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3 - Em busca das respostas

 

– Graças a Deus não aconteceu o pior, disse Magda a Francisca, vizinha no caixa do supermercado e grande confidente. Imaginou se a gente estivesse em casa? Me arrepio só de pensar.

– Menina, é verdade. Foi sorte mesmo. Eu também peço muito a Deus pra nunca me acontecer algo assim, mas se tiver que acontecer, que seja quando eu não estiver em casa também. Podem levar tudo, carregar com tudo, desde que eu não esteja lá. Eu me pelo.

– Pois é, Deus é grande mesmo.

Estavam a caminho do ponto de ônibus, de volta para casa.

– Eu fiquei com muita pena do Bruno, você precisava ver a cara desconsolada dele. Ele sonhava com um computador e a gente não podia dar, quando ele conseguiu um, deu no que deu. Mas o pai já prometeu que vai comprar outro para ele.

Elas já estavam se aproximando do ponto, quando Francisca deu uma leve tapinha no braço de Magda.

– Olha quem está lá no ponto, não é a Lucila?

Magda apertou os olhos, não quis tirar os óculos da bolsa. Detestava usar óculos na rua.

– Tem certeza? Não era para ela estar aqui a essa hora, devia estar naquele curso de informática.

– Mas é ela mesmo.

Aproximaram-se. De perto, mesmo sem os óculos, Magda não teve mais dúvidas: era a namorada do Bruno.

– Lucila! – chamou, com ar de surpresa.

A menina levantou a cabeça. Tinha o rosto abatido. Também ficou surpreendida.

– A Magda teimou que não era você, disse Francisca, batendo o próprio ombro no ombro de Magda.

E virando outra vez para Magda:

– Não falei que era ela?

Lucila sorriu sem graça, ao mesmo tempo desconcertada e aborrecida.

– É!?

– Você não devia estar no curso de informática? – Magda começou a sondar.

– É, devia. Mas não estou me sentindo bem. Estou enjoada, vomitando.

Magda teve maus pressentimentos.

– Nooossa! – disse Francisca com os olhos bem arregalados. E continuou, toda espevitada:

– Eu conheço bem esses sintomas…

– Deixa de bobagem, Francisca, bronqueou Magda. Isso não é coisa para brincadeira.

Lucila, com a mão empurrando o estômago, olhou as duas, totalmente vendida. Apesar da bronca,

Francisca continuou, implacável:

– Magda, ela está enjoada, vomitando… Riu, com prazer.

– Lucila, o que está acontecendo? Você nem é louca…

– Pelo amor de Deus, dona Magda, o que a senhora está pensando? Eu estou passando mal, só isto.

Magda fez-se gentil com a menina:

– Ainda bem. Já me chega o problema do roubo do computador do Bruno…

Francisca cortou a conversa, aproveitando a chegada do ônibus. Sinalizou para pará-lo e elas entraram. Felizmente, não estava tão lotado. Magda e Lucila puderam sentar-se juntas, enquanto Francisca ficou no outro banco, mais à frente.

Magda voltou ao assunto do mal-estar de Lucila, mas com cautela para não ofender a menina.

– Lucila…

Lucila continuava com o semblante abatido, as sobrancelhas retorcidas de quem sentia dor.

– … nem sei como falar, mas, você não…? O Bruno não…

– Eu não estou grávida não, dona Magda, se é isto que a senhora está pensando. Eu só comi um bolinho de carne na lanchonete do lado do cursinho de informática. Logo me deu enjôo e essa dor de estômago terrível.

Magda ficou ao mesmo tempo surpresa e aliviada com a resposta rápida e segura da garota. Sorriu, contente. Lucila aproveitou para mudar de assunto:

– Me conta, quem foi que roubou o computador do Bruno?

– E alguém sabe? – disse Magda, respondendo a pergunta com outra pergunta.

***

Bruno encontrou–se com Rogério na entrada da vila. Quase sempre eles se encontravam ali, tinham o mesmo horário de chegada. Bruno ficou feliz e esperançoso, ao ver o amigo. Contou tudo que acontecera de uma enfiada só.

