Conte a sua parte da história
2 - Perguntas (ainda) sem respostas
As perguntas não saíam de sua cabeça. O que fazer? Com quem poderia falar sobre aquilo? Ninguém, a não ser o Juca Colosso, sabia que ele estava escrevendo aquela história. Nem o pai, nem a mãe, muito menos Lucila, para quem só pretendia mostrar o texto quando estivesse pronto. Mas a dúvida continuava: seria o Juca capaz de entrar na sua casa para roubar o computador e dar sumiço no seu romance apenas começado? Não podia acreditar… Juca vivia por ali há muito tempo, todo mundo o conhecia, dava-se bem com todos, embora fosse meio esquisitão. Certeza, mesmo, só que alguém não queria que aquela história fosse publicada. E o Juca estava metido nisso, quisesse ou não quisesse.
Antes de se deitar, guardou a roupa e tomou banho. No entanto, a luta continuava em sua cabeça. Uma parte queria acreditar que fora apenas uma infeliz coincidência, mas, quanto mais pensava, menos acreditava nisso. Embora escrevesse contos, seu gênero preferido era o romance policial. Quando uma tia lhe deu de presente de aniversário a coleção das histórias de Sherlock Holmes, não levou mais que um mês para lê-la por completo. Bom e velho Holmes.
Hercule Poirot, o célebre detetive belga criado pela escritora Agatha Christie, também estava entre os seus preferidos, dele ainda não conhecia todas as histórias, mas as poucas que lera na livraria ou que comprara, economizando o dinheiro dos lanches, foram suficientes para acender aquele brilho particular em seus olhos, aquela inquietação de espírito que o fazia varar a noite lendo e não perceber as horas passando.
Apagou a luz e deitou-se. Fechou os olhos, trocou de lado na cama, mas nada aconteceu, não conseguia dormir. O que fazer? O que eles teriam feito em seu lugar?
? Elementar, meu caro Bruno. Pesquise esse tal Juca – disse-lhe Holmes.
Sim… Embora conversassem com certa freqüência, nunca se preocupou em conhecer melhor o Juca Colosso, o que lhe agradava nele eram os casos, as histórias que um bom vigia sempre tem para contar. No mais, só conhecia o primeiro nome, Juca. Seria mesmo seu nome? Poderia muito bem ser apenas um apelido.
? Nunca se deve desprezar o trivial – reforçou Poirot.
Bruno sorriu. Haviam roubado seu computador e, mais importante do que isso, sua melhor história, mas lhe abriram as portas para, talvez, uma história muito mais fascinante, muito mais complexa, que, certamente, renderia matéria-prima para um bom (quem sabe até muito bom) romance policial. Uma grande história. Havia um mistério a ser resolvido, havia lacunas a serem preenchidas, e caberia a ele fazê-lo.
Ainda era madrugada. Bruno, deitado na sua cama, olhando para o teto, tentava se lembrar das conversas com Juca Colosso a fim de encontrar alguma pista. De repente, um pensamento lhe ocorreu: o assaltante não deveria ser perito em informática, pois, se fosse, e se tivesse interesse apenas na história que estava armazenada no computador, teria simplesmente apagado todo o conteúdo do disco rígido.
Óbvio! O ladrão não precisaria roubá-lo, carregá-lo pela rua, chamando a atenção das pessoas. Apagar os arquivos seria mais inteligente, ou mesmo destruir o disco rígido, pois poderia até passar por um defeito da máquina. “Computador vive dando pau”, disse Bruno, baixinho, para si mesmo. Além disso, ao furtar, o ladrão se arriscaria a ser pego na rua com a prova do crime. Era isso, o ladrão desconhece informática! Será que Juca, Pirão e Coquinho se encaixam nesse perfil? – perguntou-se Bruno. E dormiu disposto a esclarecer a dúvida no dia seguinte.
Bruno acordou pela manhã ainda sob o efeito do que imaginava ter sido só um sonho. Melhor dizendo: pesadelo. Quando olhou, com os olhos ainda pesados de sono, para a mesinha do lado, constatou que não tinha sido só um pesadelo. Era verdade, o computador tinha sido mesmo roubado. O coração apertou no peito e a cabeça latejou. Jogou o cobertor para o lado e pulou rapidamente da cama.
