punha, como ela, a culpa no computador. Se, como descobrira num relance, vendo Rogério clicar aqui e ali para começar a correr a internet, estava eufórico, apesar de tudo, porque o ladrão roubara o computador mas não roubara suas idéias, então é porque elas significavam muito mais do que a maquininha moderna e ainda reluzente.

Conversaram e conversaram, como nunca haviam feito antes. Falaram do passado, curtinho ainda para eles, lembraram coisas, encontros, beijinhos. O começo era assim com todo mundo. Sem planejar, sem pensar direito nisso, o que queriam descobrir, ali na lanchonete, é se eles afinal seriam como todo mundo. Lucila deu o primeiro passo para mostrar que não.

 

– Encontrei sua mãe hoje, falamos de várias coisas, nós duas achamos legal você começar a investigação do roubo pela internet. Pode ser um tiro no escuro, mas é um começo. Eu pensei que a gente podia fazer um blog, ir soltando perguntas aqui e ali, quem sabe aparece alguma pista do ladrão. Ou pelo menos de onde foi parar o computador com a sua história.

Bruno não estava para grandes entusiasmos, na verdade nem estava pensando tanto no computador, mas concordou. Pelo celular ligou para Rogério, que também achou legal, mas observou:

 

– Blog dá um trabalhão. Nós dois vamos estar muito ocupados fuçando a internet e estabelecendo contatos pelo Orkut. A Lucila tem de tomar de conta dele.

 

Foi um choque para Lucila. Como Bruno, ela mal sabia mexer no computador, que era do irmão, não dela, usava algumas coisinhas, mandava uns e-mails para as amigas, combinava encontros, mas um blog!!! Era só o que faltava.

 

Combinaram um encontro na casa de Rogério, no dia seguinte, para planejar o blog. E tudo mais que poderia ser feito pela internet para desvendar o roubo.

 

 

Enquanto eles tocavam – melhor, começavam a tocar – a investigação no mundo virtual, seu Antônio se concentrava no mundo real, aquele que estava bem pertinho de sua casa. O vizinho Luís, por exemplo: teria ou não teria alguma coisa a ver com o roubo? A conversa com Bruno fora esquisita, mas podia não ser nada – ele não havia dormido direito, estava cansado, tinha direito ao mau humor. Mas por que fizera pouco caso quando perguntado sobre se vira alguém rondando por ali naquela noite, ou mesmo entrando na casa? Ele era bem chegado no Juca Colosso, estavam sempre conversando, o Juca tomava cafezinho na casa dele. Aí podia ter coisa, como não.

 

O vizinho do outro lado, depois da casa da dona Matilde, também não vira nada. Mas revelou-se muito útil: tem um conhecido que sempre passa lá na oficina onde trabalha, para um papinho. Era funcionário aposentado da Secretaria da Segurança, dizia conhecer delegados, investigadores, gostava de se fazer de importante. Quem sabe não poderia dar umas dicas para a investigação, ou até chamar algum especialista para ajudar?

 

Podia. E assim apareceu no sábado o investigador Jean. Assim à primeira vista, figura pouco convincente: camisa fora das calças, barriga grande, sinal de muita cerveja, nenhum apetrecho de profissional (profissional de literatura, bem entendido), uma lupa, uma pinça para recolher fiapinhos no chão, luvas para não destruir as impressões digitais do meliante, lenço para enrolar as possíveis provas recolhidas no local do crime.

 

Nada.

 

Nada, não. Depois que Magda serviu o cafezinho de boas-vindas, o detetive puxou um enorme cachimbo recurvado, encheu o bocal e começou a soltar longas e fedorentas baforadas.

 

***

Holmes ficou horrorizado.

 

– Elementar demais, meu caro Watson. Ele nem reparou que o dr. Watson não estava presente.

 

Poirot respirou aliviado:

 

– Felizmente ele non terrr moustache

 

Jean não estava para brincadeiras, e logo desfez aquela impressão de caricatura. Trazia dos arquivos da polícia uma informação preciosa: era o primeiro caso de arrombamento naquele bairro em exatos 12 anos e 7 meses.

 

– Muito importante, reconheceu Homes.

 

– Hum, hum, desdenhou Poirot. Mas logo apresentou uma dedução: “Significa que algo muito precioso apareceu por aqui recentemente”.

 

Jean foi além:

 

– Computadores há muitos por aí, e já faz tempo.

 

– É a minha história, deduziu por sua vez o Bruno, sem falar alto para ninguém ouvir.

 

Jean trancou-se na sala com a família, queria ouvir um relato minucioso de tudo que acontecera no dia do roubo. Não podia faltar nada, nenhum detalhe, nenhuma coisinha, por mais insignificante que fosse – Magda, por exemplo, lembrou que naquele dia havia posto água demais no café e Antônio havia reclamado que ficara fraco. Jean achou que isso não tinha importância. Mas os cachorros da vizinhança, tinham latido mais do que o comum? Alguma coisa largada no jardim apareceu no dia seguinte em outro lugar?

 

Alertados, eles começaram a lembrar. Antônio tinha visto o vaso de plantas que fica ao lado da porta de entrada do lado esquerdo, quando seu lugar foi sempre à direita, para não atrapalhar quando se abre a porta. Mas fora Magda quem fizera a troca. Esta deu por falta de duas peças de roupa que havia pendurado no varal do quintal – uma blusa dela e um casaco de Antônio. Ninguém soube dizer o que aconteceu, mas com certeza a culpa não podia ser do ladrão do computador. Ou será que podia?

 

Jean pôs-se a conjecturar:

 

– Pode ser que o ladrão usou as roupas para se disfarçar. Precisamos perguntar aos vizinhos se não repararam em alguém com essas peças rondando por aí.

 

Mas nada parecia muito importante. Para Jean, importante foi a história do Juca Colosso e suas referências a Pirão e Coquinho, que o Bruno contou em seguida. O detetive anotou tudo no caderninho, única ferramenta profissional que trouxera, além do cachimbo e da caneta.

 

Depois foram para o quarto do Bruno, mas antes o detetive sacou do celular e começou a fotografar em todas as direções, as paredes, os quadros nelas pendurados, o cantinho da sala, registrou tudo, principalmente as coisas do quarto do Bruno e – elementar, meu caro Holmes – a porta arrombada.

 

Ao se despedir, Jean bancou o otimista:

 

– Fique tranqüilo, Bruno. Deixe o lugar arrumadinho que seu computador vai voltar logo, logo.

 

Bruno pensou lá com seus botões, como é praxe nas histórias policiais: “E a minha história, será que volta junto?”

***

 

Mais uma vez, naquela noite Bruno também não conseguiu dormir logo ao deitar. Ficou rolando de um lado para o outro, pensando nas tantas coisas acontecidas, o roubo inesperado e tudo que dele decorreu. Lembrou com precisão a última frase que escrevera no computador, no dia do furto: “Pela primeira vez, ainda que tivesse experimentado as maiores desordens na vida, Chico sentia-se perdido”.

 

Lembrou ainda das peripécias que havia preparado para Chico, o personagem da sua história que representava o Juca Colosso. Como este, repetia sem cessar uma frase, bolada quando ainda era jovem e ficou decepcionado por não ganhar o automóvel prometido pelos pais: “Não tem erro…” Valia para todas as horas e todos os assuntos, como o “colosso” do Juca.

 

Será que iria fazer sucesso? Algum dia seria possível descobrir isso também? E adormeceu, com um último pensamento dedicado ao blog. Como seria? Lucila daria conta dele?

Próxima Página

Página Anterior