– Mano, não acredito no que você está me contando.

– Roubaram, surrupiaram meu computador, Rogério. E eu estou desesperado. Tô querendo esganar alguém…

– Você já deu queixa na polícia?

– Meu pai deu. Mas que polícia é que vai querer ir atrás de um computador, tem tanta coisa mais urgente e importante para eles cuidarem. Você acha que vão procurar meu computador? Além disso, a essa altura ele pode estar em qualquer lugar desse Brasilzão, desse mundão. Esquece.

– Que chato, mano.

– Mas eu acho que você pode me ajudar nessa, Rogério. Eu estava pensando…

***

– Não, Bruno, isso não é certo. Estou tão chateado quanto você, mas acho que quem deveria investigar isso é a polícia. Já pensou que pode ser apenas o começo de uma onda de assaltos? Que o sujeito que entrou na sua casa pode não estar agindo sozinho? E se tiver um bando atrás dele? – reagiu Rogério.
Bruno, com paciência, concordou, mas insistiu:

– Rogério, entendo a sua preocupação. Mas eu acho que roubaram o meu computador porque eu sabia de coisas que outras pessoas não podiam saber. E tem mais: por que só levaram o computador e deixaram televisão, aparelho de som, o reloginho de ouro? Se fosse uma quadrilha de assaltos teriam levado tudo.

– Cara, você não assiste televisão, não lê mais jornais? Tem quadrilha especializada em roubo de tudo, aparelhos eletrônicos, de notebooks, cama velha, lata de biscoito. Pode ser que o sujeito ou sujeitos, que levaram o seu computador, sejam integrantes de uma quadrilha dessas por aí. Não, Bruno, é muito perigoso, cara. Desculpe, desta vez não vou poder te ajudar – tentou finalizar Rogério, abaixando os olhos, evitando olhar o rosto de Bruno.

Este, no entanto, insistiu:

– Tá, eu sei de tudo isso. Mas eu queria que você me ajudasse de outra forma, utilizando tudo que você sabe de tecnologia e internet. Você é fera nisso!

Ficou um silêncio entre eles. Bruno voltou à carga:

– Você é ou não é meu amigo? Pense o contrário: imagine se o que ocorreu comigo tivesse ocorrido com você? O que você faria agora? Você não acha que eu ia colocar você numa fria de propósito, né?

– Não, acho que não. Somos parceiros há muito tempo. Mas eu ainda acho que você deveria procurar a polícia. Se o Juca não tiver culpa, ótimo. Quem não deve, não teme. Agora, e se foi realmente ele? Como é que vai ficar? – indagou Rogério.

– Você não me respondeu: se nós somos amigos, você iria ou não iria me ajudar?

– Claro que eu iria. Amigo é pra essas coisas, né? Mas como eu posso te ajudar, Bruno?

– Cara, você pode me ajudar muito. Eu já te disse: você é uma fera em internet, conhece tudo sobre instalação e conexão de equipamentos de informática, conversa com todo mundo por aí, aqui em Osasco, em São Paulo, no Rio de Janeiro, no inferno, sei lá… Além do que, você é mais vidrado em literatura policial do que eu.

Rogério sorriu, estava amolecendo. Sentia o maior orgulho quando alguém elogiava sua capacidade de lidar com tecnologia e, sobretudo, navegar pela internet como um Cristóvão Colombo em busca de mundos novos.

– É, nisso eu sou fera mesmo. Desconheço quem seja melhor do que eu – gabou–se. Ensaiou:

– Ok, fechado. Diga lá, quais são os seus planos?
Bruno coçou a orelha, franziu a testa, fungou, fez uma cara daquelas quando o aluno olha para a prova e não sabe responder.