- Saco! – esbravejou.
Impossível que pudessem ter roubado o computador só por causa da história que ele estava escrevendo. Só podia ser coincidência. Quem mais sabia o que estava fazendo? Só mesmo o Juca Colosso, e ele não seria louco de roubar o computador por uma bobagem daquelas. Além do mais, seria um grande risco para ele, Juca, porque estava na cara que a culpa do roubo cairia facilmente sobre ele.
Na cozinha, encontrou o pai que ainda não havia saído para o trabalho, e tomava café com a mãe. Arrastou a cadeira e sentou-se à frente do pai. Pegou uma rosquinha de leite e pôs-se a mordiscá-la de leve. Não sentia muita fome pela manhã.
– É, Bruno, a sua mãe estava falando agorinha mesmo que não percebeu mais nada faltando.
A mãe, que também estava comendo uma rosquinha, resmungou de costas alguma coisa que eles não entenderam.
- É, eu sei – comentou Bruno.
- Vou passar pela delegacia antes de ir pro trabalho e fazer o boletim de ocorrência – falou o pai. – Mas eu fiquei intrigado com isso do ladrão ter só levado o computador do Bruno. Por que isto? Qual o motivo? Tantas outras coisas de valor dentro de casa….
- Parece que ele entrou aqui só mesmo pra levar o computador. Não vi nada revirado, nada, nada. Até o meu reloginho de ouro, presente do seu avô, continuou lá no meu criado-mudo. Tava lá à vista de quem quisesse. É um mistério mesmo. O que você acha, bem?
Antônio não sabia o que responder, não achava nada. Mas Bruno achava:
- Eu acho que sei por quê – respondeu, no lugar do pai.
Pai e mãe olharam curiosos para ele.
- Você sabe?
- É, acho que sei. Bruno pôs a segunda rosquinha, que já estava mordiscando, de volta no prato. Levantou-se da mesa e ficou em pé à porta da cozinha.
– Bom, eu acho que sei. Certeza, certeza, não tenho, mas é a única coisa que me faz achar que seria o motivo para alguém roubar o meu computador. E o pior… – parou um pouco antes de continuar a falar. Os pais já estavam de olhos arregalados.
– E o pior é que eu imagino quem possa ser.
Bruno fez novo silêncio. Antônio tinha o copo na boca e os olhos fixos no filho.
- Ai, fala logo – gritou a mãe, que era sempre mais angustiada.
Bruno voltou a sentar-se à mesa.
- Bom, eu estava escrevendo uma história no computador, acho que não contei a vocês. E acho que essa história interessava a alguém.
- A quem? – perguntou, ansiosamente, o pai.
- Não sei se a palavra certa era “interessava” ou “desinteressava”. O que importa é que eu estava contando uma história que uma pessoa me contou. E essa história era sobre outra pessoa…
- Ai, não estou entendendo nada - disse a mãe, nervosa.
- Espera, bem - disse o pai. - Conta, filho.
- O senhor conhece o Juca Colosso, não conhece? O do depósito…
A mãe deu de ombros, não conhecia. Mas o pai conhecia.
- Então, o Juca… O Juca me contou uma história que ele ouviu uma vez no ônibus, numa viagem vindo do Rio. Um cara que estava sentado do lado dele cochilou e começou a falar umas coisas, assim, dormindo.
- E o que tem isso de mais? O Juca tinha medo que você escrevesse que esse conhecido dele aí falava enquanto dormia? Mas isto é tão normal.
- Não, não é isto, pai. É que esse homem que estava falando enquanto dormia, falou sobre drogas, sobre tráfico de cocaína.
- Ai, isto está me deixando nervosa. Pára, Bruno.
Antônio fez sinal para a mulher, para deixar que o Bruno continuasse a falar. E fez sinal para o filho, para que continuasse.