– Bom, planos, planos eu não tenho. Pra falar a verdade, você colocou as coisas num plural, quando eu nem formatei ainda um plano no singular – disse, constrangido. Mas tentou continuar:

– Primeiro eu queria ter certeza de que você me ajudaria, depois…
Rogério foi implacável:

– Peraí, peraí… Não vai me dizer que você me conta tudo isso, faz um convite, quer minha ajuda, e não tem a mínima idéia de como vai fazer para recuperar o seu computador?
Bruno tentou argumentar:

– Calma, cara. Eu não disse que não tenho um plano. Eu disse que eu não o formatei ainda. Duas cabeças pensam melhor do que uma e disso de formatar você entende mais do que eu. Acho que, em primeiro lugar, deveríamos fuçar por aí, na internet, para ver se alguma coisa foi tirada do meu computador e lançada na rede. Depois, gostaria de fazer uma pesquisa sobre alguns nomes que eu tenho e considero suspeitos. Em terceiro lugar, gostaria de interrogar uma pessoa, o Juca Colosso, e queria gravar essa conversa com uma câmera escondida. A interrogação e a montagem do equipamento poderiam ser feitos na garagem da minha casa. Você acha que podemos fazer tudo isso na base do anonimato?

Era um ambicioso começo de trabalho. Rogério coçou o queixo e foi ficando cada vez mais animado – complicação era com ele mesmo. Mas bancou o presunçoso, embora com jeito cauteloso:

– Se você fizesse essa pergunta a um amador, eu não sei como seria a resposta. Mas como você perguntou a um expert, deixa comigo – respondeu, agora todo confiante. E começou a formatar o plano de trabalho.

– Vou te passar uns endereços e você começa a rastrear a internet. Enquanto isso, vou lá em casa começar a juntar os aparelhos todos. Mas cuidado, hein? Não vamos dar bandeira, meus pais não podem saber dessa nossa aventura. Que aventura, hein?

Estava a cinco gigabytes por segundo, o Rogério. Mas Bruno jogou um balde enorme de água fria no entusiasmo dele:

– Cara, vou rastrear a internet como, se roubaram meu computador? Estou a zero…

Rogério fungou outra vez e pensou, mas não falou, para não ofender o amigo: “Taí no que dá ficar digitando com um amigo analógico…” Depois, em voz alta, despejou seu espanto em cima do coitado do Bruno. Sem dó:

– Ô, meu, você fica fazendo o que por aí esse tempo todo? Não sabe nada de nada? Até uma criancinha sairia dessa enrascada na maior tranqüilidade… Anota aí: na escola tem computador que fica aberto pra ser usado o tempo todo. Com internet. Se você tiver uns trocados, vai lá no Parque Continental que tem computador à beça para alugar, com internet, e você navega quanto tempo quiser e puder pagar. Se não puder pagar, tem o posto do Acessa São Paulo lá no Fundo Social de Solidariedade, na Avenida dos Autonomistas. Mas lá o tempo é curto para cada um. E tem até o Poupatempo que empresta computador pra quem precisar, mas tem de ir lá para São Paulo.

E insistiu, voltando ao programa original:

– Vai rastrear a internet e depois pinta lá em casa para me ajudar com os equipamentos.

Bruno não se sentiu seguro. Rastrear como? Nunca tinha feito isso. Tentou conseguir que o amigo ensinasse mais alguma coisa:

– Tenho aí uns nomes que eu queria pesquisar na rede, ver se achava alguma coisa…

– Como assim?

– Você não conhece nenhum site em que a gente possa pesquisar sobre pessoas? Cara, dizem que tem tanta coisa na net. Não tem aquele site que pessoas procuram pessoas? Você deve conhecer isso bem. Dá uma força pra mim aí, mano.

– Bom, não sei se estou entendendo bem. Você está querendo achar alguma pista de alguém que tivesse interesse em roubar seu computador, não qualquer computador, né? Quer pesquisar esses nomes e ver se encontra algo contra eles, se eles têm passagem pela polícia, essas coisas?

– É, é por aí.

Rogério parou um pouco para pensar. Logo afirmou, animadão:

– Acho que tem jeito sim. Quer ir lá em casa pra gente começar a trabalhar?