- É isto, eu penso que o Juca Colosso acha que esse cara que ele conheceu tem envolvimento com o tráfico de drogas, entende? E ele temia que eu contasse alguma coisa, que fizesse um livro e que pudesse metê-lo em encrenca.
- Você é louco, Bruno? Você ia fazer isso mesmo? – perguntou o pai.
- Claro que não, né pai? Claro que eu ia usar esse assunto como um ponto de partida para a minha história, mas não ia citar o nome de ninguém e muito menos denunciar alguém.
- Mas você não disse isso pro Juca Colosso?
- Disse, eu disse sim. Mas o Juca não entende.
- E você acha então que só pode ter sido ele que roubou o seu computador? Você acha que ele roubou porque não queria que você escrevesse essa sua história?
- Não vejo outro motivo. É muito óbvio para ser só coincidência. Mas eu fui burro, não devia ter falado nada pro Juca.
- Bom – disse o pai levantando-se da mesa – se você tem tanta certeza assim que foi o Juca, vou passar na delegacia, fazer o boletim de ocorrência e dizer ao delegado que temos um suspeito.
- Não, pai, pelo amor de Deus, não faça isso.
- Como não? Isso não é coisa que se faça. Se foi esse Juca, que ele devolva o computador roubado e que vá pra cadeia pagar pelo mal que fez.
Quando saiu para ir à escola, logo depois, Bruno estava decidido:
- Tenho que encontrar meu computador. No ônibus, foi pensando por onde começaria a busca ao ladrão misterioso. Mal prestou atenção no caminho e, quando se deu conta, quase perdera o ponto de descida.
Na classe, encontrou os colegas João e Felipe, em pé, conversando.
- E aí, cara, como tá? – perguntou Felipe, sorrindo.
Bruno respondeu sem rodeios:
- Estou péssimo.
Os amigos ficaram surpresos, Bruno sempre fora um cara alegre, de bem com a vida… O que teria acontecido? Antes que perguntassem mais alguma coisa, ele decidiu:
- Vou-lhes contar tudo… – começou.
Foram andando pelo pátio da escola, enquanto Bruno contava sua mais nova, triste e real história.
O roubo misterioso foi o assunto do dia na escola, e todos tinham a mesma certeza: era preciso descobrir o ladrão e recuperar o computador. Já estavam na última aula, quando Bruno perguntou, confuso:
- Caras, por onde eu começo a procurar?
- Simples – respondeu João, descansando a caneta sobre a mesa e olhando de Felipe para Bruno – comece pelos vizinhos.
- Farei isso! – decidiu Bruno, animado com a idéia. Finalmente tinha por onde começar.
Com certeza os vizinhos teriam que ter visto algo, nem que fosse alguém mascarado… Teriam visto para onde correu… As esperanças de Bruno cresceram imensamente após aquele dia de aula.
Mal chegara na porta de casa e já estava tocando a campainha do vizinho da esquerda. Um homem alto e meio barrigudo abriu a porta e olhou para Bruno, meio atordoado.
- Olá, seu Luis! – saudou o garoto parado na soleira da porta.
- Olá, Bruno… Como vai? – perguntou Luis. Tinha óculos de armação redonda e grossa, com uns tufos de cabelo em pé, e sob seus olhos havia olheiras de quem não tinha dormido na noite passada.
Bruno reparou nisso e logo desconfiou de algo. Ignorando a pergunta do homem, o garoto, que ainda estava uniformizado, indagou: - Não dormiu esta noite?
Luis olhou fixamente para ele, agora, sério e, ainda com a expressão um pouco assustada, resmungou em tom grosseiro: - Ora, menino! Não tem algo mais importante para cuidar do que minha vida?!
- Tinha! Mas roubaram meu computador! – respondeu Bruno corajosa e desafiadoramente.
- Seu computador?! Roubaram foi? – perguntou o homem fingindo surpresa, porém Bruno se julgava esperto demais para cair naquele teatrozinho barato de “seu” Luis. Sempre fora muito observador, escutava mais que falava, prestava atenção em cada gesto e cada palavra de pessoas ao seu redor e, com isso, aprendeu a não se deixar enganar facilmente. O adolescente já sabia a resposta pela expressão no rosto de Luis, mas perguntou do mesmo jeito.