– Só se for agora mesmo – respondeu Bruno, também animadão…

Não queria confessar, mas estava com medo de se meter pela internet, de cara, sozinho. Com Rogério perto seria mais fácil, pelo menos para começar.
Saíram caminhando juntos, com as mãos cruzadas sobre os ombros, um do outro.

***

No quarto de Rogério estava tudo ligado, a luz do teto, a televisão, o computador, a impressora de lado, o scanner, o no-break. Internauta que é internauta mesmo nunca sai da rede, esse é o lema.

Bruno não sabia direito o que pedir ao amigo, não tinha idéia precisa do que ele poderia conseguir com aqueles aparelhos. Rogério foi direto ao ponto:

– Vamos começar pelo Google, procurar algum sinal da sua história por aí…

– Não, contradisse Bruno. Vamos começar pelo que conhecemos, os contatos mais próximos…

– Mas você não tinha nada lá no seu computador, mal tinha um e-mail! – lembrou Rogério.

E com razão. Bruno se limitava a seu mundo literário, pouco se esforçava em sair dele, o computador era só uma máquina de escrever mais ágil. Mas a reclamação do amigo acendeu uma luzinha na sua cabeça:

– É isso! Um e-mail! Lembra daquele jornal do clube do bairro, que publicou um dos meus contos?

– Sim, eu estava com você no dia em que fomos buscar vários exemplares. O que tem?

– O jornal publicou também meu e–mail de contato, ao lado do meu nome! – disse Bruno, que mal podia conter-se de tanta excitação.

– Cara, isso faz um bocado de tempo! Você ainda o tem? – perguntou o amigo.

– Esqueci a senha, como é que a gente vai fazer?

– Pergunta besta – gabou-se Rogério.

Bruno não acessava seu e-mail desde a época da publicação do conto, tinha sido seu primeiro texto informatizado – antes só na máquina de escrever, ou no lápis. Movido pela ânsia de escrever mais e mais, os acessos à rede limitaram-se a apenas uma semana, quando ainda tinha esperança de que alguém tivesse elogiado ou criticado seu conto. Depois disso, nunca mais – trabalhava só no Word, o correio eletrônico ficou esquecido. Na verdade, criara a conta no Gmail só para atender a exigência do editor.

Foi pá-pum – em três minutos Rogério recuperou a senha. Bruno nem quis saber como ele fez, não ia entender nada mesmo, nem decorar todos aqueles cliques pra lá e pra cá. Sabia que Rogério teria o maior prazer em explicar tudo detalhadamente, mostrar alternativas, abrir coisas e mais coisas na tela. E ele, Bruno, não tinha tempo a perder.

Assim que acessaram a caixa de entrada, uma surpresa. O número de mensagens novas era um absurdo, desproporcional à finalidade daquele e-mail. Eram mais de duzentas, talvez trezentas… Bugigangas de todo tipo. Mas algumas, umas dez ou doze, tinham só o campo assunto preenchido: “Oi, sou eu. Vc estah aih?”. Ficaram intrigados. E mais ainda com a origem delas. Ou melhor, a falta de origem delas: o campo estava sempre em branco.

– Eu já vi isso acontecer – pensou Rogério em voz alta. “Imprimi uma discussão de um fórum sobre como descobrir quem manda mensagens assim. Está em alguma gaveta por aí.”

Enquanto ele procurava, Bruno voltou os olhos para a tela e descobriu uma nova mensagem, que acabara de chegar. O campo assunto estava preenchido, e era outro mistério intrigante: “Preciso falar com vc”.

Atônito, Bruno respondeu, perguntando:

– “Quem é você?” – digitou, com o cuidado de dedilhar as palavras inteiras, ao contrário dos internautas experientes.

Segundos depois, veio a resposta:

– “Achei q já tivesse entendido minhas msgs” – respondeu o internauta, que completou – “Confie em mim, ñ tem erro”.

Bruno afastou–se do computador, como se estivesse com medo. Pensou um pouco, voltou e arriscou:

– Lucila?

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