- O senhor viu alguém entrando, ou saindo da minha casa ontem à noite?
Luis hesitou, por uns segundos, antes de responder:
- Não.
Bruno achava que o vizinho estava mentindo. Pensou em perguntar se o homem tinha certeza, mas achou que a insistência poderia irritá-lo ainda mais, então apenas se despediu formalmente e entrou em casa.
- E então, filhão… Já tá pensando no novo computador? – perguntou o pai, com um sorriso no rosto, tentando animar
Bruno, que apenas murmurou: “Uhum…”
Magda já terminava de colocar a mesa, e Bruno só pensava em uma coisa: interrogar a vizinha da direita. E foi isso que ele fez assim que acabou de almoçar. Bateu três vezes na porta e esperou. Alguns segundos depois, uma senhora baixa e com rosto bondoso, com uns bons 80 anos, mas demonstrando bastante energia, atendeu.
- Boa tarde, Bruno! – cumprimentou amavelmente. – Como está?
Bruno não percebeu nada de diferente na dona Matilde, retribuiu o cumprimento e perguntou:
- A senhora, por acaso, viu alguém entrando, ou saindo da minha casa ontem à noite?
Matilde parou uns instantes, não para hesitar na resposta, mas para lembrar se vira ou ouvira algo estranho na noite passada.
– Bruninho, eu acho que não vi nada… Pelo menos não lembro. Mas eu sempre anoto tudo o que acontece no meu dia-a-dia no meu caderno. Vou verificar e te digo. Mas, o que houve? Está tudo bem? – perguntou ela preocupada, querendo ajudar o garoto. Bruno assentiu, agradeceu, e pediu para a vizinha não se preocupar.
Voltou novamente para casa, foi direto para o quarto, sem falar com os pais. Sentou-se na cadeira, de frente para a mesa do computador que fora levado dali no dia anterior, pensativo… Afinal, o que Luis teria visto para estar daquele jeito? Com certeza não dormira e estava assustado.
- Será que ele sabe de algo?
Essa pergunta não saía da mente do adolescente. Ele estava decidido, não desistiria, mesmo que tivesse de arrancar informações de Luis à força para recuperar seu computador e sua história, ele o faria sem hesitar. Mas aonde estaria o computador dele agora? Será que o misterioso ladrão havia repassado para alguém? Ou será que havia destruído o aparelho, e, junto, a fantástica história que estava quase pronta?
Essas respostas ele só conseguiria obter, se procurasse mais. Mas tinha certeza de que o vizinho estava escondendo algo valioso, mas o que seria? Qual o grau de envolvimento de Luis nesse caso? Será que ele só estava omitindo o que sabia por medo de que o bandido voltasse para castigá-lo? Ou que ele até soubesse quem era o ladrão, e simplesmente não queria denunciá-lo por amizade ou por outra coisa qualquer? As perguntas eram muitas… Mas até que as respostas aparecessem, Bruno não descansaria. Disso, ele tinha certeza.
Decidiu-se pela investigação por conta própria, assumindo riscos. A história interrompida poderia ser retomada, mas a que preço? Precisaria de alguém que o ajudasse, mas não poderia sair dizendo a qualquer um o que ia fazer. Os pais, com certeza, ficariam contra. Lucila a mesma coisa. Na escola, nem pensar, eram um bando de tagarelas, logo sua investigação estaria na boca de todo mundo.
Lembrou, então, de Rogério, o amigo do bairro que se oferecera para publicar seu conto num blog de literatura. Rogério tinha os mesmos 15 anos de idade de Bruno e também gostava de literatura – mas gostava mais ainda da tecnologia, dos computadores, da internet sobretudo, os games, a câmara digital. Bruno sempre lembrava dele como o amigo que já tinha seu próprio blog, fotolog, perfil no Orkut, e até o reprovava por isso. Mas naquela hora do aperto, depositou suas esperanças nele: seria possível começar uma investigação pela internet? E manter o anonimato?
20º BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DE SÃO PAULO
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